O setor automotivo chinês registrou o décimo mês consecutivo de declínio nas vendas domésticas durante julho, ao passo que suas exportações quase dobraram no mesmo período. Esse desequilíbrio está forçando grandes montadoras globais, como Toyota, Volkswagen e as marcas de Detroit, a reavaliar suas estratégias, visto que historicamente consideravam a China um grande gerador de lucros.
De acordo com a Associação de Automóveis de Passeio da China (CPCA), as vendas no varejo de automóveis de passageiros caíram 20,9% em julho se comparado a julho de 2025, atingindo 1,46 milhão de unidades. Em relação a junho, houve uma redução de 8,8%. No acumulado de janeiro a julho, o mercado chinês apresentou uma contração de 20,5%.
Em contraste, as exportações alcançaram 923 mil veículos no mês, representando um aumento de 88%. No primeiro semestre, os envios chineses totalizaram 5,31 milhões de unidades, o que corresponde a um crescimento de 53% em comparação com o ano anterior.
O Brasil figura central nesse movimento de exportação. Segundo dados da CPCA divulgados pelo seu secretário-geral, Cui Dongshu, o país recebeu 410.825 veículos chineses no primeiro semestre, configurando o segundo maior volume mundial, ficando atrás apenas da Rússia, que registrou 448.157 unidades. O Reino Unido (255.260) e a Austrália (237.823) ficaram atrás desses números.
A baixa demanda interna é atribuída à combinação de custos elevados de combustível e uma economia fraca. A CPCA justificou o aumento do preço do petróleo pelo fechamento do Estreito de Ormuz, o que elevou o custo de manutenção de carros movidos a combustão e impulsionou a transição para modelos elétricos e híbridos. Os veículos de nova energia foram responsáveis por 65,1% das vendas totais em julho, embora o varejo desses modelos também tenha diminuído 3,9%, totalizando 951 mil unidades.
As empresas estabelecidas estão sob pressão de duas frentes. Internamente, na China, marcas como Mercedes-Benz, Volkswagen e BMW estão perdendo participação em uma disputa de preços de veículos elétricos dentro de um mercado que está encolhendo. A General Motors, diante de um cenário similar de alto investimento e queda de volume, optou por encerrar as atividades da Chevrolet no país.
Adicionalmente, o excesso de produção chinês está chegando diretamente aos mercados que antes garantiam as margens de lucro dessas corporações. A Geely exemplifica essa mudança, tendo embarcado cerca de 474 mil veículos no primeiro semestre, um aumento superior a 150% anualmente e um volume já superior ao total de 2025. A empresa elevou sua meta anual para aproximadamente 920 mil unidades, um avanço que autoridades europeias creditam ao suporte estatal e classificam como distorção comercial.
Os veículos elétricos são o principal motor dessa expansão. As montadoras chinesas exportaram aproximadamente 2,4 milhões de carros elétricos somente no primeiro semestre de 2026, um volume comparável ao total esperado para o ano de 2025.
