A edição de 2026 do SEMA Show ocorre nesta primeira semana de novembro. O SEMA é a sigla para Specialty Equipment Market Association, uma associação da indústria americana de acessórios e equipamentos automotivos, estabelecida em 1963 e originalmente denominada Speed Equipment Manufacturers Association.
Entre os fundadores originais estavam figuras proeminentes como Ed Iskenderian, Vic Edelbrock Jr. e Dean Moon, cujos sobrenomes são bem conhecidos entre os aficionados por muscle cars e hot rods. A ideia para a organização do mercado surgiu em maio daquele ano, quando mais de vinte fabricantes decidiram se unir, visto que o mercado estava crescendo rapidamente, mas carecia de padronização, canais de distribuição e representatividade. A Revell, fabricante de miniaturas, participou dessa iniciativa buscando formas de negociar licenças para usar os logotipos dessas empresas em seus modelos.
Inicialmente, a missão da associação era bastante focada: representar os produtores de equipamentos de performance, definir padrões para seus produtos e estruturar um segmento que operava de forma muito independente. Assim, a conexão com a cultura clássica de modificação americana constituiu a essência do SEMA em seus primórdios. Em 1970, a associação alterou seu nome de Speed Equipment Manufacturers Association para Specialty Equipment Market Association, em resposta a pressões políticas decorrentes do endurecimento das regulamentações automotivas nos Estados Unidos e da crescente vigilância governamental sobre segurança e emissões. Além disso, o mercado havia expandido para além das peças exclusivas de carros de competição, abrangendo acessórios de estilo, suspensões, componentes de reposição e uma gama maior de equipamentos.
A primeira edição oficial do SEMA Show ocorreu em janeiro de 1967, no espaço sob as arquibancadas do Dodger Stadium, em Los Angeles, sob o nome High Performance & Custom Trade Show. Esse evento reuniu 98 expositores e cerca de 3.000 profissionais do setor. Embora os estandes iniciais fossem improvisados com mesas dobráveis e cadeiras, o resultado foi suficiente para assegurar a continuidade do projeto. No ano seguinte, o evento foi realocado para o recém-inaugurado Anaheim Convention Center, também na Califórnia.
O crescimento foi acelerado. Em meados da década de 1970, o espaço em Anaheim não comportava mais o número de expositores, com as edições de 1975 e 1976 atingindo a capacidade máxima e excluindo fabricantes. A solução encontrada foi mudar para Las Vegas em 1977, onde a primeira edição recebeu mais de 800 empresas. Desde então, o Las Vegas Convention Center se estabeleceu como sede permanente do evento, que evoluiu junto com a própria indústria de acessórios e preparação automotiva.
Essa indústria também sofreu grandes mudanças. Enquanto nos anos iniciais o foco era primordialmente em hot rods e equipamentos de performance, durante os anos 1980, o mercado começou a integrar com mais força carros importados, notadamente os japoneses e alemães, além do segmento crescente de picapes e veículos preparados para uso off-road. Nos anos 1990, a cultura dos carros personalizados, lowriders e hot hatches ampliou ainda mais o escopo do setor. Em 1992, a associação se aliou a outras entidades do setor para formar a Automotive Aftermarket Industry Week, consolidando a primeira semana de novembro em Las Vegas como um dos principais encontros globais do mercado de reposição automotiva.
Com o avanço das décadas, outra transformação crucial foi observada: o SEMA deixou de ser um ambiente quase exclusivo para marcas independentes de acessórios e passou a atrair as próprias fabricantes. Para as empresas que projetam e vendem automóveis, estar no mesmo local que os produtores de rodas, pneus, suspensões, sistemas de admissão e outros itens que personalizam um veículo original representa uma oportunidade valiosa. Marcas como Ford, Chevrolet, Toyota, Honda e Nissan passaram a usar o evento não só para exibir seus modelos, mas também para apresentar conceitos, pacotes de acessórios originais e projetos desenvolvidos em colaboração com preparadoras e fornecedores especializados.
Por essa razão, embora não possua a vocação de uma feira automotiva tradicional, o SEMA também se tornou cenário para lançamentos notáveis. A Honda, por exemplo, utilizou o evento de 2016 para mostrar o Civic Type R Prototype ao público norte-americano. Em 2019, a Chevrolet revelou o E-10, um restomod elétrico baseado na clássica picape C-10 de 1962, equipado com componentes do Bolt EV. Em 2022, a Nissan apresentou publicamente o Z GT4, uma versão de competição do esportivo que daria continuidade à tradição dos modelos Z nas pistas. Tais exemplos, aparentemente díspares, compartilham um ponto em comum: demonstram como o SEMA passou a representar tanto a indústria original quanto o ecossistema que a circunda.
Atualmente, o encontro transcendeu as fronteiras do mercado americano. Na edição de 2025, houve mais de 153 mil participantes, 2.300 marcas expostoras e representantes de mais de 140 países. O evento ocupa praticamente todo o complexo do Las Vegas Convention Center e funciona como uma vasta vitrine de produtos, tecnologias, negócios e, naturalmente, veículos.
Trata-se de um dos eventos mais relevantes da indústria automotiva mundial, mas possui uma característica singular: durante grande parte de sua história, o SEMA Show foi um evento estritamente profissional, limitado a fabricantes, distribuidores, compradores, imprensa e outros agentes do setor. Diferente das feiras convencionais, não era um evento destinado apenas à compra de ingressos para apreciar os carros. Essa tradição começou a receber exceções pontuais nos últimos anos, com a implementação de um acesso especial ao público na sexta-feira, o que ocorrerá também na edição de 2026.
Talvez seja justamente essa relação peculiar com a cultura automotiva que ajude a explicar o que se observa em Las Vegas este ano. Afinal, o SEMA nasceu do desejo de modificar carros, explorar possibilidades e dar novas interpretações a modelos já presentes na imaginação dos entusiastas. Mais de seis décadas depois, em uma indústria que passa por uma das maiores transformações de sua história, parece que olhar para o passado voltou a ser um componente importante para olhar para o futuro.
Isso fica evidente com a maior presença de restomods e clássicos preparados trazidos ao SEMA Show pelas próprias fabricantes. As preparadoras, oficinas e tuning houses, que sempre foram figuras recorrentes no evento, mantêm forte presença, mas há muitos projetos assinados por Dodge, Ford, GM & companhia que parecem pertencer a uma realidade alternativa onde o mundo não migrou para a eletrificação.
O Mustang clássico apresentado pela Ford chamou atenção imediatamente. Nomeado R125, este carro homenageia os 125 anos de história de competição da Ford, que começou em 1901, quando Henry Ford venceu uma corrida contra um dos pilotos mais famosos dos Estados Unidos da época. Ele também celebra a trajetória do Mustang como base para carros de competição, tanto no circuito profissional quanto entre entusiastas amadores.
A concepção do R125 é interessante porque não busca reinventar a roda. Trata-se de um Mustang Fastback 1966 restaurado e equipado com componentes da Ford Racing, seguindo uma proposta mais alinhada a um hot rod tradicional do que aos restomods modernos, que tendem a transformar qualquer clássico em um supercarro de altíssima potência. Abaixo do capô, há um V8 Ford de 347 polegadas cúbicas (5,7 litros), com bloco Boss, cabeçotes de alumínio e injeção eletrônica Edelbrock Pro-Flo. Ele gera 360 cv e 54 kgfm, transmitidos às rodas traseiras por uma transmissão manual Tremec de cinco marchas.
O design segue a mesma linha conceitual: carroceria preta, detalhes automobilísticos em vermelho e dourado, rodas douradas e pouca ostentação. É um Mustang que evoca uma época em que os preparadores simplesmente combinavam peças de qualidade, um motor V8 e grande disposição para acelerar. Um aspecto notável nesse projeto é que quase todos os componentes utilizados fazem parte do catálogo de peças de performance da própria Ford, fazendo do R125 uma vitrine do que proprietários de Mustangs clássicos podem realizar sem depender de soluções totalmente artesanais.
A Jeep também buscou inspiração em seu passado, mas com uma abordagem mais ousada. O Wrangler Scrambler SRT Concept resgata o nome e o conceito do CJ-8 Scrambler, uma picape compacta de duas portas fabricada nos anos 1980, mesclando a vocação tradicional off-road da marca com uma preparação que remete a competições no deserto.
Construído sobre a plataforma do Wrangler, o conceito apresenta carroceria de duas portas, caçamba integrada, teto removível e uma pintura laranja vibrante chamada “Punk’n”. Contudo, a inovação principal reside sob o chassi: pela primeira vez em um Wrangler, a Jeep desenvolveu uma suspensão dianteira independente, com a contribuição do piloto de off-road Casey Currie. Esta solução foi concebida para otimizar o desempenho em alta velocidade sobre terrenos irregulares, complementada por um eixo traseiro inspirado em caminhões Trophy Truck. O conjunto é finalizado com rodas beadlocks, pneus volumosos e um V8 HEMI de 470 cv e 64 kgfm.
Os bancos traseiros também merecem menção: eles podem ser retirados ou girados em 180 graus, permitindo que os ocupantes viajem de costas para o sentido do movimento, similar a alguns veículos de expedição. Embora não seja uma configuração típica de um Wrangler de produção, ela se encaixa perfeitamente na proposta de um conceito que busca conciliar múltiplas funções.
A Stellantis também trouxe uma das novidades mais atrativas para quem constrói veículos do zero. Através da Direct Connection, sua divisão oficial de peças de performance ligada à SRT, a empresa exibiu seis novos pacotes de motores HEMI V8 do tipo crate engine. Este anúncio é notável, especialmente considerando a direção que grande parte da indústria, incluindo a Dodge, tem tomado recentemente.
A nova linha inclui motores de 345 e 392 polegadas cúbicas, ambos naturalmente aspirados, nas configurações Street Strip e Super Stock, além dos supercharged Hellcrate Redeye e Hellephant C170. A potência inicia em 385 cv no menor V8 e atinge impressionantes 1.025 cv no Hellephant, quando abastecido com combustível E85. Este último utiliza um compressor mecânico IHI de 3,0 litros e entrega também 128 kgfm de torque. Os pacotes não se limitam à venda de motores isolados; eles contêm chicotes elétricos, módulos de gerenciamento e controladores pré-configurados para operar em conjunto, oferecendo compatibilidade com transmissões automáticas TorqueFlite de oito marchas ou manuais Tre.



