A Honda estabeleceu uma colaboração com a QuantumScape, uma companhia americana especializada no desenvolvimento de baterias, sediada em San Jose, Califórnia. O objetivo desta parceria, anunciada em junho de 2026, é investigar e criar baterias de estado sólido, juntamente com as metodologias de fabricação pertinentes.
Este acordo ocorreu alguns meses após a Honda decidir cancelar o lançamento no mercado norte-americano de três modelos elétricos: o Honda 0 SUV, o Honda 0 Saloon e o Acura RSX. Esse cancelamento coincidiu com o registro do primeiro prejuízo financeiro anual da empresa em aproximadamente 75 anos.
Em um comunicado emitido pela QuantumScape, Atsushi Ogawa, diretor de operações do Centro de Excelência em Pesquisa da Honda R&D, declarou que a plataforma tecnológica de estado sólido da empresa demonstrou «vantagens convincentes e únicas» durante um estudo técnico, sugerindo que a parceria pode «agregar valor em uma série de aplicações». Anteriormente, a QuantumScape havia fechado um acordo similar no ano precedente com a PowerCo SE, uma empresa de baterias pertencente ao grupo Volkswagen.
Além de automóveis elétricos, a QuantumScape está posicionando suas baterias de estado sólido como uma solução para setores emergentes com grande necessidade de energia, tais como centros de dados, robótica e drones. A própria Honda possui metas ambiciosas, visando alcançar a neutralidade de carbono até 2050 e expandir sua produção de veículos elétricos para cobrir 100% das vendas até 2040.
Como funciona a tecnologia de estado sólido
Nos veículos elétricos convencionais que utilizam íons de lítio, os eletrólitos — responsáveis por conduzir elétrons carregados positivamente entre o cátodo (terminal positivo) e o ânodo (terminal negativo) — são compostos por soluções líquidas de sais de lítio dissolvidos em solventes orgânicos. As baterias de estado sólido substituem esses componentes líquidos por eletrólitos sólidos, que podem ser óxidos, sulfetos, sais poliméricos ou polímeros em gel.
Essa transição tecnológica também possibilita a substituição dos ânodos feitos de carbono ou silício por materiais com maior capacidade energética, como o lítio metálico. Segundo a QuantumScape, um carro elétrico equipado com uma de suas células poderia aumentar sua autonomia de 350 milhas para algo entre 400 e 500 milhas. A Honda projetou que uma bateria de estado sólido seria capaz de atingir entre 80% e 90% de carga em poucos minutos.
Executivos da Honda também indicaram que essa tecnologia tem potencial para duplicar a autonomia estendida dos modelos elétricos atuais até o final desta década. Os eletrólitos sólidos oferecem benefícios significativos, pois eliminam o risco de vazamentos, não são inflamáveis e apresentam menor vulnerabilidade à degradação causada por reações químicas adicionais. Adicionalmente, essas baterias funcionam bem mesmo em temperaturas extremas e poderiam dispensar a necessidade de ânodos de grafite, diminuindo a dependência do mercado de veículos elétricos em relação a fornecedores chineses desse material.
Apesar destas vantagens notáveis, nenhum fabricante chegou a lançar um veículo totalmente elétrico movido a baterias de estado sólido para o público consumidor. O obstáculo principal reside na dificuldade de escalabilidade frente aos altos custos de produção.
A Honda começou seu trabalho com baterias de estado sólido em 2024, momento em que anunciou a intenção de produzir protótipos em sua unidade localizada em Sakura City, no Japão. A parceria com a QuantumScape prevê o uso da instalação Eagle Line, recém-inaugurada pela empresa americana, para fabricar as células QSE-5 — que são livres de ânodo e contêm lítio metálico —, as quais foram apresentadas em um protótipo da motocicleta Ducati V21L no último outono. A expectativa da empresa é introduzir um veículo elétrico de estado sólido até o término desta década.

