Enquanto grande parte da indústria automobilística preenche os interiores com telas e adiciona assistentes que assumem cada vez mais o controle, a marca espanhola Hispano Suiza escolheu um caminho diferente. A empresa apresentou a arquitetura eletrônica Carmen Sagrera, o terceiro membro de sua linha de hipercarros elétricos, criado sob o conceito que o próprio fabricante chamou de 'tecnologia invisível' — software que opera em segundo plano, mantendo o condutor no centro de toda a experiência.
O Sagrera, apresentado em 2024 em comemoração aos 120 anos da empresa, possui uma potência de 1115 cavalos e um torque de 118,3 kg·m, permitindo que acelere de 0 a 100 km/h em 2,6 segundos. Ele é equipado com quatro motores de ímã permanente axiais, cada um produzindo 275 cv, e eles são conectados em série, fornecendo tração apenas ao eixo traseiro. A bateria de segunda geração tem capacidade para 103 kWh, pesa 612 kg e oferece autonomia de até 480 km no ciclo WLTP.
O elemento central é o sistema patenteado HSDD (Hispano Suiza Driver Dynamics), que coordena a tração, a distribuição de torque, a estabilidade, a frenagem regenerativa e os modos de condução. Dentro deste sistema, funcionam três blocos: Grip Enhancement System para controle de tração, Active Yaw Modulation para garantir a estabilidade e Electronic Torque Stabiliser, capaz de aplicar torque negativo independentemente nas rodas traseiras para equilibrar o carro e economizar energia.
Para reagir rapidamente, o software coleta dados de mais de 100 sensores localizados no chassi e no conjunto motriz, processando mais de 200 milhões de instruções por segundo. Entre os dados coletados estão a posição e velocidade do volante, a pressão nos pedais do acelerador e do freio, a rotação das rodas, os movimentos da carroceria, a aceleração em três eixos, bem como a temperatura e o estado de carga da bateria, e a corrente e a tensão do sistema elétrico. O objetivo é prever a perda de aderência antes mesmo que o condutor perceba, ajustando gradualmente a resposta dos motores.
O ajuste do complexo passou por simulações, bem como testes em pista e na cidade com a participação do espanhol Luis Pérez-Sala, que competiu pela equipe Minardi no final dos anos 80 e hoje trabalha como piloto-desenvolvedor da marca. O objetivo declarado foi manter a liberdade do condutor: a eletrônica intervém apenas quando necessário e não torna as reações do veículo artificiais. A transmissão envia potência para o eixo traseiro e utiliza um diferencial virtualmente bloqueado. Os pneus instalados são Michelin Pilot Sport 4 S, desenvolvidos especificamente para este modelo. O próprio nome Sagrera refere-se ao bairro de Barcelona, onde a Hispano Suiza, fundada em 1904, estabeleceu sua primeira grande fábrica em 1911.


