A Agência da ONU para os Refugiados emitiu um alerta sobre os sérios perigos enfrentados por 90 milhões de pessoas deslocadas que residem em nações com alta ou extrema vulnerabilidade às alterações climáticas.
Em um relatório divulgado quatro dias antes do início da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP31), que ocorrerá em Antalya, Turquia, até o dia 20, o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) ressalta que três em cada quatro indivíduos forçados a se deslocar mundialmente vivem em países assolados por secas intensas, inundações fatais e calor extremo.
De acordo com a organização, é imperativo implementar medidas imediatas para proteger milhões de refugiados e outras populações deslocadas, visto que os recursos financeiros destinados a iniciativas de mitigação (como a redução de emissões de gases de efeito estufa) e de adaptação (para aumentar a resiliência aos impactos climáticos) não estão chegando a muitas das comunidades mais expostas.
Antón Leis García, alto-comissário adjunto de Operações do ACNUR, enfatiza que os refugiados sofrem uma dupla injustiça: são obrigados a fugir de conflitos que não provocaram e, subsequentemente, ficam na linha de frente de uma crise climática à qual contribuíram minimamente.
Ele defende que, para milhões de pessoas, as mudanças climáticas não representam uma ameaça futura, mas sim uma realidade destrutiva que compromete moradias, meios de subsistência e a possibilidade de reconstrução de suas vidas, pedindo que aqueles que já perderam muito não sejam negligenciados na resposta climática global.
O documento também sinaliza a crescente ameaça que as alterações climáticas impõem à viabilidade de soluções permanentes para as pessoas deslocadas. O ACNUR aponta que mais de dois terços dos refugiados que retornaram durante o primeiro semestre de 2026 voltaram para países extremamente suscetíveis a desastres climáticos, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade desses retornos, citando a Síria como exemplo.
Quase 4 milhões de deslocados que voltaram recentemente à Síria encontraram o declínio dos lençóis freáticos e inundações ao longo do Rio Eufrates, o que resultou em danos às habitações e no deslocamento de milhares de pessoas novamente, além do calor extremo ser uma ameaça crescente, conforme recorda a agência da ONU.
As projeções indicam que, até 2050, um em cada três campos de refugiados na África Subsaariana pode enfrentar pelo menos 100 dias de calor perigoso anualmente. Mais da metade dos locais avaliados poderá sofrer com pelo menos 50 dias extras de calor perigoso por ano, e em certas regiões da Etiópia, essa condição pode perdurar por mais de 200 dias anuais.
No último decênio, os desastres ligados ao clima já causaram mais de 255 milhões de deslocamentos internos globalmente, o que equivale a aproximadamente 70.000 pessoas diariamente, mas o financiamento permanece insuficiente.
O ACNUR lamenta que países frágeis e atingidos por conflitos recebam apenas cerca de 10% do financiamento climático mundial, apesar de abrigarem grandes contingentes de refugiados e deslocados internos e enfrentarem severos impactos climáticos. A organização defende a necessidade urgente de maior investimento na adaptação climática, abrangendo também as áreas de retorno.
A situação será um tema central na COP31, onde o ACNUR pretende solicitar a governos e instituições de financiamento climático que incorporem refugiados e deslocados internos em seus planos nacionais e aprovam maiores aportes para a adaptação de longo prazo em zonas vulneráveis e afetadas por deslocamentos.
Leis García considera que a conferência representa uma oportunidade crucial, dado que a Turquia, um dos maiores receptores de refugiados do planeta, sediará a COP31, para consolidar a inclusão da questão do deslocamento e das necessidades das comunidades de acolhimento na agenda climática global. Ele conclui que o evento deve funcionar como um ponto de inflexão.



