Um vídeo capturado mostra Júpiter aparentando derreter enquanto desaparece atrás da Lua, um evento classificado como ocultação lunar. Este fenômeno só pode ser visto em certas áreas da Terra.
Em Kuala Lumpur, Malásia, na madrugada de terça-feira (3), o astrofotógrafo Shahrin Ahmad documentou este efeito notável. Nas imagens, o planeta parece se liquefazer ao ser obscurecido pela borda lunar.
Ahmad compartilhou sua captura com a plataforma Spaceweather.com, após uma névoa intensa que cobria o sudeste asiático se dissipar. No vídeo, conforme a Lua avança sobre o planeta, seu contorno parece esticar-se, criando uma estrutura luminosa que lembra uma gota escorrendo pela superfície lunar.
É importante notar que, apesar da aparência incomum, Júpiter não sofreu nenhuma alteração física. O efeito é puramente óptico e está ligado às limitações dos instrumentos usados para observar os corpos celestes.
Este registro feito por Ahmad é uma manifestação do chamado efeito da gota negra (black drop effect), que é mais conhecido por ocorrer durante trânsitos planetários, quando um planeta passa entre a Terra e o Sol.
Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA) e membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), explicou que nenhum equipamento óptico consegue produzir imagens com foco totalmente perfeito. Diferenças no ponto focal entre frequências como infravermelho e ultravioleta podem gerar imagens secundárias muito fracas, que geralmente passam despercebidas.
Ele detalhou que «isso cria uma espécie de ‘fantasma’ que a gente praticamente não vê na imagem, que é muito fraca, muito tênue. Só que, como esse efeito ocorre nos dois corpos, no caso a Lua e Júpiter, quando os ‘fantasmas’ de cada um se aproximam e se sobrepõem, isso acaba criando uma bolha um pouco mais clara que alarga o objeto próximo um do outro».
O efeito ganhou notoriedade durante os trânsitos de Vênus no século XVIII. Naquela época, observadores atribuíram a deformação à atmosfera densa do planeta. Contudo, essas observações também tinham um propósito científico crucial: calcular a distância entre a Terra e o Sol.
Zurita ressaltou que a ideia partiu do astrônomo Edmund Halley, que sugeriu usar a paralaxe para essa medição. Isso motivou expedições globais para acompanhar a passagem de Vênus. Entretanto, a distorção causada pelo efeito da gota negra dificultou a determinação dos instantes exatos de entrada e saída de Vênus do disco solar.
«Halley propôs a observação do trânsito de Vênus como uma forma de medir a distância entre a Terra e o Sol por paralaxe. E aí foram organizadas expedições em diferentes partes do mundo para observar esse fenômeno, e quando aconteceu, não foi possível determinar os momentos exatos da entrada e saída de Vênus do disco solar, por conta desse efeito que ficou conhecido como gota negra», esclareceu o especialista.
A teoria de que a atmosfera de Vênus causava a deformação foi enfraquecida em 1999, quando a sonda TRACE da NASA observou o mesmo efeito durante um trânsito de Mercúrio pelo Sol. Como Mercúrio quase não possui atmosfera, provou-se que essa característica não era essencial para a ocorrência do fenômeno.
Uma ocultação lunar ocorre quando a Lua passa à frente de outro astro, cobrindo-o temporariamente para quem observa da Terra. Devido à dependência da posição aparente dos astros em relação ao local de observação, o evento não pode ser acompanhado em todo o planeta.
A faixa de visibilidade da ocultação lunar de Júpiter desta semana abrangeu nações insulares como Maldivas, Sri Lanka, Seychelles e Maurício, além da Ilha da Reunião, um território francês no Oceano Índico. Em partes do sul e sudeste da Ásia e da Oceania, a passagem ocorreu durante o dia, o que complicou a observação devido à luminosidade do céu.
No Brasil, os astros não se sobrepuseram, logo não houve ocultação. No entanto, a Lua e Júpiter apareceram muito próximas, em uma configuração denominada conjunção astronômica.



