A Inteligência Artificial (IA) já integra diversas fases da produção audiovisual, mas sua inserção no cinema ainda encontra resistência por parte de muitos profissionais do ramo. Nesse contexto, o AI Film Awards realiza sua primeira edição no Brasil, agendada para ocorrer entre os dias 24 e 26 de setembro, no Itaú Cultural, em São Paulo. O evento contará com programação presencial e será transmitido online através da plataforma e-Teatro WeDo!
Este festival de caráter internacional, que tem suas raízes em Cannes, visa reunir produções criadas com auxílio de IA. Na versão brasileira, a programação será complementada por painéis, oficinas, masterclasses e debates focados nos impactos que a tecnologia gera no audiovisual. As organizadoras enfatizam que o objetivo transcende a mera exibição de filmes feitos com IA, buscando estabelecer um espaço de diálogo sobre as transformações promovidas por essa ferramenta.
Vitória Mantovani, diretora do AI Film Awards no Brasil, ressaltou a necessidade de discussão, afirmando que ignorar a IA não é uma opção, pois a tecnologia já está presente. Ela mencionou que a edição brasileira foi concebida de forma distinta das versões internacionais, que tendem a focar primariamente em exibições e premiações.
A concepção do AI Film Awards no Brasil teve início em 2025, quando Vitória Mantovani foi convidada para assumir a organização da edição nacional. Apesar de o período de candidaturas já ter se encerrado, ela buscou os responsáveis pelo festival para explorar a possibilidade de participação. A partir desse contato, iniciou-se a discussão com os organizadores internacionais sobre o modelo a ser implementado no país.
De acordo com Mantovani, a produção brasileira obteve autonomia para adaptar o evento à realidade local. Assim, enquanto as edições globais priorizam sessões de filmes e premiações, a agenda brasileira foi expandida para abranger discussões sobre política pública, apropriação cultural, formação de público e outros efeitos da inteligência artificial. Ela comparou isso à edição da Índia, que é uma das poucas versões internacionais a incluir painéis de discussão.
A decisão de ampliar o debate também está ligada à resistência observada entre artistas e cineastas. Mantovani relatou que, durante os preparativos, ficou evidente que apenas exibir obras feitas com IA seria insuficiente. Ela explicou que o debate sobre a relutância das pessoas em relação à IA foi iniciado, reconhecendo a resistência persistente de artistas e cineastas contra a tecnologia, o que exigiu uma conversa aprofundada.
Para ela, o foco central da edição brasileira se tornou este debate. A intenção é transformar o evento em um fórum de conversas, livre de julgamentos sobre o que é certo ou errado, ou sobre obrigatoriedade de uso, permitindo que cada um utilize a tecnologia como desejar.
Visão da produtora executiva
Carol Guimarães, produtora executiva do evento e fundadora da WeDo!, plataforma que hospedará a programação virtual, também enxerga a aproximação tecnológica como um meio de diminuir a resistência. Ela acredita que é fundamental discutir algo antes de temer, para assim compreender os caminhos e se aproximar da novidade, pois o medo só desaparece com a proximidade.
Guimarães aponta que parte da resistência deriva do desconhecimento e do receio de que softwares de IA possam substituir profissionais experientes no audiovisual. Ela descreveu o susto que causa quando um software passa a realizar tarefas que o profissional vinha executando há anos, criando o que estava em sua mente.
Durante a preparação, Mantovani e Guimarães também produziram curtas utilizando IA e testaram diversas ferramentas. Para Guimarães, essa vivência ajudou a desmistificar algumas das expectativas criadas em torno da tecnologia. Ela afirmou que o medo e a expectativa que as pessoas projetam sobre a IA diminuem à medida que se utiliza e se interage com a ferramenta.
A resistência à IA não se limita a quem trabalha diretamente com a tecnologia. Em Hollywood, diretores renomados também expressaram opiniões divergentes sobre o uso de ferramentas generativas no cinema. Em março de 2026, durante o SXSW em Austin, Steven Spielberg foi questionado sobre o papel da IA na produção, declarando nunca tê-la usado em seus filmes. Ele mostrou-se favorável à IA em outras esferas, mas opôs-se ao seu uso quando ela substitui um profissional criativo.
James Cameron também manifestou apreensão com a substituição de atores e outros especialistas. Em entrevista ao CBS Sunday Morning, antes do lançamento de Avatar: Fogo e Cinzas, ele classificou atores gerados por IA como algo «horripilante» e argumentou que a IA generativa não consegue gerar algo genuinamente novo, visto que depende de criações humanas prévias.
Contudo, as opiniões não são homogêneas. George Lucas, em entrevista à revista A Rabbit’s Foot, afirmou que a tecnologia facilita a produção cinematográfica. O criador de Star Wars comparou rejeitar a IA a preferir cavalos a carros, defendendo que a tecnologia representa o progresso e o futuro do cinema.
Brad Pitt adotou uma postura mais equilibrada em entrevista à Esquire. O ator sugeriu que a IA pode auxiliar na viabilização de filmes de médio orçamento, otimizando certas etapas, mas demonstrou ceticismo quanto à substituição de atores humanos. Na mesma conversa, Pitt comentou sobre uma música gerada por IA que achou inicialmente boa, mas criticou por ser repetitiva e não atingir o impacto emocional de uma atuação humana.
Embora a proposta inicial do AI Film Awards seja receber obras inteiramente produzidas com IA, no Brasil foram aceitas também produções híbridas. Vitória Mantovani justificou essa inclusão para aumentar a participação de cineastas brasileiros e fortalecer a comunidade de AI filmmakers no país, incluindo um longa-metragem híbrido entre os trabalhos recebidos.
Outro ponto estratégico é a gratuidade das inscrições para brasileiros, diferentemente dos participantes estrangeiros que precisam pagar. Mantovani e Guimarães notaram, após atuarem como juradas em edições passadas, que a representatividade brasileira era baixa nas versões internacionais.
A avaliação dos filmes segue critérios cinematográficos tradicionais, como direção, narrativa, áudio e performance, mas incorpora também os desafios específicos da produção com IA, como manter a coerência visual entre cenas distintas e construir uma história a partir de vídeos curtos gerados.
Mantovani esclareceu que o júri foi instruído a analisar o papel real da tecnologia em cada obra. Além dos padrões como *storytelling*, áudio, direção e performance, é crucial responder: «este filme existiria sem a IA?» e «quanto a IA facilitou a produção deste filme?»
A questão da autoria também será debatida. Para Guimarães, a IA deve ser vista como uma ferramenta utilizada pelo criador, e não como a autora da obra. Ela reforçou que a IA é uma ferramenta que o criador emprega para produzir o filme, assim como escolher uma linha estética.
Guimarães acrescentou que, apesar do debate sobre as fontes de referência usadas no treinamento dos modelos, a autoria permanece ligada ao criador por trás da obra.
Na perspectiva de Mantovani, a IA não precisa ser aplicada em todas as fases da produção. Ela prefere utilizá-la majoritariamente na criação de imagens e vídeos, mas não na escrita de roteiros, pois considera o roteiro o aspecto mais criativo que o cérebro humano pode desenvolver sozinho. Ela aconselha que a tecnologia seja inserida apenas onde trará valor real.
As áreas mais impactadas atualmente incluem animação, efeitos especiais e geração de imagens. Além de agilizar processos, a tecnologia pode reduzir custos, dando acesso a recursos que seriam caros em produções convencionais para cineastas independentes.
A participação brasileira superou as expectativas das organizadoras. No momento da entrevista, o festival estava perto de atingir cem inscrições, sendo aproximadamente oitenta delas de brasileiros. Mantovani e Guimarães destacaram que, em avaliações anteriores, as produções internacionais pareciam estar em fase experimental, enquanto os trabalhos brasileiros atuais demonstram narrativas mais elaboradas e maior cuidado na execução.
Guimarães concordou, observando que parte das produções estrangeiras ainda carregavam traços de experimentação tecnológica, ao passo que os trabalhos brasileiros traziam uma forte preocupação com a narrativa e a execução cinematográfica. Ela contrastou isso com edições anteriores em Cannes, onde havia muitas tentativas que beiravam a publicidade.
Para Mantovani, um diferencial dos trabalhos brasileiros no cenário internacional reside na capacidade de incorporar referências culturais locais. Ela citou um curta que utiliza elementos visuais ligados às memórias brasileiras dos anos 90, ressaltando a riqueza de repertório brasileiro que permite aos cineastas fugir de resultados previsíveis e construir uma identidade própria.
Guimarães espera que o festival demonstre que o Brasil possui uma produção relevante neste campo. Segundo ela, o cerne do problema não é a ausência de produtores digitais e de IA, mas sim a pouca atenção dada ao tema por diversos setores. Ela concluiu que é preciso ir além dos artistas independentes, envolvendo os setores público e privado, para que o país deixe de ficar preso em discursos de dúvida sobre se a tecnologia será ou não arte.



