As concessionárias da Mercedes no Brasil alegavam que o desgaste precoce da sede e do guia da válvula de escapamento nos cabeçotes dos motores M260 ou M264, utilizados nos modelos A, CLA, GLA ou GLB fabricados entre 2019 e 2022, era causado por problemas na gasolina, seja por adulteração ou alto teor de etanol. Dessa forma, nem as concessionárias nem a fábrica assumiam a responsabilidade pelo dano.
Entretanto, oficinas especializadas, como a rede High Torque em São Paulo e a Autocentro Bosch Confiar em Contagem, investigaram os veículos com esse defeito. A investigação revelou que a matriz da marca, sediada na Alemanha, havia instruído as concessionárias a estender a garantia desses motores para 15 anos ou 150 mil milhas (equivalente a 241 mil km).
Informações Adicionais
No Brasil, a fábrica consultada recusou-se a comentar a questão levantada pela reportagem. As concessionárias, por sua vez, informaram que, ao receberem carros com o problema, a solução é avaliada caso a caso. Isso pode resultar em garantia estendida sem custo para o proprietário, ou em uma cortesia de 50% do valor do reparo, ou a Mercedes não cobra pelo cabeçote novo, mas o cliente arca com a mão de obra na concessionária.
Há uma percepção de hipocrisia ao cobrar qualquer valor pelo conserto de um defeito originado em um erro de fabricação admitido pela matriz na Alemanha. Como o problema não foi classificado como de segurança, não houve um recall dos veículos afetados. No entanto, ao reconhecer a falha e o potencial aumento das emissões devido ao funcionamento irregular do motor, a fábrica recomenda o reparo gratuito para o proprietário por meio de um Boletim Técnico.
O defeito reside no cabeçote, que possui válvulas de admissão e de escapamento; especificamente, a sede onde se apoia a válvula de escape sofreu um desgaste prematuro. Este desgaste costuma ocorrer em quilometragens mais altas, a partir de 50 mil km, momento em que o veículo teoricamente já não está sob garantia. Os sinais incluem funcionamento irregular, falha na marcha lenta e perda de desempenho. Em casos mais graves, a peça solta pode causar danos aos pistões e cilindros, e a combustão irregular eleva o nível de emissões gasosas pelo escapamento.
A Mercedes-Benz no Brasil demonstra maior atenção aos seus veículos pesados (ônibus e caminhões), mas menos aos automóveis. A empresa já tentou produzir carros no país duas vezes sem sucesso: o Classe A em Juiz de Fora (entre 1999 e 2005) e o SUV GLA e Classe C em Iracemápolis (de 2016 a 2020), antes de desativar a fábrica, que foi posteriormente vendida à chinesa GWM. Atualmente, a marca alemã ocupa apenas o terceiro lugar no segmento de carros de luxo no Brasil, ficando atrás da BMW e da Volvo.
A negligência da filial brasileira também se reflete nos manuais do proprietário, que utilizam uma edição destinada a Portugal, a qual não aconselha o uso de gasolina com mais de 10% de etanol, enquanto o manual brasileiro indicava 27% (E27).
O NHTSA, órgão de segurança do governo norte-americano, recebeu reclamações sobre essa falha e emitiu um comunicado oficial:
Extensão de Garantia
A Mercedes-Benz reconheceu o defeito e concedeu uma extensão de garantia que abrange o cabeçote do motor por até 15 anos ou 150.000 milhas nos veículos afetados, como os modelos A-Class, CLA, GLA e GLB. Para verificar a cobertura específica, deve-se entrar em contato com uma concessionária local fornecendo o número do chassi (VIN).
