Existe uma contradição persistente no cenário brasileiro de jogos: o dispositivo que está na posse da maioria dos jogadores nacionais ainda é visto por parte da indústria como uma categoria secundária.
Historicamente, a ideia de videogame remetia automaticamente a plataformas como PlayStation, Xbox, Nintendo ou computadores gamers equipados com LEDs. O celular, por sua vez, era relegado a um papel complementar, associado a jogos casuais e sessões curtas de jogo.
Contudo, o mercado sofreu transformações significativas, e a percepção atual pode não ter acompanhado essa mudança. O Brasil conta com mais de 100 milhões de jogadores, e o celular funciona como uma das principais vias de acesso a esse público. Além disso, o país segue uma tendência mundial onde o smartphone transcendeu sua função de mero aparelho de comunicação, tornando-se um centro de entretenimento, transações financeiras, redes sociais, vídeos e, crescentemente, jogos.
Diante disso, a questão central não deveria ser sobre o crescimento do mobile, mas sim sobre por que ele ainda é considerado um mercado de menor porte.
O mobile detém uma vantagem competitiva inegável: a distribuição. Para jogar em um console, é necessário adquirir o próprio console; para jogar em um PC, exige-se um computador compatível com os títulos desejados. No caso do celular, na maioria das situações, o usuário já possui o equipamento.
Isso altera drasticamente a dinâmica de aquisição de usuários, pois o celular não força o consumidor a investir em uma nova plataforma; ele já é a plataforma em si, gerando uma escala imensa. É por essa razão que títulos como Free Fire, PUBG Mobile, Roblox e Honor of Kings conseguiram edificar comunidades vastíssimas em mercados onde barreiras de entrada para consoles e PCs são consideravelmente mais altas.
O sucesso do mobile não reside necessariamente na superioridade das experiências oferecidas, mas sim na capacidade de diminuir a distância entre o indivíduo e o jogo. Um dos maiores equívocos da indústria parece ser manter uma definição obsoleta de quem é um 'gamer'.
Antigamente, o termo 'gamer' designava alguém que comprava jogos, possuía um console ou PC dedicado e dedicava longas horas ao jogo. Hoje, o jogador pode interagir com o jogo em diversos momentos do cotidiano: durante o deslocamento para o trabalho, enquanto aguarda uma consulta, no intervalo do almoço ou antes de dormir. A duração da sessão pode variar de dez minutos diários a quatro horas.
O jogador moderno pode optar por realizar compras internas ou não gastar nada. Ele pode acompanhar streamers no celular, jogar junto com amigos no mesmo aparelho e consumir conteúdo relacionado ao jogo na mesma tela. O smartphone integrou o jogo à rotina diária, tirando-o da condição de um evento isolado no dia.
Este aspecto é crucial para as marcas, pois o mobile não entrega apenas audiência; ele proporciona frequência. E a frequência constitui um dos ativos mais valiosos da economia digital.
A discussão se torna ainda mais rica ao analisar o modelo econômico do mobile, que transformou o jogo em uma plataforma de relacionamento. Mecanismos como free-to-play, battle passes, skins, eventos, publicidade, assinaturas, compras in-app, criadores de conteúdo e comunidades estabeleceram uma economia que ultrapassa a simples venda de uma cópia do jogo.
Isso abre oportunidades substanciais para empresas que não pertencem tradicionalmente ao setor de games. Operadoras de telefonia podem oferecer conectividade e benefícios; bancos podem desenvolver produtos financeiros direcionados a gamers; varejistas podem implementar programas de fidelidade; marcas podem criar vivências dentro dos jogos; plataformas de conteúdo podem focar em aquisição e retenção; e publishers podem converter comunidades em ecossistemas de consumo.
Neste contexto, o mobile não é meramente um canal de distribuição, mas sim uma infraestrutura de negócios completa. O mercado brasileiro apresenta uma oportunidade específica devido à sua vasta população, sendo uma das maiores bases de jogadores globais, somada a uma cultura digital muito forte. No entanto, ainda há um abismo entre o volume de audiência e a habilidade de converter essa audiência em negócios desenvolvidos localmente.
Existem talentos, estúdios e consumidores no país, mas o desafio reside em estabelecer conexões mais sólidas entre esses três elementos. Isso implica encarar os games não só como entretenimento, mas como uma indústria abrangente, envolvendo tecnologia, publicidade, mídia, pagamentos, telecomunicações, propriedade intelectual e comércio.
Talvez o maior erro seja persistir em questionar se o mobile é tão relevante quanto o console ou o PC. Essa comparação já se tornou ultrapassada. O celular não precisa substituir o console; ele simplesmente criou uma categoria com uma característica que os demais formatos não conseguem replicar em tal escala: a quase universalidade de posse.
Enquanto a indústria de games gastava anos debatendo sobre resolução, hardware, exclusividades e teraflops, uma plataforma distinta estava silenciosamente conquistando espaço no bolso de bilhões de pessoas: o celular. Esta pode ser a maior ironia do mercado.
Embora parte da indústria ainda veja o mobile como uma categoria inferior, muitas empresas construíram seus maiores empreendimentos de games explorando exatamente o que o smartphone faz de melhor: acessibilidade, escala, frequência e conexão. O mobile não é apenas o futuro dos games; ele já é o presente. A questão agora é se a indústria brasileira continuará tratando este mercado como 'jogo menor' ou se finalmente reconhecerá seu verdadeiro porte. Pois, no Brasil, o maior console pode não estar sob a televisão, mas sim no bolso.