É notável como não é necessário viajar pelo globo para descobrir um universo automobilístico totalmente distinto. A história da Fiat no Brasil está profundamente ligada à sua instalação em Betim na década de 1970, levando muitos a considerá-la uma fabricante «ítalo-mineira». De fato, a unidade da Fiat em Minas Gerais foi responsável por projetos de grande reconhecimento mundial, como o pioneiro 147 movido a álcool, ou pelas adaptações de projetos italianos para o mercado brasileiro, como o Fiat Uno, que chegou a ser exportado para a Itália como Innocenti Mille.
Na Argentina, contudo, a Fiat também desenvolveu uma identidade e história locais, com seus próprios projetos e versões «endêmicas» de modelos globais. Isso inclui, naturalmente, versões esportivas muito notáveis de modelos que eram originalmente italianos ou ítalo-mineiros.
O FlatOut esteve presente no Autoclasica, um dos principais eventos de carros antigos da América Latina, funcionando como um verdadeiro concurso de elegância no país vizinho. Realizado em San Isidro, próximo a Buenos Aires, o evento recebeu vários exemplos da Fiat local. Aproveitando a oportunidade, esta matéria detalha a história por trás da sigla IAVA.
O que representa a IAVA?
IAVA é a abreviação de «Industria Argentina de Vehículos de Avanzada». Sua gênese remonta à década de 1970, período em que o automobilismo se estabeleceu como uma paixão nacional na Argentina. A Fiat já fabricava veículos no país desde meados do século XX através da Fiat Concord, sua filial local, e rapidamente se tornou uma das marcas mais vendidas no mercado, assim como ocorreu no Brasil. Simultaneamente, havia uma crescente procura entre os motoristas argentinos por automóveis com características mais esportivas, tanto em termos de desempenho puro quanto de dinâmica, atendendo tanto aos entusiastas casuais quanto aos que dedicavam o hobby a carros de pista e corridas.
Neste contexto de efervescência, a IAVA foi fundada em 1971. A empresa nasceu de uma parceria estratégica entre a Fiat Concord e um grupo de concessionários e engenheiros argentinos com grande apreço por carros de competição. O objetivo primordial era suprir essa demanda emergente por esportivos, utilizando modelos comuns da marca italiana e criando versões aprimoradas com peças disponíveis e recursos existentes. É evidente que os argentinos e os brasileiros compartilham semelhanças neste aspecto.
Os veículos preparados pela IAVA não eram produzidos em escala industrial; eram edições limitadas e altamente customizadas, caracterizadas pelo processo artesanal de montagem e ajuste, com extrema atenção aos detalhes. Com sede na Avenida Fondo de la Legua, número 2200, em Martínez, província de Buenos Aires, a IAVA teve como responsável técnico o engenheiro Juan Carlos Fisanotti, o idealizador do lendário 128 IAVA 1100. Sob sua liderança, a preparadora realizava modificações muito mais profundas do que meras alterações estéticas na carroceria ou acabamento. Considerando que se trata de mais de cinquenta anos atrás, a única maneira confiável e eficiente de obter ganhos de potência e melhorias dinâmicas era reformular componentes internos do motor, o sistema de carburador, os escapamentos e realizar ajustes exclusivos na suspensão e nos freios, oferecendo um serviço completo.
O pioneiro: Fiat 128 IAVA TV 1100
O marco inicial dessa trajetória foi o Fiat 128 IAVA TV (Turismo Veloz) 1100, lançado em 1971. Este modelo foi fundamental para redefinir a percepção pública do pequeno sedã. A mecânica original de 1.116 cm³, que gerava aproximadamente 60 cv, foi totalmente refeita com a inclusão de um carburador de corpo duplo Weber IDF 13 40/40, um coletor de admissão exclusivo projetado pela própria IAVA e um comando de válvulas com perfil mais agressivo.
Com estas modificações, o carro alcançou 71 cv a 7.000 rpm e 12,2 kgfm de torque a 3.000 rpm. Isso permitiu que o veículo atingisse uma velocidade máxima de 160 km/h, um feito notável para um automóvel compacto de 1,1 litro naquela época, especialmente considerando seu peso de pouco mais de 850 kg. O som do motor era outro diferencial, resultado de um coletor e ponteira de escape desenvolvidos sob medida pela preparadora.
Exteriormente, o capô apresentava duas faixas longitudinais interrompidas, que se tornaram sua assinatura principal, complementadas por faixas laterais na altura dos soleiras das portas. No interior, a natureza esportiva era clara em um painel completo, que incluía tacômetro graduado até 10.000 rpm, manômetro de pressão de óleo e indicadores de temperatura de água e óleo. O volante ostentava o emblema da IAVA no botão da buzina, e seu design variou: formato «X» nos primeiros exemplares e formato «K» nos subsequentes. Uma curiosidade adicional era o assento do motorista, equipado com uma bolsa de ar ajustável por válvula para moldar o apoio ao corpo do condutor.
A era dos 1300
Devido ao sucesso do Fiat 128 1100, a IAVA optou por investir ainda mais na linha. Em 1974, a empresa decidiu aumentar a cilindrada do motor para 1.300 cm³, iniciando uma série de versões que solidificaram sua reputação entre os entusiastas argentinos.
A primeira dessas novas versões foi o Fiat IAVA TV 1300 Franja Ancha, produzido entre 1974 e 1977. Neste modelo, o carburador Weber foi trocado por um Solex 34/34 com abertura simultânea das borboletas, juntamente com um comando de válvulas de perfil ainda mais agressivo, focado em alta rotação. Com taxa de compressão de 8,8:1, o motor 1.3 atingia 82 cv a 6.750 rpm, mantendo o mesmo torque da versão 1100. Esteticamente, distinguia-se por uma faixa lateral mais larga, localizada na altura das maçanetas, e um volante esportivo revestido em couro.
Posteriormente, entre 1977 e 1978, surgiu o Fiat IAVA Doble Línea, construído sobre a carroceria do 128 L. Mantendo a mecânica consagrada do 1300, o carro possuía duas linhas laterais coloridas percorrendo a lataria (daí o nome) e, internamente, incorporou o painel de instrumentos modernizado da geração seguinte. Com o aumento da taxa de compressão para 8,9:1, a potência subiu de 82 cv para 88 cv, elevando a velocidade máxima para 163 km/h.
No mesmo período, a marca lançou o Fiat IAVA 100 HP 3 Líneas, uma configuração ainda mais radical que alcançava 100 cv graças à taxa de compressão de 9,3:1 e ao uso de um carburador Solex 36/36. Reconhecido por suas três faixas laterais, ele tinha uma velocidade máxima declarada de 168 km/h, embora quem dirigiu o veículo afirme que este número é bastante conservador.
O ápice da IAVA com o 128 foi o lançamento do Fiat IAVA TV 1300 Europa, produzido de meados de 1978 até o começo dos anos 1980. Disponível em variantes de 88 cv e 102 cv, o TV 1300 Europa explorava ao máximo a leveza do conjunto de 850 kg. Com essa preparação, o sedã acelerava de 0 a 100 km/h em menos de dez segundos e alcançava uma velocidade máxima de 170 km/h. Seu grande diferencial residia na notável relação de potência específica: o motor atingia 79,13 cv/L, um índice superior ao de supercarros e carros de rali renomados da época, como o Fiat 131 Abarth Rally e até mesmo a Ferrari 512 BB.
Visualmente, o Europa se destacava pelos novos faróis dianteiros, que eram quadrados (embora talvez menos harmônicos, o que era apenas um detalhe), pelo spoiler dianteiro integrado com faróis de neblina, pela faixa lateral em degradê com o nome da versão, e por um interior sofisticado que mesclava tecido xadrez com acabamentos em courino preto.
Fiat 133 IAVA
Além do sedã 128, a divisão esportiva argentina direcionou seu foco para um projeto de origem peculiar na linha local: o Fiat 133. Inicialmente lançado na Espanha pela SEAT, durante o período em que a fabricante espanhola mantinha cooperação técnica com a matriz italiana, o modelo com motor e tração traseiros chegou à Argentina, onde foi fabricado pela filial da Fiat entre 1977 e 1980, e depois pela Sevel Argentina até 1982, totalizando cerca de 15.800 unidades produzidas em Córdoba.
O Fiat 133, por si só, é um carro interessante. Ele pode ser visto como um híbrido, utilizando o chassi do Fiat 850 com uma carroceria inspirada no Fiat 126, um modelo que se tornou um enorme sucesso na Polônia e originou uma notável tradição de pilotos «suicidas». Contudo, originalmente, ele não tinha intenção de ser rápido: o pequeno motor longitudinal de quatro cilindros e 903 cm³ com comando lateral entregava modestos 37 cv (40 cv na versão L) e torque de 5,8 mkg. Mesmo pesando cerca de 710 kg, o modelo padrão levava 32,4 segundos para atingir 100 km/h e alcançava uma velocidade máxima de apenas 113 km/h.
O panorama mudou drasticamente quando a IAVA interveio no modelo entre 1979 e 1980, criando o Fiat 133 T IAVA (e, subsequentemente, o 133 Top). Mantendo a cilindrada de 903 cm³, a preparadora refez a admissão do motor, resultando em 55 cv a 6.500 rpm e 7 kgfm a 3.500 rpm. Embora pareça pouco, em um carro tão leve, isso gerou uma diferença imensa: o tempo de 0 a 100 km/h caiu para 18,4 segundos (uma redução impressionante de 14 segundos em comparação com o modelo comum), e a velocidade máxima aumentou para 133 km/h, uma coincidência numérica perfeita com o nome do carro. Combinado com as melhorias na suspensão e o estilo renovado, a IAVA transformou o modesto projeto da SEAT em um compacto vibrante e cheio de personalidade.
Fiat 147 Sorpasso
Em 1981, o Fiat 147 foi introduzido na Argentina — inicialmente importado do Brasil, mas produzido localmente pela Sevel a partir de 1982. Rapidamente, a Fiat argentina aplicou a metodologia IAVA neste hatchback. O nome Sorpasso, em italiano, significa «ultrapassagem», e o apelido era extremamente adequado.
O 147 Sorpasso utilizava o motor 1.3 ajustado pela IAVA, fornecendo 90 cv a 6.400 rpm, graças a um carburador Solex de corpo duplo, cabeçote com fluxo modificado, coletores de admissão e escape exclusivos, comando de válvulas com graduação mais agressiva e um silenciador menos restritivo que produzia um ronco robusto. É importante notar que este motor diferia do 1.3 brasileiro: enquanto o nosso era baseado na família 124 adaptada para o mercado nacional, o 147 argentino usava uma evolução do motor do Fiat 128 italiano.
Com quase 40 cv a mais que as versões padrão, o Sorpasso registrava 0 a 100 km/h em 8,2 segundos — sendo o único automóvel produzido na Argentina naquele período a conseguir tal feito em menos de dez segundos — e atingia 165 km/h de velocidade máxima. Este é considerado o Fiat 147 mais potente e rápido já fabricado.
O visual foi adaptado para acompanhar o desempenho, apresentando um spoiler dianteiro proeminente, faróis auxiliares Cibié, faixas exclusivas em todo o perímetro, um pequeno aerofólio traseiro e um aplique plástico cinza entre os faróis traseiros (realocando a placa para o para-choque). O conjunto era completado por rodas raiadas de 14 polegadas com freios servoassistidos, pneus radiais e suspensão com cambagem ligeiramente negativa nas quatro rodas, proporcionando uma postura muito estável. Internamente, o modelo vinha equipado com volante de três raios de metal e um painel com tacômetro e revestimentos exclusivos. Este veículo é uma raridade absoluta, tendo sido fabricado em apenas 403 unidades no total.