A introdução da gasolina E32, que eleva o teor de etanol para 32%, gerou preocupações e publicações alarmistas nas redes sociais, com alegações de que essa nova mistura poderia causar corrosão em motores, especialmente aqueles que não são flex.
No entanto, especialistas indicam que, desde que a gasolina não esteja adulterada, o impacto negativo sobre o veículo não é tão grave quanto divulgado nas mídias sociais. Por isso, é sempre recomendado abastecer em postos de confiança.
Para compreender a composição dos combustíveis, é preciso diferenciar o etanol hidratado do anidro. O etanol hidratado, encontrado diretamente nas bombas, pode conter entre 4% e 5% de água, sendo parte de seu processo produtivo. Se o teor de água for superior a isso, pode indicar adulteração no posto.
Já o etanol anidro, que não contém água, é mais caro devido ao tratamento necessário para sua obtenção. Este etanol anidro é incorporado à gasolina para funcionar como agente antidetonante, elevando sua octanagem. Embora essa adição ocorra globalmente, geralmente em percentuais de até 10%, no Brasil o teor é maior devido à produção de cana-de-açúcar e ao objetivo de diminuir a dependência do petróleo externo.
Para detalhar como as alterações na concentração de etanol anidro afetam os motores não flex, foi consultado o engenheiro Erwin Franieck, conselheiro e mentor de PD&I da SAE Brasil, que possui experiência com injeção eletrônica desde o início dessa tecnologia no país.
Veículos vendidos no Brasil a partir de 1997 são equipados com sonda lambda, que monitora a queima do combustível. Essa informação é utilizada pela injeção eletrônica para ajustar o mapa de acordo com o combustível e outros fatores. A mesma sonda é responsável por identificar o tipo de combustível usado em motores flex, determinando o teor de etanol para a centralina.
A proporção ideal entre massa de ar e massa de combustível para uma combustão completa, conhecida como relação estequiométrica, é de cerca de 14,6:1 para a gasolina pura e 9,0:1 para o etanol. Segundo Erwin Franieck, os sistemas de injeção implementados após 1997 possuem uma base de tolerância de 20% de variação estequiométrica em carga parcial, e até 30% em marcha lenta. Essa margem de segurança para a inclusão de etanol é universal e aplica-se a modelos importados.
Franieck exemplificou a diferença estequiométrica entre a antiga gasolina E22 e a nova E32, que permanece abaixo de 5%. Assim, motores com mais de vinte anos têm capacidade de se adaptar ao combustível atual, sendo notada apenas uma alteração no consumo. O engenheiro relatou ter testado em seu próprio carro monocombustível gasolinas com até 40% de etanol, e o funcionamento permaneceu normal. Contudo, ele alertou que a qualidade do combustível é o ponto que requer atenção dos condutores.
Com a popularização dos carros flex, proprietários de postos de má-fé modificaram suas práticas de adulteração, passando a adicionar mais etanol em vez de solventes. O risco para os carros que utilizam apenas gasolina reside no emprego de etanol hidratado nessa fraude, pois a água presente pode corroer peças internas do motor, sendo motores com injeção direta ainda mais suscetíveis.
Em motores flex ou a álcool, há mecanismos de proteção que permitem operar com até 23% de água; acima desse limite, podem surgir falhas. As informações sobre sonda lambda e a adaptabilidade das injeções são válidas para veículos fabricados a partir de 1997, incluindo os importados. Sistemas de injeção sem sonda lambda não possuem essa flexibilidade.
Motores equipados com carburador, inclusive os de motocicletas, também podem apresentar dificuldades com a gasolina E32, visto que o etanol pode danificar componentes de alumínio do carburador e exigir um ajuste diferente do original.
Apesar de o aumento recente no teor de etanol na gasolina ter sido aprovado sem testes específicos, os fabricantes asseguram que seus carros monocombustíveis operarão corretamente. A Chevrolet confirmou que seus modelos não flex, como o Equinox e a Silverado, estão aptos a rodar com a E32. A marca norte-americana mencionou que seu centro de engenharia regional está preparado para desenvolver os veículos conforme as condições locais, e essa tropicalização auxilia na mitigação de problemas ligados a gasolina com alto teor de etanol.
Da mesma forma, a GWM garante que todos os seus veículos a gasolina vendidos no país podem utilizar a E32 sem problemas. A empresa afirmou que seus carros foram validados antes do lançamento nacional e estão prontos para misturas ainda maiores, como a E35. Segundo a marca chinesa, seus automóveis passam por calibração de motor e sistema de combustível para o mercado brasileiro, considerando todas as especificidades da gasolina local com alto teor de etanol. A GWM também está introduzindo motores flex nas linhas Haval H6 e Tank 300, com novos lançamentos previstos.
É importante notar que o etanol hidratado pode corroer motores não projetados para ele, o que não ocorre em veículos flex ou movidos exclusivamente a álcool, devido ao uso de tratamentos anticorrosão nessas máquinas. Já a própria gasolina, mesmo a E32, não apresenta esse risco, pois o etanol anidro é adicionado justamente para prevenir tal problema.
Embora o etanol anidro seja higroscópico e possa absorver até 6% de água, quando misturado à gasolina, o risco de corrosão das peças internas é eliminado. O que pode acontecer é a evaporação da gasolina no tanque, mas isso é gerenciado pelo sistema de recirculação, que devolve o combustível ao reservatório ou o queima no motor, tudo previsto no projeto do veículo.
Adicionalmente, os motores comercializados no Brasil já são preparados para lidar com o etanol. Rogério Gonçalves, diretor de Combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), esclarece que os motores brasileiros são desenvolvidos para gasolina com etanol, independentemente de serem flex ou não, já que o etanol é usado na gasolina brasileira desde a década de 70, com a criação do Proálcool.
Os riscos de avarias mecânicas estão associados a combustíveis adulterados. A gasolina E32, em comparação com a antiga E30 ou a premium E25 (ainda disponível), resultará apenas em um aumento no consumo do veículo. Isso se aplica inclusive aos carros importados vendidos oficialmente no Brasil. Os modelos disponíveis no mercado passam por um processo de tropicalização para operar com a gasolina brasileira e atender às demais exigências, conforme apontado por Rogério Gonçalves. Em tese, não há previsão de necessidade de manutenção nos veículos devido ao aumento do etanol. Veículos importados que não foram tropicalizados pelas montadoras para a gasolina brasileira devem receber atenção especial e, se necessário, podem optar pela gasolina premium, que mantém 25% de etanol.
