De acordo com o Relatório Especial Nacional do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) sobre a África do Sul, publicado na quinta-feira, o ambiente empreendedor do país não acompanha as economias em desenvolvimento, apesar de os sul-africanos possuírem talento e ambição para criar novos negócios.
Avaliação do Ambiente Empreendedor
O relatório mostrou que a África do Sul obteve apenas 3,9 pontos de 10 no Índice de Contexto Empreendedor Nacional (NECI), colocando-a entre os sete ecossistemas empreendedores menos desenvolvidos do mundo, significativamente abaixo da média mundial de 4,7 pontos. Este relatório foi elaborado em colaboração entre a Stellenbosch Business School, a Universidade de Joanesburgo, a Universidade do Noroeste e a Agência de Desenvolvimento e Financiamento de Pequenas Empresas (SEDFA).
Problemas de Implementação de Políticas
A pesquisa avaliou as condições de empreendedorismo no país em 13 elementos, incluindo acesso a financiamento, apoio governamental, regulamentação, infraestrutura, educação e atitudes culturais. O pesquisador da Stellenbosch Business School e coautor do relatório, Angus Bowmaker-Falconer, observou que o problema da África do Sul não é a falta de medidas políticas ou financiamento, mas a incapacidade de aplicar eficazmente os mecanismos existentes.
Bowmaker-Falconer afirmou: «Os problemas de grande disparidade entre boas políticas e a realidade local estão bem diagnosticados. Agora, o necessário não são novas políticas ou financiamento adicional, mas vontade política e disciplina institucional para implementar as políticas e recursos financeiros que já possuímos».
Comparação com Outros Países
O relatório comparou a África do Sul com 56 países que, juntos, representam 78% do produto interno bruto mundial e 63% da população do planeta. O indicador NECI da África do Sul praticamente não mudou nos últimos cinco anos e está aquém de vários outros países em desenvolvimento. Por exemplo, a Indonésia alcançou 5,8 pontos, a Índia 6,1 pontos, a China 5,4 pontos e o Brasil 4,0 pontos, enquanto os Emirados Árabes Unidos lideraram o ranking com um resultado de 7,1 pontos.
Segundo o relatório, os países que superam a África do Sul obtiveram sucesso graças a intervenções governamentais coordenadas, regulamentação simplificada e um apoio institucional mais forte aos empreendedores. Bowmaker-Falconer enfatizou que esses avanços são consequência de decisões políticas direcionadas, e não de um nível mais elevado de riqueza ou educação.
Pontos Fortes do Ecossistema
Apesar das baixas classificações, o relatório aponta vantagens significativas no ecossistema empreendedor sul-africano. A Professora Natanya Meyer, presidente em exercício da SARChI para Educação Empreendedora na Universidade de Joanesburgo e coautora do relatório, destacou a existência de um setor financeiro complexo no país, redes crescentes de incubadoras, universidades estabelecidas, uma base de pesquisa sólida, crescente adoção de tecnologias digitais e uma população jovem disposta a criar negócios.
Meyer acrescentou que, embora o apoio governamental fosse frequentemente disperso e difícil de entender, os empreendedores que sabiam como acessar os programas disponíveis tinham mais chances de sucesso. Ela observou que não são aqueles que evitam a burocracia que têm sucesso, mas sim aqueles que sabem gerenciá-la.
Recomendações para o Desenvolvimento
O relatório recomenda a realização de campanhas informativas direcionadas, especialmente entre jovens empreendedores, e a criação de uma plataforma digital unificada que forneça informações sobre requisitos de participação, processos de candidatura e prazos de programas de apoio governamental. Destaca-se o papel crítico das micro, pequenas e médias empresas (PMEs) na economia sul-africana, que fornecem cerca de 40% do PIB e cerca de 60% do emprego, mas muitas delas falham nos primeiros cinco anos.
Diante da taxa de desemprego na África do Sul de 32,7% (definição restrita) e do crescimento econômico médio inferior a 1% na última década, o relatório insiste que o empreendedorismo deve se tornar uma prioridade nacional. Bowmaker-Falconer acredita que o empreendedorismo é o principal mecanismo que permite à África do Sul absorver o desemprego, resolver desigualdades estruturais e gerar crescimento que a política sozinha não pode garantir. Portanto, o ecossistema que facilita isso deve ser considerado uma prioridade nacional.
Medidas de Curto e Longo Prazo
Entre as recomendações imediatas do relatório estão a redução da complexidade burocrática, a coordenação de agências governamentais, a facilitação de barreiras de compras e a expansão do acesso digital para PMEs por meio de software subsidiado de inteligência artificial, contabilidade e aumento de produtividade, especialmente em áreas urbanas e suburbanas. No médio prazo, propõe-se introduzir o empreendedorismo como disciplina escolar formal, expandir a formação de professores, melhorar a acessibilidade à internet de banda larga e aumentar a concorrência em setores concentrados para criar oportunidades para pequenas empresas.
As reformas de longo prazo visam mudar as atitudes sociais em relação ao empreendedorismo. A África do Sul obteve apenas 4,0 pontos de 10 em normas sociais e culturais que apoiam o empreendedorismo, em comparação com a média mundial de 5,2 pontos. Meyer concluiu que mudanças econômicas sustentáveis exigirão o reconhecimento do empreendedorismo como uma trajetória de carreira respeitável, onde a inovação e o risco calculado são incentivados, e o fracasso nos negócios é visto como experiência de aprendizado, e não como vergonha permanente.



