Ideia de carro a álcool, valorizada no Brasil, foi defendida por Henry Ford há um século
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Ideia de carro a álcool, valorizada no Brasil, foi defendida por Henry Ford há um século

O Brasil é o país que mais investiu em etanol, implementando isso em três fases distintas: o programa Proálcool nos anos 1970, a adoção do sistema flex a partir de 2003 e, mais recentemente, a integração com veículos híbridos que também utilizam álcool.

A concepção por trás dessas três ondas de incentivo ao etanol possui mais de cem anos e teve sua origem fora do Brasil, sendo defendida por Henry Ford.

No começo do século XX, o futuro automotivo ainda era incerto. Enquanto muitos engenheiros inclinavam-se pela eletricidade, Ford defendia o álcool etílico, pois este possuía produção doméstica, queimava de maneira mais limpa que a gasolina da época e libertava a indústria da dependência do petróleo importado. Para ele, o combustível do amanhã deveria vir do campo.

A descoberta de vastas reservas de petróleo nos Estados Unidos no início do século XX provocou uma queda no preço da gasolina, paralelamente à expansão da infraestrutura de refinarias. Contudo, durante o período da Lei Seca, entre 1920 e 1933, a fabricação de álcool permaneceu praticamente proibida, inclusive para fins industriais.

O tema retornou ao debate brasileiro após o choque do petróleo de 1973. Visto que o país importava mais de 80% do que consumia, o governo de Ernesto Geisel instituiu o Proálcool em 1975 com o objetivo de fomentar o cultivo da cana e o uso de álcool nos tanques dos veículos. Em apenas uma década, os automóveis movidos exclusivamente a etanol alcançaram 85% das vendas de novos modelos, estabelecendo um recorde em 1985.

Essa liderança não perdurou muito tempo. A subsequente queda no preço do petróleo e o aumento do açúcar tornaram a cana economicamente mais viável para a produção de alimentos do que para o combustível veicular, somado à instabilidade no fornecimento, o que abalou a confiança dos condutores. O etanol só conseguiu retomar relevância nos anos 2000 com a introdução do sistema flex, que eliminou a necessidade de o consumidor optar por um único tipo de combustível.

A atual terceira fase está em andamento. Desde agosto de 2025, a gasolina disponível nos postos contém 30% de etanol anidro, um aumento em relação aos 27% anteriores. Além disso, a eletrificação se adaptou ao álcool: a Toyota lançou o Corolla em 2019, sendo o primeiro híbrido flex produzido no Brasil, e a BYD fabrica no Camaçari (BA) os modelos plug-in flex Song Pro e Atto 2.

Na Europa, o sucesso dessa aposta dependeu da política tributária local. Na França, o Superetanol E85, que contém entre 65% e 85% de álcool, custa aproximadamente R$ 5,24 (0,88 euro), sendo menos da metade do preço da gasolina comum, que é de R$ 13,27 (2,23 euros), devido ao fato de a parcela de etanol ser quase isenta de impostos. O consumo disparou em 83% entre 2021 e 2022, um movimento impulsionado pelo contexto da revolta dos coletes amarelos.

A França representa 25% da produção europeia de bioetanol e detém 8% do mercado de superetanol. Outros países como Alemanha (16%), Reino Unido (12%) e Espanha (11%) produzem em grande escala, mas não promovem ativamente o E85; nesses locais, o etanol é tributado como gasolina e destinado às misturas E5 e E10 ou à exportação. A Suécia foi uma exceção nesse cenário, entre 2002 e 2008.

No Brasil, o etanol registrou um preço médio nacional de R$ 4,05 em agosto, comparado a R$ 6,65 da gasolina comum, conforme dados da ANP. A paridade de preços gira em torno de 70%, tornando-o vantajoso para os veículos flex, embora a expansão da cultura da cana continue sob análise devido à sua ligação com o desmatamento.

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