A construção da Usina Hidrelétrica de Medog, o maior projeto de geração de energia hidrelétrica do mundo, está causando sérias preocupações entre geólogos estatais chineses. De acordo com um estudo realizado por cientistas, esta usina está localizada diretamente sobre uma linha de falha ativa no Tibete.
Localização geográfica e descoberta
O local do projeto fica a apenas 50 quilômetros da fronteira da China com Arunachal Pradesh. Este fato gerou novas preocupações sobre a segurança da gigantesca barragem. Anteriormente, a própria barragem já era objeto de controvérsias sobre a capacidade da China de controlar o fluxo do rio Brahmaputra, especialmente após a Índia suspender a Convenção Hídrica de Sindh com o Paquistão.
Detalhes do estudo e participantes
De acordo com o relatório, publicado na revista Sedimentary Geology and Tethyan Geology em chinês sob a égide do Instituto Nacional Chinês de Pesquisa Geológica, há uma falha ativa Paichen sob o rio Yarlung Tsangpo, onde a barragem de Medog está sendo construída. No Tibete, o rio Brahmaputra é conhecido como Yarlung Tsangpo. O estudo foi um trabalho conjunto de geólogos da Universidade de Tecnologia de Chengdu, do Centro de Integração Civil-Militar do Serviço Geológico da China e da Estação de Pesquisa de Recursos Naturais de Meio Yarlung Tsangpo.
Os cientistas alertaram que esta falha pode afetar criticamente a integridade da barragem. A UHE de Medog é um projeto do tipo 'run of the river' com capacidade de 60 mil megawatts, sendo construído no distrito de Medog, no Tibete, no rio Yarlung Tsangpo. Este rio nasce no glaciar Angsi, no oeste do Tibete, e percorre 1625 quilômetros pelo território chinês.
Rota do rio e escala do projeto
Após passar pela Grande Curva perto do pico Namcha Barwa, o rio entra na Índia, onde é chamado Brahmaputra. Na Índia, ele flui por 918 quilômetros e depois 337 quilômetros para Bangladesh, onde recebe o nome de Jamna, antes de desaguar no Golfo do Bengala. O custo total estimado do projeto é de 1 trilhão de yuans, equivalente a cerca de 137 bilhões de dólares, tornando-o o maior projeto de energia hidrelétrica do mundo. Anualmente, ele produzirá cerca de 300 bilhões de quilowatt-hora de eletricidade, quase três vezes mais do que a barragem de Three Gorges.
A China aprovou este projeto em dezembro de 2024, e a construção começou em julho de 2025, com plano de plena operação até 2033. No entanto, segundo os próprios cientistas estatais chineses, esta enorme barragem está sendo construída sobre uma 'bomba-relógio' geológica.
Perigo da falha Paichen
De acordo com o relatório, a falha Paichen é ativa desde o período pleistoceno, que começou há cerca de 2,6 milhões de anos e incluiu a era glacial. Os cientistas observam que esta falha permanece constantemente ativa e pode ter um impacto significativo na estabilidade da barragem, estradas, pontes, túneis e reservatório. Eles alertam que futuros deslocamentos da falha podem colocar em risco a segurança de todo o projeto.
Os pesquisadores também indicaram que a área de Pai, onde a barragem de Medog está sendo construída, pertence a uma das regiões mais sismicamente ativas da China. A análise de depósitos antigos do lago mostrou que esta falha estava ativa há mais de 9500 anos. A atividade da falha foi confirmada por um terremoto de magnitude 6,9, ocorrido na parte norte desta falha no Tibete em 2017.
Vulnerabilidade do solo e risco de deslizamentos
O estudo também enfatizou que os deslocamentos frequentes desta falha já enfraqueceram a estrutura geológica da área. Os cientistas relataram que as rochas circundantes se desintegraram e perderam sua resistência. Em termos simples, a capacidade de suporte do solo para sustentar uma estrutura tão massiva de 60 mil megawatts e seu vasto reservatório diminuiu em comparação com a original, especialmente durante eventos sísmicos.
A equipe de cientistas também advertiu que o solo ao redor do reservatório tem uma estrutura fofa e fraca. Com o enchimento do reservatório com água, combinado com a influência da falha e dos terremotos, o risco de deslizamentos e desmoronamentos aumenta significativamente. Os especialistas insistem na necessidade de reforçar as medidas de segurança, como o reforço de encostas, tanto na fase de construção quanto durante a operação.
Visão internacional da situação
Índia e Bangladesh estão monitorando atentamente esta situação, pois o projeto pode afetar o curso do rio a jusante. No entanto, os especialistas acreditam que o principal problema não é a capacidade da China de parar o fluxo de água, mas sim o estado geológico perigoso da área.
Nilanjan Ghosh, especialista em recursos hídricos do Fundo de Pesquisa Observacional, observou que qualquer tentativa de alterar o curso do fluxo de água levará a consequências adversas, pois isso pode causar inundações a montante devido ao acúmulo de sedimentos. Ele também acrescentou que o Yarlung Tsangpo representa apenas 10-15% do volume total do Brahmaputra; o restante provém de afluentes e chuvas monçônicas na Índia, portanto, a China não pode bloquear completamente a água.
Assim, apesar de o próprio estudo governamental chinês reconhecer que o maior projeto do mundo foi construído sobre uma linha de falha ativa em uma das zonas mais sísmicas do Himalaia, a questão principal não é o controle do fluxo do Brahmaputra, mas sim as consequências catastróficas que podem ocorrer em caso de colapso de uma barragem e seu reservatório tão gigantescos.

