Pesquisadores descobriram que indivíduos que demonstram fé na ciência também podem adotar teorias conspiratórias de natureza científica, tais como ceticismo infundado sobre vacinas ou alegações não comprovadas relativas a fenômenos ambientais.
Fatores influenciadores das crenças
Uma análise conduzida com 843 residentes dos Estados Unidos, e publicada na revista Current Psychology, sugere que a maneira como as pessoas concebem o progresso científico e os canais pelos quais obtêm informações exerce maior influência sobre essas convicções do que fatores como o nível de escolaridade.
O levantamento indicou que a percepção da ciência como fruto do trabalho de gênios isolados, juntamente com o consumo frequente de mídias como podcasts e documentários, está ligada a uma maior predisposição para aceitar explicações conspiratórias apresentadas com um verniz científico.
A imagem distorcida da ciência
O estudo, realizado por Michele d’Errico e Taha Yasseri, buscou entender como a valorização da ciência pode conviver com a aceitação de alegações que contradizem o próprio método científico. A investigação partiu de uma contradição notada globalmente: apesar de a ciência ser vista como uma instituição altamente confiável pela maioria, informações falsas persistem em circular com grande força.
Os autores defendem que o cerne da questão reside não apenas no grau de confiança depositado nos cientistas, mas sim na compreensão que o público tem sobre como o conhecimento científico é gerado. Para eles, parte do público associa a ciência a indicadores externos de autoridade, como terminologia técnica, equipamentos avançados, números exatos e títulos acadêmicos, sem necessariamente apreender os procedimentos utilizados para validar descobertas.
Mentalidade de gênio e fontes informais
A pesquisa estabeleceu uma conexão entre duas características: a denominada 'mentalidade do gênio', que atribui grandes avanços a indivíduos excepcionais que desafiam o consenso, e a preferência por fontes de divulgação científica não formais, como documentários e podcasts. Os participantes com maior pontuação nestes critérios demonstraram maior inclinação a concordar com teorias conspiratórias.
Os resultados observados pelos pesquisadores foram mais significativos do que variáveis tradicionalmente ligadas a tais crenças, como o posicionamento político ou a escolaridade. O levantamento também revelou que a influência da noção de 'gênio solitário' era mais proeminente entre indivíduos com baixa ou moderada confiança nos cientistas, enquanto essa diferença era mínima entre aqueles que já possuíam alta confiança na comunidade científica.
O mito do pesquisador isolado
Segundo os pesquisadores, as representações populares da ciência frequentemente reforçam uma narrativa onde grandes descobertas emergem da ação de uma única pessoa extraordinária. Filmes, biografias e documentários tendem a retratar cientistas como figuras que enfrentam resistência inicial, mantêm-se firmes em suas ideias e são reconhecidos posteriormente.
Essa construção ignora os mecanismos coletivos que sustentam a ciência, como a revisão por pares, a replicação de experimentos, os debates e as constantes revisões. O conhecimento científico válido não depende unicamente de uma ideia brilhante, mas sim de processos de verificação compartilhados.
Os autores alertam que teorias conspiratórias podem se aproveitar dessa imagem do indivíduo incompreendido para construir uma narrativa de superioridade intelectual. Nesse contexto, quem adota uma explicação alternativa passa a se ver como alguém capaz de discernir uma verdade que outros ignoram.
Exemplo de alegação não verificada
Um caso citado no estudo envolve o químico italiano Corrado Malanga e o pesquisador de radar Filippo Biondi. Em março de 2025, ambos alegaram ter localizado uma estrutura subterrânea sob a pirâmide de Quéfren, no Egito, utilizando imagens de radar por satélite. Arqueólogos refutaram essa alegação, apontando as limitações técnicas desse método para detectar estruturas em profundidades consideráveis.
Mesmo diante das críticas, Biondi apresentou sua hipótese em janeiro de 2026 no podcast The Joe Rogan Experience, atingindo uma vasta audiência. Este episódio serve, segundo os autores, como ilustração de como conteúdos com aparência científica podem ganhar visibilidade mesmo quando especialistas questionam seus fundamentos.
Impacto da aparência científica nas informações
Outro aspecto enfatizado pelos pesquisadores é o papel das plataformas e dos formatos de comunicação. Uma análise de 8,7 milhões de publicações na antiga plataforma Twitter, hoje conhecida como X, examinou o compartilhamento de conteúdos considerados verificados e constatou que menções a elementos científicos, como universidades, estudos ou cientistas, elevavam a disseminação dessas mensagens.
Este efeito foi particularmente notável em conteúdos classificados como de baixa credibilidade e entre usuários com inclinação política mais alinhada à direita. Assim, a presença de elementos científicos pode funcionar como um indicador de credibilidade, mesmo quando a informação veiculada não cumpre os critérios científicos.
Proposta de educação científica
Os autores opinam que estratégias focadas apenas em corrigir fatos incorretos podem não solucionar o problema. É fundamental explicar de maneira mais clara como a ciência constrói o saber e por que divergências, revisões e avaliações conjuntas fazem parte do processo. A sugestão é capacitar os cidadãos a entenderem a origem das informações científicas, mesmo sem serem especialistas, permitindo-lhes avaliar melhor a qualidade das evidências e distinguir o consenso científico de meras afirmações que empregam linguagem científica.
Os pesquisadores aconselham que o ensino de ciências não se restrinja à apresentação de conclusões e teorias prontas. Recomenda-se também demonstrar o funcionamento diário da comunidade científica, incluindo a colaboração, a contestação e os critérios compartilhados. Compreender que os consensos científicos são edificados após análises rigorosas auxilia em evitar a interpretação de que o acordo entre especialistas implica falta de pensamento crítico. O propósito final deste estudo é diminuir a suscetibilidade a futuras teorias conspiratórias antes que estas se generalizem, fortalecendo a compreensão pública sobre os métodos que conferem confiabilidade à ciência.