Mesmo com a desaceleração do aquecimento global, a Terra pode sofrer danos irreversíveis
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Mesmo com a desaceleração do aquecimento global, a Terra pode sofrer danos irreversíveis

A possibilidade de causar danos irreversíveis à Terra persiste mesmo no caso de uma desaceleração do aquecimento global. Ultrapassar o limiar temporário de 1,5 °C de aquecimento global pode levar à perda irreversível de gelo e ao aumento acelerado do nível do oceano, mesmo que as temperaturas comecem a cair posteriormente.

Este aviso está contido em um novo relatório preparado pela Iniciativa Internacional da Criosfera e Clima (International Cryosphere Climate Initiative, ICCI) em coordenação com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que foi publicado na terça-feira (2).

O documento, intitulado «Overshoot and the Cryosphere: Averting Global Meltdown» (Excesso e a Criosfera: Evitando o Colapso Global), inclui a contribuição de mais de 80 cientistas especializados em regiões polares e montanhosas.

A pesquisa analisa os riscos do chamado «overshoot» — um cenário em que a temperatura média global excede o limite de 1,5 °C estabelecido no Acordo de Paris e depois retorna a valores mais baixos.

Segundo os pesquisadores, a duração e a intensidade desse período determinam a escala dos danos. Mesmo que o planeta consiga retornar a temperaturas mais baixas, algumas consequências para geleiras, calotas de gelo, solos congelados e oceanos polares podem persistir por séculos ou até milênios.

Outro ponto importante destacado no estudo é que o limiar de 1,5 °C não é necessariamente uma condição segura para todas as regiões congeladas do planeta. Os cientistas acreditam que um nível de aquecimento mais próximo de 1 °C ou até inferior seria mais adequado para preservar grandes massas de gelo nas próximas décadas.

Essa diferença é significativa, pois alguns processos de degelo demonstram uma reação muito lenta às mudanças de temperatura. Mesmo após a diminuição do aquecimento global, geleiras e calotas de gelo podem continuar a perder massa devido a mudanças acumuladas anteriormente.

O problema não se limita às áreas cobertas por gelo. O aquecimento e a acidificação dos oceanos polares também podem causar mudanças de longo prazo nos ecossistemas marinhos e nas grandes correntes oceânicas que ajudam a regular o clima mundial.

Além disso, o degelo do permafrost — uma camada de solo que permanece congelada por longos períodos — pode liberar gases de efeito estufa armazenados no solo, intensificando assim o próprio aquecimento global.

Embora a maior perda de gelo esteja concentrada nas regiões polares, suas consequências podem afetar países distantes, incluindo o Brasil. O aumento do nível do mar aumenta a vulnerabilidade das cidades costeiras a inundações, erosão de praias e danos à infraestrutura. Também contribui para a intrusão de água salgada em aquíferos e terras agrícolas perto da costa.

O plano nacional de adaptação às mudanças climáticas apresentado pelo governo brasileiro à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima já define o aumento do nível do mar como um fator de risco para a zona costeira do Brasil.

Nesse cenário, as comunidades que vivem em áreas baixas podem enfrentar crescentes dificuldades na proteção de moradias, atividades econômicas e fontes de abastecimento de água.

Considerando esses riscos, os autores pedem uma redução acelerada das emissões de gases de efeito estufa para limitar tanto a intensidade quanto a duração de qualquer ultrapassagem do limiar de 1,5°C.

A recomendação é reduzir as emissões em pelo menos 5% anualmente, a partir de agora, e atingir emissões líquidas zero até meados do século.

O relatório também enfatiza a necessidade de abandono gradual dos combustíveis fósseis e a expansão do uso de fontes de energia renovável.

Embora algumas perdas já sejam inevitáveis, os cientistas afirmam que ainda é possível evitar os piores cenários. Uma redução mais rápida do aquecimento pode retardar o derretimento das geleiras, limitar o degelo do permafrost e, sob certas condições, permitir a recuperação parcial de áreas de gelo e neve.

A mensagem central do documento é que cada fração de grau conta. Mesmo que a humanidade consiga reduzir a temperatura após ultrapassar o limite estabelecido no Acordo de Paris, nem todos os danos causados nesse período poderão ser reparados.

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As concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa registraram novos picos em 2025, elevando a retenção de calor no planeta e acelerando o aquecimento global, conforme detalha um recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) divulgado na terça-feira, dia 27.

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) informou que a média global de dióxido de carbono (CO2), o principal gás associado ao aquecimento induzido por ações humanas, alcançou 426,8 partes por milhão (ppm) em 2025. Este valor corresponde a 153% do nível existente na época pré-industrial, em 1750. Em termos práticos, isso significa que cerca de 427 moléculas de ar em um milhão são compostas por dióxido de carbono.

Este dado também sinaliza um incremento de 53% quando comparado ao período anterior à industrialização. Embora o aumento de CO2 em relação a 2024 tenha sido de apenas 2,8 ppm, o volume total permanece superior à média observada nas últimas décadas. A OMM aponta que a taxa de crescimento do CO2 na atmosfera triplicou desde a década de 1960; nesse período, o aumento médio era de 0,8 ppm anuais, subindo para 2,4 ppm entre 2011 e 2020.

Desde que a agência iniciou a publicação de seu boletim anual sobre gases de efeito estufa em 2004, a concentração média global de CO2 era de 377,5 ppm.

Ko Barrett, vice-secretária-geral da OMM, comentou que «mais um ano, mais um novo recorde. Os gases de efeito estufa estão retendo uma quantidade sem precedentes de calor na atmosfera, fornecendo energia para fenômenos meteorológicos mais extremos e aumentando os riscos para nossas economias e sociedades». Ela acrescentou que «os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, e essa tendência deve continuar. O CO2 permanece na atmosfera por muito tempo e, por isso, afetará o clima global não apenas durante anos, mas por décadas e até séculos».

O relatório também destacou que os níveis de metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), outros dois gases de efeito estufa de longa duração, também atingiram patamares inéditos.

Em 2025, o metano registrou uma média global de 1.948 partes por bilhão (ppb), o que equivale a 267% do nível pré-industrial, representando um avanço de 167% em relação a 1750. Cerca de 65% dessas emissões provêm de atividades humanas, como pecuária, cultivo de arroz, extração de combustíveis fósseis, aterros sanitários e queima de vegetação, enquanto os 35% restantes são de origem natural, como áreas alagadas.

Quanto ao óxido nitroso, o terceiro gás de efeito estufa de longa duração, ele atingiu uma média de 339,1 ppb em 2025, correspondendo a 126% do nível de 1750, ou seja, 26% acima do registro daquele período. Este gás é liberado tanto por processos naturais quanto por intervenções humanas, principalmente devido ao uso de fertilizantes agrícolas, queima de vegetação e certos processos industriais.

A OMM enfatiza que o aumento constante nessas concentrações implica que a atmosfera está acumulando cada vez mais calor. Dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicam que, entre 1990 e 2025, o impacto de aquecimento gerado por esses gases de longa duração cresceu 56%, sendo o CO2 responsável por aproximadamente 81% desse aumento.

A agência esclarece que os números apresentados refletem a quantidade total de gases acumulados na atmosfera, e não apenas o volume emitido no último ano. A ONU adverte que eventos como ondas de calor extremas, secas e inundações severas impactaram milhões de pessoas e geraram bilhões de dólares de prejuízos apenas neste ano.

Isso acontece porque aproximadamente metade do CO2 liberado anualmente permanece na atmosfera, enquanto o restante é absorvido pelos oceanos e pelos ecossistemas terrestres, como as florestas. Contudo, a capacidade desses ambientes de remover carbono do ar pode variar dependendo das condições climáticas.

Segundo a OMM, o crescimento mais lento da concentração de CO2 entre 2024 e 2025 se deve à recuperação da capacidade de absorção de carbono dos ecossistemas terrestres e à diminuição das emissões causadas por incêndios florestais. Oksana Tarasova, cientista da OMM, explicou que «o crescimento mais moderado entre 2024 e 2025 reflete a recuperação da capacidade de absorção de carbono pelos ecossistemas terrestres e a redução das emissões provocadas por incêndios em 2025, após o forte El Niño de 2023 e 2024».

Apesar dessa desaceleração no ritmo, a especialista alerta que a quantidade de carbono acumulada na atmosfera segue em ascensão. Ela afirmou que «um aumento anual de 2,8 ppm ainda representa uma quantidade significativa de carbono adicionada à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis».

A OMM também projeta que as concentrações de CO2 continuarão a subir em 2026, impulsionadas pelo uso de combustíveis fósseis e pela possibilidade de um El Niño intenso, o que pode comprometer novamente a capacidade de absorção de carbono da vegetação. Além disso, a agência alerta que as alterações climáticas podem diminuir a aptidão dos oceanos para absorver CO2, resultando em uma maior proporção das emissões permanecendo na atmosfera.

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O aquecimento global, ou seja, o aumento da temperatura no planeta, está ocorrendo em ritmo acelerado em todo o mundo. As emissões de gases resultantes da queima de combustíveis como carvão, gasolina e diesel aquecem a Terra. Isso afeta florestas, oceanos e condições climáticas.

Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático na Alemanha, alertou que nos próximos anos a temperatura média da Terra pode ultrapassar o limiar de 1,5 graus Celsius em comparação com os níveis pré-era industrial. Isso pode levar ao aumento da frequência de fenômenos como ondas de calor, chuvas fortes e outras situações climáticas desfavoráveis.

Rockström observou em uma conferência na terça-feira que as florestas da Amazônia e os recifes de coral podem sofrer danos tão graves que a restauração ao seu estado original se tornará extremamente difícil. Além disso, ele apontou a crescente ameaça aos sistemas relacionados à circulação de água no Oceano Atlântico.

Na sua opinião, para conter o aquecimento global, é necessário não apenas reduzir a poluição, mas também cuidar da preservação da natureza. O impacto do aumento da temperatura não se limita apenas ao aumento do calor; pode causar mudanças nos sistemas naturais relacionados à chuva, seca e mar. O aumento da temperatura eleva o risco de eventos extremos, como ondas de calor e precipitações intensas, afetando pessoas, plantas e animais.

Rockström enfatizou que o ultrapassar o limiar de 1,5 graus Celsius em relação à média pré-industrial pode ocorrer nos próximos anos, e isso se referirá à temperatura média mundial, e não a um aumento uniforme em todas as regiões.

As florestas da Amazônia são uma das maiores florestas tropicais do mundo. Elas desempenham um papel fundamental na manutenção do equilíbrio da temperatura da Terra, absorvendo dióxido de carbono da atmosfera. No entanto, elas sofrem com o aumento do calor, incêndios florestais e desmatamento. Se grande parte dessas florestas desaparecer, o risco de mudança climática pode aumentar.

Os recifes de coral servem de lar para inúmeras formas de vida marinha. Quando a temperatura da água do mar aumenta, os corais começam a perder a cor em um processo conhecido como branqueamento de corais. Com o aumento prolongado da temperatura, os corais podem morrer, o que afetará negativamente outros habitantes do mar.

A corrente de água no Oceano Atlântico influencia o clima mundial. Uma parte desse sistema transporta água quente das Bahamas para a Europa Ocidental, ajudando a formar o clima na Europa. Rockström relatou um aumento do perigo para alguns segmentos desse sistema. O aumento da temperatura e o derretimento do gelo podem aumentar a quantidade de água doce no oceano, o que potencialmente levará a mudanças nas correntes. Tal mudança pode afetar o clima em muitas regiões.

Rockström pediu que as empresas considerassem a interconexão entre as mudanças climáticas e os danos à natureza. Ele considera necessário reduzir o uso de carvão, gasolina e diesel, ao mesmo tempo em que protege florestas, vegetação, animais e fontes de água. Ele também expressou preocupação com as tentativas de enfraquecer regulamentos sobre a eliminação de veículos com motor de combustão interna, observando que subsídios à gasolina e ao diesel podem diminuir a demanda por carros elétricos.

Para prevenir o aumento da temperatura da Terra, é fundamental reduzir a poluição de combustíveis fósseis. Paralelamente, é necessário prestar atenção à proteção das florestas, à conservação dos recursos hídricos e ao uso racional dos recursos naturais. A conferência climática internacional COP31 está programada para o início de 9 de novembro, onde serão discutidas medidas para combater as mudanças climáticas. Rockström alerta que as consequências do aquecimento global não se limitarão apenas ao aumento da temperatura, mas afetarão florestas, oceanos e sistemas naturais dos quais depende a vida humana e de outros organismos.

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