Uma autoridade sul-africana informou à Lusa que cerca de 90 mil estrangeiros, incluindo aproximadamente 20 mil moçambicanos, deixaram a vizinha África do Sul desde junho. Essa saída ocorreu em decorrência de ameaças e incidentes de violência direcionados aos imigrantes.
Michael Masiapato, comissário e chefe executivo da Autoridade de Gestão de Fronteiras (BMA) sul-africana, detalhou em entrevista exclusiva que, globalmente, cerca de 90 mil pessoas deixaram o país após ameaças de violência registradas após 30 de junho de 2026.
Embora não tenha fornecido dados específicos para todos os outros países, o responsável admitiu que a onda de agressões motivou a migração em massa de imigrantes, majoritariamente por rotas terrestres. Ele apontou o Zimbabué como a principal fonte de cidadãos que abandonaram a África do Sul, seguido pelo Maláui, Moçambique e Lesoto. Masiapato especificou que os moçambicanos representavam cerca de 20 mil dessas pessoas.
No que diz respeito às saídas aéreas pelo Aeroporto Internacional OR Tambo, o responsável mencionou cidadãos da Nigéria e do Gana.
Apesar de ainda ocorrerem ataques em certas áreas, o comissário garantiu que a África do Sul começou a registrar um aumento nas entradas de migrantes recentemente. Contudo, a imigração ilegal permanece sendo a maior preocupação das autoridades. Masiapato ressaltou que o desafio é contínuo, levando, por vezes, a revoltas populares contra o número de pessoas em situação irregular no país.
Ele acrescentou que as autoridades continuam a processar e a permitir a entrada de estrangeiros que atendem aos critérios legais para fins de turismo, visita ou trabalho. Para combater a imigração ilegal, foram intensificados os trabalhos de fiscalização nas linhas de fronteira e nos postos de passagem.
Masiapato explicou que iniciaram um trabalho mais rigoroso para identificar e interceptar indivíduos que tentam entrar ilegalmente, tanto na fronteira quanto nos pontos de entrada, especialmente aqueles que tentam subornar funcionários. Entre as ações implementadas, destaca-se o uso de drones nos principais pontos de travessia fronteiriça, particularmente na região de Lebombo, próxima à fronteira com Moçambique, o que reduziu consideravelmente as tentativas ilegais.
O responsável da BMA também enfatizou a colaboração com as autoridades moçambicanas no enfrentamento da imigração clandestina, através de operações conjuntas envolvendo a Polícia, as autoridades alfandegárias e as Forças Armadas de Defesa de Moçambique. Masiapato afirmou que o Governo de Moçambique e seus agentes não promovem a imigração ilegal, auxiliando assim na interceptação de quem tenta entrar ilegalmente na África do Sul.
As tensões xenófobas são um problema recorrente na África do Sul, gerando ondas de violência nos últimos anos, com dezenas de mortes, concentradas em bairros economicamente frágeis. Grupos anti-imigração frequentemente culpam os estrangeiros por problemas econômicos, falhas nos serviços públicos e altos índices de criminalidade, chegando a barrar o acesso de imigrantes a serviços de saúde e educação.
Adicionalmente, o Governo moçambicano comunicou em setembro que pelo menos 2.071 cidadãos nacionais retornaram ao país devido à violência xenófoba, evento que resultou oficialmente na morte de 11 moçambicanos. Atualmente, estima-se que existam cerca de 300 mil cidadãos moçambicanos residindo na África do Sul, e a Presidência da República já havia mencionado o retorno de milhares de nacionais devido à escalada da violência.

