Biometano gerado a partir de resíduos orgânicos surge como alternativa à dependência do diesel no Brasil
Leia mais
AutoPapo
autopapo.com.br

Biometano gerado a partir de resíduos orgânicos surge como alternativa à dependência do diesel no Brasil

O Brasil possui uma forte dependência do óleo diesel, um combustível derivado do petróleo que é essencial para a produção, o transporte e a escola pública no país. Contudo, o alto custo e a dificuldade em suprir toda a demanda nacional representam desafios significativos.

Existe uma solução potencial encontrada nos resíduos orgânicos descartados em lixeiras, que podem ser convertidos em biometano. Em 2025, o consumo brasileiro de diesel atingiu aproximadamente 50,5 bilhões de litros, o que equivale a mais de 138 milhões de litros diariamente. A produção interna não é suficiente para cobrir essa necessidade.

Conforme dados da ANP, em 2025, as importações líquidas de diesel somaram 16,3 bilhões de litros, representando 27,3% da demanda interna. Essa dependência externa gera efeitos econômicos, pois o combustível importado está sujeito às flutuações do preço internacional do petróleo, taxa de câmbio, custos de frete e condições globais de mercado. O Banco Central registrou que, em 2025, o diesel compôs 61% do valor importado entre os derivados de petróleo.

Adicionalmente, o país fica vulnerável a instabilidades na distribuição causadas por conflitos internacionais, como as guerras entre Rússia e Ucrânia, e entre Estados Unidos e Irã. Reduções na oferta resultam em disparadas de preços, criando um efeito cascata: o aumento no preço da refinaria é repassado ao consumidor final, elevando custos em toda a cadeia logística.

Além do impacto financeiro, há uma grave consequência ambiental. O diesel é altamente poluente, liberando grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) e outros gases nocivos, contribuindo para o efeito estufa e o aquecimento global. Muitas exigências de mercado pressionam as indústrias a adotarem soluções energéticas mais limpas.

Neste contexto, o biometano emerge não apenas como uma opção ecológica, mas também como uma alternativa estratégica. O Brasil detém um grande potencial para a produção e uso desse gás, que é gerado pela purificação do biogás resultante da decomposição de matéria orgânica.

A matéria-prima para o biometano pode ser obtida em aterros sanitários, resíduos urbanos, dejetos animais, atividades agropecuárias e subprodutos industriais. Ao tratar o resíduo como insumo energético, em vez de apenas um problema de descarte, é possível obter parte da energia necessária para produção e transporte localmente.

Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), dentro do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, projeta que o aproveitamento total da biomassa residual mapeada no país pode gerar mais de 170 bilhões de metros cúbicos normais (Nm³) de biometano. Embora este seja um potencial técnico, um volume factível de 35 bilhões de Nm³ é projetado para 2035, o que poderia suprir cerca de 50% da demanda nacional de diesel ao final do período decenal, mitigando a necessidade de importação.

Bruno Baeta, pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto, especialista em resíduos e biometano há mais de 15 anos, considera o gás uma solução viável para os problemas ambientais e econômicos do diesel. Ele enfatiza que, se todo o resíduo for aproveitado, haverá uma «confortável segurança energética», dada a forte indústria agropecuária brasileira.

O interesse no biogás tem impulsionado investimentos em infraestrutura e tecnologia, com um mercado regulamentado e segurança jurídica existentes. Empresas como Gasmig e Comgás já atuam na cadeia de produção e distribuição de biogás.

Davi Lopes, Head da GWM Hydrogen e PhD em planejamento energético, explica que o biometano é vantajoso por sua composição molecular. Diferentemente de combustíveis com longas cadeias de carbono (como diesel de 16 a 20 carbonos), o metano (CH4), principal componente do gás natural, possui apenas um carbono e quatro hidrogênios, resultando em uma diminuição proporcional do carbono e aumento do hidrogênio, o que se alinha à realidade brasileira.

O processo produtivo envolve a geração de gás pela ação bacteriana sobre dejetos orgânicos, que são depositados em silos de compostagem para captura do biogás. Após filtragem, ele se torna biometano. Baeta acrescenta que o processo é contínuo, com um tempo de produção de gás de 30 dias por lote, e o resíduo final pode ser usado como fertilizante.

Para otimizar a produção, especialmente no setor agropecuário, Baeta recomenda que haja uma melhor triagem do material, separando o lixo orgânico do resíduo industrial, o que reduziria custos e aumentaria a eficácia.

O biometano possui eficiência energética similar ao GNV. A Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) instituiu o PNDG, estabelecendo metas de redução de emissões e obrigando a inclusão de combustível renovável no mercado, com meta inicial de 0,5% de biometano misturado ao GNV neste ano.

O programa prevê a expansão gradual do uso do gás, seja em redes de gasoduto ou em pontos de abastecimento via «gasoduto virtual» (transporte pressurizado por caminhão). Cidades como São Paulo e Goiânia já possuem veículos movidos a biometano, e fabricantes como a MWM oferecem motores adaptáveis para uso com biometano desde 2019.

Thiago Brito, Gerente de Vendas e Soluções Biocombustíveis da MWM, destaca que o Brasil tem uma vantagem competitiva devido aos biocombustíveis, com potencial de produção de biometano chegando a 70% do consumo total de diesel e capacidade de reduzir emissões de CO2 em mais de 90%.

A Refordiesel, em Contagem (MG), também adotou o biometano. Edmar Bergamini, sócio da empresa, realiza conversões de motores diesel para biometano, removendo injetores e instalando componentes para o gás, permitindo que o motor funcione sob o ciclo Otto sem perda de potência ou torque. O custo médio dessa conversão é de R$ 100 mil, sendo uma forma de descarbonizar sem trocar o veículo.

Grandes empresas de logística e indústria, como ReiterLog e Mercado Livre, estão trocando frotas por caminhões a biometano, em colaboração com Ambev e Natura. A Toyota demonstrou um protótipo da Hilux movida a biometano na Agrishow 2025, como parte de sua estratégia de redução de emissões, embora o projeto ainda esteja em desenvolvimento.

Popular