A Eicma 2026 foi realizada em sua 83ª edição e se destacou como a maior de sua história, apresentando 765 expositores, 2.142 marcas de 52 países e cobrindo uma área de 300 mil metros quadrados distribuídos em dez pavilhões no complexo de Rho, em Milão. Este espaço representa um aumento em relação a 2025 e é o maior utilizado pelo salão italiano, sendo que 74% das marcas presentes eram estrangeiras.
O evento, considerado o maior salão de duas rodas da Europa, trouxe diversas novidades relevantes tanto para o mercado global quanto para o nacional. Embora muitos modelos exibidos em Milão possam ter potencial para chegar ao Brasil, até o momento, apenas duas marcas confirmaram a vinda de modelos para o país.
Novidades para o Mercado Brasileiro
A confirmação mais direta para o público brasileiro veio através de uma publicação no Instagram. O piloto Leandro Melo, em um post gravado durante a Eicma, ao lado dos perfis oficiais da Kawasaki Brasil e de Sonia Harue, anunciou três modelos destinados ao Brasil: KLE 650, Versys 900 e KX 327. Não foram divulgados detalhes sobre preços ou prazos.
Estes três modelos são lançamentos recentes da marca. A Versys 900 é uma crossover que preenche a lacuna entre a Versys 650 e a Versys 1100, equipada com quatro cilindros, 122 cv e 9,9 kgfm. Já a KLE 650 é uma aventura com motor bicilíndrico paralelo, retomando uma nomenclatura antiga, posicionada acima da KLE 500 e esperada na Europa no início de 2027.
A KX 327 é notável por ser uma moto de dois tempos com monocilíndrico de 327 cm³, refrigerada a líquido e utilizando injeção eletrônica em vez de carburador, focada em off-road. Trata-se do primeiro dois-tempos acima de 250 cm³ desenvolvido pela Kawasaki em aproximadamente duas décadas.
Modelos Internacionais em Destaque
A empresa italiana de controle chinês expôs duas aventureiras em Milão, sendo que a menor delas, a Coguaro, tem destino confirmado para o Brasil, conforme apurado pela Motociclismo na Eicma 2026. Ainda não foram definidos seu preço ou cronograma. A Coguaro é uma enduro de entrada que compartilha plataforma com a Kanguro 300, apresentando rabeta reforçada para passageiro e bagagem, além de tanque reposicionado. Seu motor é um monocilíndrico de 292,4 cm³, DOHC refrigerado a líquido, produzindo 34 cv a 9.000 rpm e 2,75 kgfm a 8.500 rpm, estando dentro da norma Euro 5+ e com velocidade máxima declarada de 145 km/h.
Em termos de especificações, a Coguaro segue o padrão enduro, com rodas de 21 e 18 polegadas, garfo convencional de 37 mm com 230 mm de curso, Pro-Link traseiro de 230 mm, altura livre do solo de 255 mm, assento a 845 mm, peso seco de 160 kg, tanque de 14 litros e ABS desativável. No segmento de 300 cm³ com roda de 21 polegadas, sua principal concorrente no Brasil é a Honda Sahara 300.
A Camel é apresentada como a principal aposta, sendo uma maxitrail de 670 cm³ que resgata o nome da bicilíndrica dos anos 1980 que participou do Paris-Dakar. Ela gera 81,5 cv a 10.000 rpm e 7,1 kg.m a 7.000 rpm, e possui uma versão de potência reduzida para a categoria A2 na Europa. Seu chassi treliçado de aço cromo-molibdênio inclui balança de alumínio, garfo invertido de 48 mm, 250 mm de curso em ambas as extremidades, 280 mm de altura livre, assento a 850 mm, freios Brembo (dois discos de 300 mm na frente e 255 mm atrás), tanque de 20 litros e peso seco de 200 kg. A Camel não obteve confirmação para o Brasil.
A Africa Twin recebeu sua maior revisão desde a CRF1000L, ocorrida dez anos antes. O bicilíndrico paralelo foi aumentado para 1.131 cm³, com 94 mm de diâmetro e taxa de compressão de 12,1:1, entregando 119 cv e 12,1 kgfm. O quadro e a balança traseira ficaram 1,4 kg mais leves, e o tanque foi redesenhado para se estender parcialmente sob o assento, visando reduzir o centro de gravidade. A suspensão Showa EERA agora incorpora o sistema Skyhook Control, e o painel conta com duas telas, de 5,7 e 7 polegadas, suportando CarPlay e Android Auto sem fio.
Existem três versões da Africa Twin com o mesmo motor, quadro e eletrônica, diferenciadas por roda dianteira, suspensão, peso e tanque. A versão padrão utiliza roda de 21 polegadas, tanque de 18,8 litros e pesa 237 kg. A Adventure Sports vem com roda de 19 polegadas, tanque de 24,2 litros — oferecendo uma autonomia estimada de 480 km pela Honda — e pesa 245 kg. A variante Honda Sensing Ride é a primeira moto da marca com pacote de assistência ao piloto, incluindo câmbio DCT e dois radares para piloto automático adaptativo, alerta de colisão e ponto cego, mas atinge 256 kg, quase 30 kg superior à versão mais leve da linha. A Enduro Sports, voltada para off-road, pesa 228 kg, possui suspensão mecânica de 240 mm (dianteira) e 230 mm (traseira), 260 mm de altura livre do solo, câmbio manual e pintura tricolor HRC, sem o para-brisa ajustável das outras.
A CBR1000RR-R Fireblade 2027 também foi reformulada, com a Honda afirmando que cerca de 75% dos componentes foram alterados. A potência permanece em 217 cv, mas o pico de torque de 11,6 kgfm agora é alcançado a 10.500 rpm, 1.500 rpm antes do modelo 2024, auxiliado pelos cornetos de admissão variáveis. A moto pesa 199 kg com tanque cheio, apresenta maior carga na dianteira (53,3% contra 52,8%), quadro com 20% menor rigidez lateral e balança mais curta. O design elimina as winglets, mantendo a carga aerodinâmica com sidepods na parte inferior da carenagem. Além da versão padrão, existem as variantes SP, com suspensão semiativa Öhlins S-EC 3.0, e a HRC Works Edition, destinada a pista, com ajustes reguláveis de ângulo de direção e pivô da balança.
O estande também exibiu o V3R 900 E-Compressor, um modelo de produção planejado com motor de três cilindros em V e o que a Honda descreve como o primeiro compressor com controle eletrônico mundial para motos, segundo pesquisa da própria fabricante.
Outras motocicletas apresentadas incluem a ADV125, com motor eSP+ de 125 cm³ e painel TFT de 5 polegadas; a CBR500R Four, equipada com quatro cilindros e embreagem eletrônica E-Clutch; a RN0, a primeira bicicleta elétrica off-road da marca, desenvolvida com a ROTWILD; e os conceitos EV Outlier e Onitsuka Tiger Honda Mid Sports.
Inovações da Yamaha
A Yamaha apostou em uma nova categoria em Milão com a série RW, que mescla características de scooter e trail: pilotagem flexível, suspensões de longo curso, pneus off-road e plataformas dobráveis para os pés.
A RW700 utiliza o bicilíndrico CP2 de 689 cm³, gerando 69,3 cv e 6,6 kgfm, acoplado ao câmbio automatizado Y-AMT — o primeiro desenvolvido para scooter, com modos automático e manual controlados por botões no guidão. Possui IMU de seis eixos, modos de pilotagem Road e Gravel, controles de tração, deslizamento e frenagem, garfo invertido de 41 mm com 160 mm de curso, monoamortecedor de 155 mm, ABS traseiro desativável, rodas raiadas de 17 e 15 polegadas com pneus Pirelli Scorpion Rally STR e 170 mm de altura livre do solo. A versão Explore adiciona garfo ajustável, manoplas e assento aquecidos, cavalete central e comandos iluminados.
A RW350 introduz um monocilíndrico de 327 cm³ com 29,2 cv a 7.000 rpm e 3,2 kgfm a 5.750 rpm, além da arquitetura Yamaha Dynamic Ride: o motor é fixado rigidamente ao chassi, sem coxins de borracha, permitindo que apenas o conjunto CVT oscile. Também conta com IMU de seis eixos, acelerador eletrônico, controle de tração, piloto automático, painel TFT de 5 polegadas e 185 mm de altura livre.
No segmento elétrico, a NMAX E emprega a nova plataforma A1 EV, com bateria de lítio de 3,5 kWh, motor de 7,5 kW (aproximadamente 10 cv) e 3,4 kgfm, carregador embarcado de 800 W e autonomia de até 104 km no ciclo WMTC. A Yamaha a compara a uma 125 a gasolina. A XENTER E segue o mesmo conceito, com rodas de 16 polegadas e 108 km de autonomia WMTC. A NMAX E está programada para chegar na primavera europeia de 2027, com produção no Vietnã.
Royal Enfield Apresenta Novidades
A Royal Enfield utilizou Milão para mostrar o projeto que sustentará sua próxima fase: um bicilíndrico paralelo de 743 cm³, a maior cilindrada já utilizada pela marca, que será lançado simultaneamente em dois modelos: a aventureira Himalayan 750 e a café racer Continental GT 750. Anteriormente, o topo de linha era o bicilíndrico de 650 cm³.
Este motor gera 55 cv a 7.000 rpm e 6,42 kgfm a 5.000 rpm, com 90% do torque disponível a partir de 3.500 rpm, segundo a Royal Enfield. Ele utiliza câmbio de seis marchas, embreagem assistida e deslizante, mantendo a refrigeração a ar e óleo, uma solução menos comum em aventureiras médias, que geralmente são refrigeradas a líquido. A fabricante alega que este novo conjunto possui o mesmo peso da unidade de 650 cm³.
A Himalayan 750 é a mais eletrônica da Royal Enfield até então, oferecendo cinco modos de pilotagem, controle de tração em quatro níveis, ABS em curva e controle de tração sensível à inclinação, todos gerenciados por IMU de seis eixos, além de piloto automático e monitoramento de pressão dos pneus. Seu painel TFT de quatro polegadas inclui navegação e duas portas USB-C (uma de 27 W).
A suspensão da Himalayan 750 é Showa em ambos os lados, com garfo invertido de 43 mm e 190 mm de curso na frente e 175 mm atrás, rodas de 19 e 17 polegadas, freios de 280 mm (duplo) e 255 mm, assento a 815 mm, vão livre de 205 mm, tanque de 17,8 litros e peso de 224 kg em ordem de marcha. Com 55 cv para 224 kg, a relação é considerada modesta para a categoria, alinhada à proposta de torque baixo e trilha, mas um aspecto a considerar em estradas e com bagagem.
A Continental GT 750 utiliza uma versão revisada deste mesmo motor e foi anunciada como a moto de maior desempenho da história da marca, embora a Royal Enfield não tenha divulgado potência, torque, preço ou data, impossibilitando comparações imediatas com a Himalayan. Ela virá em duas configurações: uma sem carenagem e outra carenada com guidão mais baixo, e contará com eletrônica intencionalmente simplificada.
A marca também exibiu a scrambler elétrica Flying Flea S6, derivada da FF C6, com modo off-road inédito e previsão de lançamento para meados de 2027, sem fornecer dados sobre potência, bateria ou autonomia.
Na Europa, a Himalayan 750 já está disponível para pré-venda com preços variando entre € 7.390 (rodas de liga), € 7.790 (raiadas) e € 9.290 (versão Flagship com bagageiro Givi). Estes são valores de lançamento europeus e não servem como referência de conversão para o Brasil. Nenhum dos três modelos teve chegada confirmada no Brasil.
Lançamentos da Suzuki e BMW
A GSX-10R é uma esportiva carenada derivada da GSX-S1000, posicionada um nível abaixo da GSX-R1000. Ela mantém o motor K5 de 999 cm³, agora na configuração Euro 5+, entregando 152 cv e 10,8 kgfm, e pesa 214 kg em ordem de marcha, com tanque de 18 litros e assento a 810 mm do chão. A inovação eletrônica é o Slide Control, que gerencia o deslizamento da roda traseira em curvas, complementado pelo Brake Hold, que mantém a moto parada em subidas. A Suzuki informa que são 15 funções eletrônicas, o maior número já aplicado a uma moto da marca. O consumo homologado é de 15,8 km/l (WMTC), e as vendas começarão gradualmente a partir de meados de 2027.
A SV-7S representa a evolução da SV650, mantendo o V-twin de 645 cm³, agora com 73,4 cv e 6,5 kgfm, além de acelerador eletrônico, três modos de pilotagem, controle de tração em três níveis e quickshifter bidirecional. O quadro treliçado de aço e o garfo de 41 mm são mantidos. Pesando 200 kg, possui assento a 785 mm, tanque de 14 litros e consumo de 24,4 km/l (WMTC). Sua chegada ao mercado europeu está prevista para a primavera de 2027.
A BMW expôs a M 1000 RS em Milão, que a fabricante denomina a naked mais potente do mundo. Baseada no motor de 999 cm³ da superesportiva M 1000 RR, ela entrega 218 cv e 11,5 kgfm. A BMW declara um tempo de 0 a 100 km/h de 3,2 segundos e uma velocidade máxima de 283 km/h. A moto inicia na M 1000 R com pacote M Competition, recebendo pedaleiras da RR, assento 20 mm mais alto (850 mm), escapamento de titânio, winglets de carbono, rodas M Carbon de 17 polegadas e suspensão eletrônica DDC. Serão fabricadas 1.000 unidades globalmente, com vendas a partir de março de 2027, e preço de 40.000 euros na Alemanha, já incluindo 19% de IVA, representando um valor de mercado europeu sem ligação direta com o custo local.
A 1390 Super Duke GT EVO utiliza o V-twin LC8 de 1.350 cm³, produzindo 190 cv e 14,8 kgfm, com comando variável Cam-Shift, suspensão semiativa WP APEX SAT com garfo thru-rod, pinças Brembo Stylema e painel tátil de 8,8 polegadas com navegação integrada.
Um lançamento inesperado foi a 450 RC, uma esportiva de dois cilindros prevista para entrar em produção no final de 2027 como ano-modelo 2028. A KTM detalhou suas especificações, incluindo garfo WP APEX invertido de 43 mm e balança.



