A Grande Barragem do Renascimento Etíope, conhecida pela sigla GERD, é uma obra colossal de engenharia e arquitetura que, apesar de conectar, também gera divisões significativas. Esta megabarragem coloca em xeque quem detém o direito de soberania sobre os recursos hídricos e energéticos do rio, desafiando os antigos tratados do Nilo estabelecidos durante a era colonial.
Inaugurada em setembro de 2025, a GERD é uma estrutura maciça de concreto localizada no Nilo Azul, no oeste da Etiópia, especificamente na região de Benishangul-Gumuz. Ela está situada a apenas 30 quilômetros rio acima e a leste da fronteira com o Sudão. Sua construção visa torná-la uma das maiores fontes de energia hidrelétrica do planeta, simbolizando a autonomia tecnológica e o avanço econômico da Etiópia.
Detalhes da Arquitetura da Barragem
Para entender o debate, é fundamental conhecer sua estrutura. A GERD foi construída sob a administração da empresa de engenharia civil Webuild (anteriormente Salini Impregilo) para a Ethiopian Electric Power. Ela consiste em uma barragem principal de concreto compactado com rolo (CCR), uma barragem de sela de enrocamento com revestimento de concreto, além de sistemas de vertedouros e usinas hidrelétricas na base.
Com uma capacidade projetada de 6.000 MW (embora a literatura recente registre 5.150 MW), a barragem possui 1,8 quilômetro de comprimento e atinge 175 metros de altura. A barragem principal, a apenas 14 quilômetros do Sudão, contém um reservatório chamado Lago Nigat, com capacidade para 74 bilhões de metros cúbicos de água, uma área superficial três vezes maior que a de Adis Abeba.
Adicionalmente, há uma barragem de sela de 5 quilômetros de extensão e 50 metros de altura que serve para contenção passiva de água em uma área mais baixa da bacia. A vazão média anual total do reservatório é de cerca de 50 bilhões de metros cúbicos. Duas centrais hidrelétricas, equipadas com 13 turbinas Francis em ambas as margens do rio, geram uma média anual de 15.700 GWh.
O sistema de vertedouros assegura a segurança da barragem ao permitir o escoamento seguro das águas de cheia, mantendo o nível do reservatório dentro dos limites planejados. Estes incluem um vertedouro de serviço principal com comportas, um vertedouro de crista livre e um vertedouro de emergência lateral sem comportas, preparado para eventos extremos.
Os laboratórios internos da Webuild foram responsáveis por testar e desenvolver os materiais para garantir a estabilidade estrutural e o desempenho mecânico a longo prazo. Isso foi alcançado através de uma mistura avançada de CCR, desenvolvida internamente e internacionalmente, caracterizada por baixo teor de cimento e água, e tempos de pega prolongados. Uma rede de galerias na barragem principal aloja instrumentos de alta sensibilidade, como pêndulos verticais, para monitorar em tempo real a pressão hidrostática, deslocamentos estruturais, integridade das juntas e funcionamento das turbinas. Esses dados são enviados a um banco de dados centralizado no centro de controle da margem direita, possibilitando manutenções preventivas e garantindo a máxima confiabilidade estrutural.
A capacidade de retenção do reservatório permite que a GERD modifique os padrões sazonais de vazão, gerencie inundações e produza energia. Contudo, por estar inserida em um sistema fluvial internacional e transfronteiriço, o processo de enchimento do reservatório suscita dúvidas sobre as necessidades hídricas e os cronogramas de armazenamento. Os ciclos de enchimento foram realizados de maneira unilateral, sem transparência entre o país a montante e seus vizinhos a jusante, intensificando tensões geopolíticas.
A operação da GERD exige regulação hidrológica, visto que a falta de coordenação e o compartilhamento pouco transparente de dados podem prejudicar a infraestrutura a jusante, como a barragem de Roseires, no Sudão, devido à sua proximidade com a GERD.
O Egito alega que as ações unilaterais da Etiópia podem diminuir o fluxo de água, representando uma ameaça nacional à sua economia e população. O país também aponta a «exploração unilateral» das águas transfronteiriças da Etiópia nas bacias do Omo, Jubba e Shebelle, além dos prejuízos causados aos vizinhos Somália e Quênia.
A resolução pacífica desta questão poderia fomentar uma cooperação regional crucial no Nilo Branco. A liberação desorganizada de água das barragens de Uganda, por exemplo, já causou inundações a jusante no Sudão do Sul, resultando em deslocamento forçado de pessoas e surtos de doenças.
A Hegemonia Histórica
No planejamento inicial da GERD, realizado na década de 1960, a Etiópia não possuía estabilidade interna para prosseguir com o projeto. A iniciativa foi mantida em segredo até que um volume de trabalho significativo fosse concluído, pois era sabido que seu desenvolvimento teria um forte impacto geopolítico, especialmente nas nações localizadas a jusante na bacia.
Este peso é amplificado ao considerar que os países da Bacia do Nilo somam 11, distribuídos a montante, a jusante ou em ambas as posições. As nações estritamente a montante incluem Burundi, República Democrática do Congo, Ruanda, Uganda, Tanzânia, Quênia, Eritreia e Etiópia. O Egito é o único país exclusivamente a jusante. Sudão e Sudão do Sul ocupam posições mistas: o Sudão do Sul está a montante em relação ao Sudão e ao Egito, mas a jusante em relação a Uganda, dado que o Nilo Branco recebe rios que desaguam no Lago Vitória.
O Nilo Azul, que constitui 85% do volume total do Rio Nilo, origina-se no Lago Tana, no Planalto Etíope, corre em direção ao Sudão e, finalmente, se une ao Nilo Branco em Cartum para formar o curso principal do Nilo, que atravessa o Egito até desaguar no Mar Mediterrâneo.
Historicamente, a política hídrica da Bacia do Nilo foi dominada pela hegemonia hídrica do Egito, um padrão jurídico consolidado ao longo de um século de «tratados» da era colonial — os Tratados do Nilo — em contraste com a busca por um acordo multilateral que ainda entra em conflito com os direitos de uso da água.
O Tratado Anglo-Etíope de 1902 inicialmente assegurou ao Egito o controle sobre o Nilo, proibindo a Etiópia de modificar o curso do Nilo Azul sem permissão britânica. Essa supremacia foi reforçada pelo Tratado Anglo-Egípcio de 1929 — que funcionava mais como uma troca de notas do que um tratado formal, dando ao Egito poder de veto sobre projetos a montante ou iniciativas unilaterais — e pelo subsequente Acordo de Águas do Nilo de 1959, que concedeu cotas anuais exclusivas de 55,5 bilhões de metros cúbicos ao Egito e 18,5 bilhões de metros cúbicos ao Sudão.
Entretanto, a realidade é mais complexa: embora estes tratados desiguais da época colonial devam ser revisados ou revogados, o Egito permanece um país com grave escassez hídrica, dependendo do Nilo para mais de 90% de suas necessidades de água doce, com cerca de 95% da população vivendo às suas margens.
Além disso, diferentemente de outras nações ribeirinhas da bacia — exceto Eritreia (que participa como observadora na Iniciativa da Bacia do Nilo devido ao seu baixo impacto hídrico) e Sudão (que sofre com colapso de infraestrutura) —, o Egito depende do Nilo como linha vital de sobrevivência. Visto que a GERD está no Nilo Azul, responsável pela maior parte do volume total do rio, o projeto implica uma mudança drástica no equilíbrio de poder regional, encerrando o «monopólio» das águas e gerando apreensão para a agricultura e segurança hídrica dos países a jusante, principalmente em períodos de secas prolongadas.
Para contestar este controle assimétrico, a Iniciativa da Bacia do Nilo (NBI) foi lançada em 1999, seguida pelo Acordo de Quadro Cooperativo (CFA) em 2010, apenas um ano antes do início das obras da Barragem da Renascença em 2011.
Devido às tensões internas da Primavera Árabe, o Egito não conseguiu se opor ou bloquear o projeto de forma eficaz. Seu isolamento aumentou quando o Sudão amenizou suas objeções antigas, adotando uma postura de neutralidade moderada. Desde então, a posição sudanesa variou frequentemente — entre rejeição, neutralidade ou apoio —, influenciada principalmente por sua própria fragmentação política interna. O debate sobre os prós e contras da barragem também moldou essas mudanças de posição. Por um lado, a barragem promete irrigação mais estável, custos de dragagem reduzidos e melhor gestão de cheias. Por outro, apresenta riscos sérios a longo prazo: empobrecimento das planícies aluviais devido ao acúmulo de sedimentos no reservatório, perturbações nos ecossistemas locais e a falta persistente de cooperação entre as três nações.
A pressão política culminou na Declaração de Princípios sobre a GERD em 2015, que é o principal marco trilateral entre Etiópia, Sudão e Egito. Neste documento, os três países reconheceram a existência da barragem e se comprometeram com os princípios do direito internacional da água. Contudo, até hoje, eles não chegaram a um acordo vinculativo sobre o ritmo de enchimento do reservatório ou sobre a gestão de períodos de estiagem.
As divergências persistem em uma escala mais ampla. Quando o Acordo de Quadro Cooperativo da Bacia do Nilo (CFA) entrou em vigor em outubro de 2024, Egito e Sudão recusaram-se a assiná-lo, buscando proteger o acesso a um recurso vital e os direitos de veto que alegam com base nos tratados coloniais.
A Arquitetura da Geopolítica
Estruturas de concreto podem controlar fluxos físicos de água, mas raramente solucionam atritos políticos. A Etiópia apresenta a GERD como um recurso partilhado, construído para sua população e para os países vizinhos, comprometendo-se a exportar o excesso de energia para impulsionar sua própria economia e apoiar o continente. No entanto, a incerteza hidrológica permanece o maior obstáculo devido à ausência de um acordo claro e definitivo para a operação da barragem.
Um modelo de governança hídrica transfronteiriça sustentável e equitativo pode ser observado na Organização para o Aproveitamento do Rio Senegal (OMVS), que implementa um modelo de compartilhamento colaborativo de benefícios e copropriedade das infraestruturas.
Em suma, liberar o potencial real da GERD como motor de integração econômica da África Oriental depende da superação de impasses para garantir a segurança dos vizinhos a jusante e estabelecer um novo paradigma de governança hídrica equitativa, segurança ambiental e cooperação trilateral duradoura. Caso contrário, como uma bacia hidrográfica compartilhada conseguirá conciliar o direito de uma nação de construir seu futuro econômico com o direito de seus vizinhos à segurança hídrica?