O mercado brasileiro de motocicletas tem experimentado uma grande diversificação de marcas asiáticas desde 2017. Empresas chinesas e indianas, como Haojue e Royal Enfield, iniciaram sua presença no país, e essa tendência se intensificou com a chegada de Bajaj em 2022, Zontes em 2023 e a recente entrada da Cfmoto em 2026.
Essa expansão mercadológica naturalmente eleva o nível de competição, representando um desafio para as marcas japonesas estabelecidas no Brasil antes dos anos 2000, incluindo Yamaha (que chegou em 1970), Honda (1971) e Suzuki (1992).
A percepção na comunidade motociclística aponta que «Honda e Yamaha estão perdendo espaço para as chinesas e indianas». Contudo, o especialista em mercado, Seku Mello, questiona se essa afirmação reflete um problema real no cenário nacional.
Atualmente, a Honda detém 63,73% da participação no mercado nacional de emplacamentos de motocicletas, conforme dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Embora esses números tenham apresentado declínio ao longo dos anos, a japonesa já havia alcançado mais de 85% desse mercado anteriormente.
A situação da Yamaha é distinta, pois a fabricante mantém uma participação de 13,70% no mercado, oscilando nesse patamar percentual há várias décadas, registrando tanto picos quanto vales.
Outras Perspectivas sobre a Competição
Segundo Seku Mello, as marcas líderes estão, de fato, cedendo participação de mercado, mas isso não configura uma crise imediata. Ele argumenta que, apesar da redução da fatia percentual, o volume total de vendas dessas empresas continua em ascensão, impulsionado pelo crescimento geral do mercado brasileiro. Assim, mesmo com uma porcentagem menor, o número absoluto de motocicletas vendidas aumentou.
Em 2003, quando a Honda encerrou o ano com 83,73% de participação, ela registrou 717.137 emplacamentos. Já em 2025, embora seu percentual tenha caído para 66,82%, o total de motocicletas emplacadas ultrapassou 1.468.229 unidades, dobrando o volume.
Mello complementa que este é um desenvolvimento natural do setor, visto que a entrada contínua de novos fabricantes no Brasil oferece ao consumidor um leque maior de escolhas. Quanto maior a variedade de marcas no país, mais o mercado tende a ser dividido entre elas.
Diferenças entre o Mercado Brasileiro e Global
Embora o movimento de diversificação seja natural no Brasil, a perspectiva global apresenta um quadro diferente, especialmente para a Honda. Um diretor japonês da companhia expressou preocupação com a incapacidade do Japão de acompanhar a rapidez da evolução industrial chinesa. A diferença reside na velocidade de inovação: enquanto as fabricantes japonesas levam cinco ou seis anos para desenvolver um novo modelo, as chinesas introduzem um veículo, avaliam o desempenho e, se necessário, o substituem rapidamente.
Seku Mello projeta que, se essa tendência persistir, a participação da Honda pode cair para algo entre 30% e 40%, com outras marcas competindo por fatias entre 5% e 15%.
No entanto, o investimento acelerado não garante um domínio permanente. A Honda possui 76 anos de atuação global e celebrou 50 anos no Brasil, contando com uma rede consolidada de mais de 1.300 pontos de venda e manutenção certificados, o que sustenta sua reputação de «qualidade japonesa».
A Shineray, por exemplo, demonstra um processo dinâmico ao lançar diversos modelos para testar o mercado, descontinuando rapidamente aqueles que não atendem às expectativas ou realizando atualizações técnicas e de cilindrada.
Vale ressaltar que a Shineray está envolvida em uma disputa com a Abraciclo, a associação de fabricantes de motocicletas, que a acusa de realizar fraudes em testes de emissões e comercializar veículos ilegalmente no Brasil.
Outra marca chinesa em destaque no Brasil é a CFMOTO, conhecida por oferecer produtos com preços competitivos. Apesar de ser vista como uma potencial «ameaça» às japonesas, a CFMOTO ainda está iniciando sua jornada no território nacional.
Considerando que a Shineray já possui longa história no mercado e a CFMOTO é recente, afirmar uma preocupação iminente para Honda e Yamaha pode ser prematuro. Entre as marcas indianas, como Royal Enfield e Bajaj, há forças significativas no Oriente que competem em segmentos similares aos das japonesas.
Enquanto as montadoras chinesas se destacam pela agilidade, as indianas possuem, no momento, vantagens em volume e experiência. A Índia é o maior mercado de motocicletas do mundo, e suas fábricas estão habituadas a produzir modelos robustos e de baixo custo, mesmo que com menor avanço tecnológico em muitos casos. Assim como suas concorrentes, as montadoras indianas necessitam de tempo e investimento para igualar a fama e a infraestrutura estabelecidas por Honda e Yamaha no Brasil.