Esta semana, um incidente causou preocupação na Europa: ataques cibernéticos atingiram freezers e refrigeradores em supermercados em sete países, elevando a temperatura para 50°C. Este caso ocorreu na manhã de segunda-feira (02).
A Delhaize, a maior varejista da Bélgica, relatou problemas em dezenas de lojas tanto na Bélgica quanto no Luxemburgo. A empresa britânica SuperValu foi forçada a retirar produtos congelados e refrigerados de 13 lojas.
O Comissário Europeu para Alimentos e Agricultura, Christophe Hansen, classificou esses ataques cibernéticos como uma tentativa de interferir no abastecimento de alimentos na União Europeia. Esses ataques lembram os investigados pelo Pentágono contra mercados de bases militares dos EUA, bem como aqueles que afetaram centenas de supermercados franceses em outubro.
Especialistas explicaram o aumento desse tipo de ataque por vários fatores. Para Nascimento, o aumento da frequência desses eventos está ligado 'fundamentalmente à assimetria entre ataque e defesa'. Ele observou que a fusão de Tecnologias da Informação (TI) e Tecnologias Operacionais (TO) permitiu manter unidades de refrigeração, redes elétricas e equipamentos industriais em ambientes isolados, totalmente desconectados da internet.
No entanto, para garantir monitoramento remoto, rastreamento de consumo de energia e manutenção preditiva, as empresas conectaram esse equipamento antigo às redes corporativas e à internet pública, criando milhares de pontos de entrada desprotegidos.
Um especialista em Internet das Coisas (IoT) também citou outros dois fatores que contribuem para o aumento dos ataques cibernéticos. O primeiro é a busca acelerada por alvos usando inteligência artificial (IA). Segundo Nascimento, os invasores não precisam mais procurar alvos manualmente; eles usam ferramentas automatizadas baseadas em IA que escaneiam a internet 24 horas por dia, encontrando instantaneamente portas abertas, firmware desatualizado e senhas de fábrica padrão em milhões de dispositivos em todo o mundo simultaneamente.
O segundo fator são os motivos geopolíticos, e não monetários. O especialista enfatizou que os agentes maliciosos usam esses ataques de baixo custo e alto impacto para testar a resiliência da cadeia de suprimentos de uma nação e causar inconveniências à população, evitando a necessidade de invadir redes governamentais altamente protegidas.
Para Micaella Ribeiro, especialista em segurança da informação, a segurança de TO deve combinar prevenção de intrusões com limitação de consequências físicas. Isso exige a restrição de permissões de cada usuário e fornecedor, a segmentação de redes e o monitoramento de mudanças nos parâmetros operacionais. No setor de refrigeração, por exemplo, é necessário avaliar se uma pessoa com acesso pode alterar alarmes ou impedir a detecção de desvios de temperatura. A especialista alertou que tal concentração de poder pode levar a que uma única invasão cause um problema e dificulte sua detecção.
Para o especialista em IoT, os ataques cibernéticos na Europa servem como um aviso para o mercado brasileiro por três razões principais. A primeira é a cultura de 'instalar e esquecer'. No Brasil, a prioridade na implementação de IoT comercial é frequentemente a eficiência econômica e a rápida escalabilidade, enquanto a cibersegurança é vista como uma questão secundária. Muitas empresas instalam sensores conectados, bombas inteligentes ou freezers comerciais e nunca atualizam seu software, transformando esses dispositivos em verdadeiras 'bombas-relógio' do ponto de vista da segurança.
A segunda razão é o amplo uso de equipamentos obsoletos. Devido a fatores econômicos e altas tarifas de importação para novas tecnologias, a infraestrutura do Brasil depende fortemente de equipamentos antigos (legados). Nascimento acrescentou que a modernização desses sistemas obsoletos com modems de internet de terceiros, muitas vezes baratos, expõe o equipamento sem suporte a ameaças cibernéticas globais.
Por fim, a terceira razão são as vulnerabilidades críticas na cadeia de suprimentos. O especialista destacou a profunda dependência econômica da agroindústria, transporte de alimentos e logística da cadeia de frio. Um ataque coordenado que altera a temperatura em caminhões, centros de distribuição ou silos de grãos pode paralisar instantaneamente as cadeias de suprimentos locais, causar aumento nos preços dos alimentos e violar requisitos de exportação.
À medida que as pessoas vivem cada vez mais em casas onde os dispositivos 'conversam' entre si — por exemplo, ligando luzes e televisores através de um dispositivo Amazon com Alexa —, mais coisas em nossas casas estão conectadas à internet. À luz dos recentes ataques cibernéticos na Europa e nos EUA, especialistas deram conselhos sobre como os usuários de dispositivos 'inteligentes' podem se proteger.
Existem maneiras de proteger a casa conectada, mas isso exige uma mudança de mentalidade: passar de uma posição passiva para uma posição ativa de segurança. Embora a responsabilidade principal pela segurança dos dispositivos recaia sobre os fabricantes, os usuários devem criar um 'perímetro digital' intencional. As estratégias de proteção mais eficazes e práticas para a casa inteligente incluem:


