Local com maior frota de carros elétricos no Brasil utiliza termelétrica para recarga
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Local com maior frota de carros elétricos no Brasil utiliza termelétrica para recarga

Fernando de Noronha, que é um distrito de Pernambuco e não um município propriamente dito, possui a maior proporção de carros elétricos em relação à sua população entre todos os municípios brasileiros. O arquipélago registrou 78 veículos totalmente elétricos desde 2022. Considerando seus aproximadamente 3,4 mil habitantes, isso representa um carro elétrico a cada 43 pessoas, enquanto a média nacional é de um a cada 639 habitantes, o que significa quase 15 vezes menos.

Embora exista uma justificativa ambiental relacionada à proteção de um patrimônio natural do Brasil, a frota de Noronha é majoritariamente recarregada utilizando energia proveniente de uma termelétrica que consome combustível. Esses dados foram compilados por um levantamento do AutoPapo, que cruzou registros de emplacamento da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico) de janeiro de 2022 a setembro de 2026 com estimativas populacionais do IBGE. O registro do veículo considera o endereço do proprietário, sendo que para empresas e órgãos públicos, é utilizada a sede.

A usina Tubarão, com capacidade de 10 MW, funciona como a principal fornecedora de eletricidade para Noronha. As duas usinas solares da ilha, Noronha I e Noronha II, inauguradas em 2017 e 2018, geram 950 kW e supriram cerca de 10% do consumo em 2024, conforme relatado pelo portal Canal Solar. Assim, a maior parte da recarga dos carros elétricos da ilha depende de combustíveis fósseis. Essa contradição foi mencionada por residentes durante um debate que levou a Assembleia Legislativa de Pernambuco a postergar a proibição de veículos a combustão.

Para o próximo ano, há planos para uma nova usina, que contará com mais de 30 mil painéis solares, terá capacidade de 22 MW e incluirá baterias de 49 MWh, representando um investimento de R$ 350 milhões da Neoenergia. Uma lei sancionada em janeiro de 2020 pelo então governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), visava proibir a entrada de carros movidos a gasolina, etanol ou diesel em Fernando de Noronha a partir de agosto de 2022 e retirar esses veículos de circulação até 2030.

O objetivo central desse programa, denominado Noronha Carbono Zero, é eliminar as emissões de carbono da ilha, que abriga grande parte de seu território dentro de um parque nacional marinho. Inicialmente, o foco era nos bugues alugados a turistas. Devido ao fato de a entrada de veículos depender de autorização da administração local, que geralmente exige a substituição por um veículo já presente na ilha, o governo começou a emitir licenças para que moradores pudessem adquirir carros elétricos sem essa necessidade de permuta. Além disso, havia isenção de IPVA e auxílio no frete marítimo, estimado em cerca de R$ 10 mil. Contudo, o prazo foi adiado em três ocasiões, sendo a data atual agosto de 2029. De acordo com a Assembleia Legislativa de Pernambuco, ainda existem pendências relativas a pontos de recarga e à disponibilidade de veículos, além da fragilidade da economia local.

Em junho de 2019, antes da promulgação da lei, a Renault forneceu em comodato à administração da ilha três modelos Zoe, dois Twizy e um Kangoo elétrico, juntamente com quatro carregadores, destinados ao uso oficial e como suporte ao programa Noronha Carbono Zero. Como esses veículos foram entregues antes de 2022, eles não foram incluídos no levantamento estatístico.

O segundo local com alta proporção é Eusébio (CE). Esta cidade, com 84 mil habitantes, faz fronteira com Fortaleza e apresenta a maior renda média do Ceará, atingindo R$ 4.607 por responsável do domicílio, segundo o Ipece, instituto de pesquisa governamental do estado. Um padrão semelhante é observado em Lauro de Freitas, vizinha de Salvador, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, e em Cabedelo, adjacente a João Pessoa. Brasília, que ocupa a terceira posição, combina alta renda com isenção de IPVA para carros elétricos.

Grande parte dessa renda está concentrada em condomínios residenciais, facilitando a instalação de carregadores nas garagens. Nos sete estados com maior renda domiciliar per capita, segundo o IBGE, foram registrados 561 veículos eletrificados (totalmente elétricos e híbridos) por cada 100 mil habitantes desde 2022. Em contraste, nos sete estados de menor renda, todos localizados no Norte e Nordeste, o número foi de 217, menos da metade.

Em São Jorge do Patrocínio, cidade de 6,7 mil habitantes localizada às margens do rio Paraná, no noroeste de Paraná, o bom desempenho é atribuído à frota pública. A cidade é sede do Coripa, um consórcio de prefeituras estabelecido para a conservação ambiental das margens do rio Paraná, próximo ao Parque Nacional de Ilha Grande. Parece que os veículos estão registrados em nome deste consórcio. As duas remessas emplacadas na cidade — 13 BYD Dolphin Mini em fevereiro de 2025 e 38 Geely EX2 em julho de 2026 — coincidem em quantidade e data com veículos elétricos doados pela Itaipu Binacional ao consórcio. Estes veículos servem secretarias municipais como meio ambiente, agricultura, assistência social e saúde, em municípios associados que possuem pouquíssimos outros carros elétricos registrados.

Segundo a Itaipu, essas doações fazem parte do programa Itaipu Mais que Energia, cujo propósito é auxiliar prefeituras menores, com orçamentos limitados e dificuldade de acesso a crédito, proporcionando a muitas delas o primeiro carro elétrico. A usina também justifica esse investimento pelo impacto da conservação ambiental da região no reservatório da hidrelétrica.

Pinhal, no norte do Rio Grande do Sul, próximo a Palmeira das Missões, ilustra o impacto de números reduzidos. Com 3 mil moradores, a cidade entrou no top-10 com 20 carros 100% elétricos, sendo oito deles registrados em dois lotes de quatro unidades. Nesse cenário, cada carro novo eleva o índice em 33 pontos por 100 mil habitantes.

Por outro lado, 1.059 municípios brasileiros (19% do total) não registraram nenhum veículo eletrificado no período analisado, seja 100% elétrico ou híbrido (excluindo híbridos leves). Dos que não possuem carros 100% elétricos, são 2.133. Entre os municípios com menos de 5 mil habitantes, 42% não possuem nenhum eletrificado. Isso não ocorre entre os 338 municípios com mais de 100 mil habitantes.

A Região Norte concentra a maior porcentagem de cidades sem registro de eletrificados (34%), e o Pará apresenta o menor índice estadual, com 51 carros 100% elétricos por 100 mil habitantes. O maior município sem nenhum veículo registrado desde 2022 é Santo Antônio do Descoberto (GO), com 76 mil habitantes. Esta cidade faz divisa com o Distrito Federal, que figura como terceiro no ranking.

Este caso não é singular. As oito maiores cidades goianas do Entorno, que circundam o Distrito Federal, somam 1,2 milhão de habitantes e registraram apenas 57 carros eletrificados desde 2022, o que equivale a menos de 5 por 100 mil habitantes. As demais cidades goianas com mais de 50 mil habitantes, excluindo Goiânia, possuem 425 veículos. Índices tão baixos quanto os do Entorno, entre cidades com mais de 100 mil habitantes, são encontrados apenas em municípios do interior do Amazonas e do Pará, como Parintins (AM), que é acessível somente por via fluvial ou aérea.

Uma possível explicação reside no fato de o Distrito Federal ser a única unidade federativa que isenta de IPVA todos os carros elétricos e híbridos, sem limite de valor. Em Goiás, a Secretaria da Economia investiga desde 2024 cerca de 700 proprietários desses veículos que residem no estado, mas que registraram os automóveis com endereços fictícios no DF ou em outras localidades. O prejuízo estimado atinge R$ 10 milhões. As investigações não especificam as cidades goianas onde os suspeitos residem. Caso parte dos carros elétricos circulantes no Entorno esteja registrado no DF, o efeito é duplo: eleva o índice de Brasília e anula o dos municípios vizinhos.

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