De acordo com informações divulgadas pelo Olhar Digital, dados fornecidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que o fenômeno El Niño alcançou um aquecimento histórico em outubro. A anomalia registrada na região Niño 3.4 chegou a 2,47 °C acima da média, superando o nível de 2,07 °C observado em outubro de 1982.
As medições semanais também estabeleceram novos recordes. Na região Niño 3, a temperatura registrou 3,7 °C acima da média na última semana do mês, ultrapassando a marca de 1981. Já na área Niño 1+2, próxima ao Peru e Equador, a diferença foi superior a 4,6 °C, equiparando-se ao pico de junho de 1983.
Quando o fenômeno foi confirmado em junho deste ano, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) já sinalizava uma alta probabilidade de intensidade acentuada. Naquela ocasião, o climatologista Carlos Nobre, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) nos EUA e reconhecido internacionalmente em aquecimento global, alertou sobre a seriedade do cenário de um possível “Super El Niño”.
O especialista afirmou que "As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados". Ele enfatizou que o panorama global sofreu mudanças drásticas, visto que o aquecimento contínuo dos oceanos e o acúmulo de energia na atmosfera fazem com que eventos extremos, antes incomuns, ocorram com muito mais frequência nas últimas décadas.
Os registros de temperatura do Inmet confirmam que as temperaturas em diversas partes do país excederam os limites das últimas quatro décadas, concretizando o cenário previsto pelos especialistas. Segundo Nobre, o fenômeno também atingiu níveis inéditos nas medições oceânicas realizadas desde a década de 1950.
Esta alteração térmica sem precedentes modifica profundamente a dinâmica atmosférica. Com os mares mais quentes, a evaporação aumenta, o que impulsiona eventos graves e simultâneos, exatamente como o especialista havia antecipado.
As regiões Norte e Nordeste sentem o efeito diretamente na umidade. O cientista explicou que "Tipicamente, o El Niño leva a um evento de muita seca, ondas de calor na Amazônia e grande parte do Nordeste, que é o que está acontecendo". Ele adicionou um alerta, mencionando que, devido à seca e às ondas de calor, a vegetação fica altamente inflamável, e o crime organizado está provocando incêndios, sendo a maioria ilegal e destinada ao desmatamento.
Em contraste, o Sul do país enfrenta um quadro de excesso de água. "No oposto de seca, estão as chuvas excessivas. Em todo o Sul do Brasil, até mesmo um pouco do Sul de Mato Grosso do Sul, há excesso de chuva, como se previu".
O aquecimento também intensifica ocorrências severas e atípicas na atmosfera da região Sul. O pesquisador ressaltou que "E também fenômenos climáticos, ciclones extratropicais, sistemas de baixa pressão, eles são mais fortes. E não só chuva excessiva, mas vendavais estão batendo recordes e também tornados".
Nobre salientou que a modificação no padrão climático impõe desafios sérios a cidades sem infraestrutura adequada. Nos estados do Sul, houve um recorde no número de tornados, algo muito raro nessas localidades. Assim, todo o sistema nunca esteve preparado para tornados como na região centro-sudeste dos Estados Unidos, que historicamente os apresentam.
Para prevenir tragédias futuras, o especialista defende que o país adote os modelos de proteção urbana utilizados em regiões acostumadas a tais eventos nos Estados Unidos. Ele citou o exemplo de casas com áreas subterrâneas, onde as pessoas podem se abrigar durante um tornado, preservando-se mesmo que a estrutura seja danificada pelo vento forte.
Os mecanismos físicos explicam como o calor oceânico fornece tanta energia. Com os oceanos aquecidos, a evaporação é significativamente maior, e a atmosfera reage com ventos mais rápidos no hemisfério sul. Este fluxo de ar acelerado potencia os volumes de precipitação. "A chuva no Pacífico, até a costa da América do Sul, aumenta bastante e o fenômeno ganha força. Isso induz secas severas em vários lugares, especialmente na América do Sul, na Amazônia e no Nordeste".
Adicionalmente, ocorre um fenômeno meteorológico onde a velocidade do jato subtropical, a corrente de vento atmosférico do hemisfério sul, cresce consideravelmente ao atravessar a América do Sul. Esse aumento de velocidade faz o ar ascender com maior intensidade, sendo um fator principal para as chuvas intensas.
O especialista complementa que os efeitos persistem mesmo após o término oficial do fenômeno no Pacífico, pois são mantidos pelo aquecimento do Oceano Atlântico. Essa dinâmica alonga tanto os períodos de estiagem quanto os de cheias extremas.
Diante deste cenário complexo, a prevenção torna-se crucial para proteger milhões de brasileiros. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que dezenas de milhões de pessoas residem em áreas suscetíveis a inundações e deslizamentos.
O levantamento detalha a proporção exata da população exposta ao risco no território nacional. O climatologista relembrou um estudo de 2018, que analisou quase mil municípios, medindo quantas pessoas estavam sujeitas a chuvas excessivas, alagamentos, enxurradas, inundações e deslizamentos de encosta. Dentre mais de 100 milhões de brasileiros avaliados naquele estudo, 10 milhões estavam em zonas de risco e 2 milhões em áreas de altíssimo risco, sendo que estas últimas não deveriam permanecer ali.
Com os registros históricos de outubro comprovando o ritmo acelerado das mudanças climáticas, o país deve priorizar a adaptação. O alerta emitido pelo pesquisador sintetiza a magnitude do desafio que se apresenta: "Então, nós temos que estar preparados porque, com o aquecimento global, todos os fenômenos hidrometeorológicos vão estar batendo recordes no mundo inteiro – e, certamente, no nosso país".


