Mercado de luxo brasileiro: SUVs chineses lideram vendas, desafiando marcas tradicionais
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Mercado de luxo brasileiro: SUVs chineses lideram vendas, desafiando marcas tradicionais

Em agosto, o veículo premium mais vendido no Brasil foi um SUV que havia sido introduzido no país apenas um ano antes. O Denza B5, pertencente à marca de luxo BYD, alcançou 677 emplacamentos, superando o BMW X1, que registrou 509 unidades. Este foi o terceiro mês consecutivo de liderança do Denza B5, conforme dados fornecidos pela Bright Consulting.

Embora o segmento premium tenha apresentado um declínio de 16% em agosto em comparação anual, totalizando 3.757 unidades, o acúmulo de licenciamentos no ano mostra uma queda de 6,4%, com 31.601 registros nos primeiros oito meses de 2025, contra 33.780 no mesmo período do ano anterior. Em contraste, o mercado brasileiro como um todo demonstrou avanço de 19,3% no mesmo intervalo.

Apesar disso, a participação de veículos chineses no mercado premium experimentou um salto significativo, passando de 1,3% para 20,1% em doze meses. Isso se deve ao aumento de 60 emplacamentos em agosto de 2025 para 757.

A BMW seguiu uma trajetória diferente dentro da sua própria categoria, vendendo 1.255 unidades no mês, o que corresponde a 33,4% de participação. Contudo, o desempenho logo abaixo dela revelou dificuldades: a Denza encerrou agosto em segundo lugar com 18,2% de participação, enquanto as marcas Mercedes-Benz e Volvo juntas perderam quase nove pontos percentuais em um único mês. A Porsche finalizou 2025 no Brasil com 5.520 unidades, representando uma redução de 11,8%, e isso ocorre após um primeiro trimestre global com queda de 15%, um cenário anterior à chegada da Denza.

Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, explica essa situação atribuindo-a à «forte migração de clientes premium» para veículos eletrificados chineses que não pertencem estritamente ao segmento de luxo, pois oferecem maior tecnologia, mais potência, mais espaço e um custo inferior.

Maiara Kososki, especialista em branding e mercado de luxo e doutora em estratégia de marketing, questiona por quanto tempo as marcas tradicionais conseguirão manter a fidelidade do cliente quando seus produtos deixarem de ser superiores. Ela argumenta que a marca possui peso, mas é fundamental diferenciar dois conceitos frequentemente confundidos: «reconhecimento faz com que uma empresa seja lembrada, já o valor de marca faz com que o consumidor confie, deseje e aceite pagar mais por ela».

No setor automotivo, esse peso da marca é amplificado, visto que a aquisição envolve riscos financeiros, questões de segurança, manutenção e revenda. As marcas tradicionais vendem uma confiança construída ao longo do tempo, que Kososki descreve como «uma espécie de crédito antecipado concedido pelo consumidor». É esse crédito que sustenta as vendas mesmo quando o produto perde a posição de melhor da categoria, pois o comprador adquire não apenas potência e autonomia, mas também reputação e aceitação social. Entretanto, Kososki alerta que esse saldo não é eterno, afirmando que «a tradição pode conceder tempo à empresa, porém não oferece imunidade».

Quando a disparidade de produto se torna clara e persistente ao longo de múltiplos ciclos, a percepção de qualidade diminui, e a qualidade percebida é um pilar do próprio valor da marca. A aceleração da eletrificação intensificou esse cronômetro, pois redefiniu os padrões de excelência. Os consumidores passaram a considerar software, autonomia e a experiência digital, aspectos que antes não eram considerados. Kososki resume que, «nesse novo território, marcas chinesas não precisam necessariamente superar mais de cem anos de história; precisam demonstrar competência nos atributos que passaram a definir o futuro do automóvel».

Kososki também diferencia premium de luxo: um carro pode ser caro, potente e moderno, mas não ser percebido como luxo se faltar identidade, legitimidade e valor simbólico. Ela aponta que «tecnologia pode ser desenvolvida rapidamente, já a aura de uma marca precisa ser sedimentada pelo tempo».

Essa distinção não é inédita. Em The Luxury Strategy, referência do setor, Jean-Noël Kapferer e Vincent Bastien classificam como premium, e não luxo, aquele produto cujo preço é justificado integralmente pelo seu desempenho superior, citando Audi e BMW como exemplos desse grupo. Dessa classificação surgem duas abordagens de venda distintas. As marcas chinesas persuadem através do produto, enquanto as europeias e americanas comercializam um universo simbólico, baseando-se na origem, nos códigos de design e nos momentos culturais em que estiveram envolvidas.

Kososki compara: «as marcas chinesas estão dizendo ‘veja tudo o que este carro é capaz de fazer’; as marcas tradicionais dizem ‘veja tudo o que esta marca representa’». Apesar disso, o emblema ainda possui valor monetário. Uma pesquisa realizada pelo Startline Motor Finance na Grã-Bretanha neste mês indicou que 44% dos motoristas dispostos a gastar 50 mil libras trocariam uma marca de prestígio por um carro chinês, embora 19% afirmem que a herança pesa mais à medida que o valor aumenta.

A própria Denza parece ter compreendido essa dinâmica. Com o lançamento do B5 a R$ 436 mil, a marca visou competir com um Land Rover Defender, que custa aproximadamente o dobro, e planeja expandir de cinco para 22 lojas até dezembro. Werner Schaal, diretor da marca no Brasil, declarou à Bloomberg Línea que «a Denza não pode ter pressa, mas precisa ter presença».

Kososki conclui que a barreira entre os dois modelos está desaparecendo em ambos os sentidos: as empresas chinesas perceberam que a tecnologia por si só não basta, e as tradicionais descobriram que a herança isoladamente não atende às novas expectativas. Ela sugere que o futuro será definido por «dois tipos de legitimidade: a construída pela história e aquela conquistada pela capacidade de interpretar o futuro». O próximo desafio já está em curso, com a Denza preparando o Z9 GT, avaliado em R$ 650 mil, e um supercarro elétrico estimado em cerca de R$ 1,5 milhão.

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As vendas de automóveis no Brasil apresentaram crescimento, embora este seja marcado pela ausência de contribuição das montadoras consideradas tradicionais. Em agosto passado, o país registrou uma média diária de 13,1 mil unidades vendidas, o que representou a segunda melhor performance do ano, ficando atrás apenas de maio, que alcançou 13,7 mil unidades por dia.

Igor Calvet, presidente da Anfavea, ressaltou o aumento na participação dos veículos importados e a consequente diminuição da fatia dos veículos fabricados nacionalmente. Ele observou que, nos primeiros oito meses do ano, houve um crescimento positivo de 18,4% nas vendas, contudo, a produção cresceu em apenas 8,5%, afirmando que o mercado não está absorvendo todo o potencial de crescimento.

Entre janeiro e agosto deste ano, a comercialização de modelos importados de automóveis e utilitários leves subiu 30,3%, enquanto os veículos de produção interna registraram um avanço de 17,2%. Calvet detalhou que, dos 148 mil veículos adicionais vendidos, somente 47 mil foram efetivamente produzidos dentro do Brasil.

Análise dos Veículos Importados

Dos 101 mil veículos restantes, a maior parte provém da China, chegando em formatos parcialmente montados (SKD) ou totalmente desmontados (CKD), o que significa que eles não contribuíram significativamente com conteúdo local. Entre os dez modelos mais vendidos no mês anterior, três eram chineses: um era importado e os outros dois possuíam índices mínimos de peças brasileiras, como pneus e vidros. O executivo não forneceu previsões sobre o quanto os modelos chineses podem se expandir no mercado.

Um aspecto importante a ser notado é que, a partir de janeiro, todos os veículos elétricos importados, sejam eles CKD ou SKD, passarão a estar sujeitos à alíquota de 35% de Imposto de Importação (I.I.), taxa estabelecida desde a década de 1990. Apesar disso, ainda existe um estoque considerável de modelos elétricos da BYD que entraram isentos desse imposto.

No cenário internacional, os incentivos fiscais possuem um valor fixo na moeda local e são bem inferiores aos praticados no Brasil. Adicionalmente, as exportações chinesas para a Argentina também provocaram o desvio de vendas de veículos brasileiros naquele país vizinho.

Mesmo com o progresso notável de carros elétricos e híbridos no mercado brasileiro de automóveis e utilitários leves (que juntos somam 94% das vendas, restando 1% para ônibus e 5% para caminhões), sua presença nas vendas de janeiro a agosto continua bastante modesta.

Apesar de os percentuais de crescimento serem altos, estes podem ser enganosos devido a cálculos matemáticos excessivamente otimistas, o que pode levar a celebrações prematuras, exigindo uma análise mais cautelosa do panorama geral.

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