Um representante do Brasil declarou à Lusa que o acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e o Canadá tem o potencial de transformar os laços econômicos entre Brasil e Canadá, abrindo novas oportunidades de investimento.
Igor Brandan, diretor de operações da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) para a América do Norte, enfatizou que este acordo pode alterar o nível das relações entre Brasil e Canadá, bem como com todos os outros membros do bloco MERCOSUL, mas especialmente para o Brasil.
Em declarações feitas à Lusa durante a 19ª conferência Doing Business in Brazil, realizada na terça-feira em Toronto, ele observou que as negociações comerciais podem fortalecer a cooperação em setores como agricultura, indústria farmacêutica, aviação e produtos processados.
Ele explicou que o principal obstáculo é o cronograma das negociações. Apesar de terem sido realizadas 10 rodadas de discussão, ainda restam capítulos a serem debatidos e concluídos. Segundo Igor Brandan, o acordo trará benefícios primariamente aos setores de alto valor agregado, permitindo diversificar as exportações brasileiras além das matérias-primas.
"Entendemos que cadeias de medicamentos, por exemplo, na produção, em produtos alimentícios processados, serão setores que se beneficiarão, e isso pode criar um novo perfil de comércio entre Brasil e Canadá", acrescentou ele. O representante também destacou a complementaridade das duas economias, citando a produção canadense de fertilizantes e o vasto setor agrícola brasileiro como exemplos de oportunidades de cooperação.
Além disso, a aproximação econômica pode beneficiar a indústria aeroespacial e os minerais críticos. Ele lembrou que o Brasil possui a segunda maior reserva de elementos de terras raras, o que tem um enorme potencial no contexto da agenda de transição energética e economia verde. Igor Brandan também ressaltou a experiência canadense na mineração, acreditando que a cooperação tecnológica e a troca de conhecimento podem promover uma parceria estratégica de longo prazo.
De acordo com dados da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, o volume de comércio entre os dois países atingiu cerca de 10,4 bilhões de dólares norte-americanos (9,3 bilhões de euros) em 2025. Desse montante, 7,25 bilhões de dólares (6,5 bilhões de euros) corresponderam às exportações brasileiras, e 3,14 bilhões de dólares (2,8 bilhões de euros) às importações do Canadá. Estima-se que os investimentos canadenses acumulados na economia brasileira somaram cerca de 33 bilhões de euros até o final de 2025, segundo Igor Brandan.
Apesar desses indicadores, o representante acredita que existe um potencial significativo para aumentar o volume de comércio, dada a dimensão de ambas as economias. Igor Brandan insistiu na necessidade de desenvolver relações econômicas de longo prazo entre Brasil e Canadá, independentemente das mudanças políticas em Washington, Ottawa ou Brasília. Ele justificou isso pelo fato de ambos os países possuírem interesses e características econômicas complementares.
A ApexBrasil planeja realizar mais três missões comerciais em Toronto e Montreal até o final do ano, que incluirão empresas dos setores de mineração, alimentos, audiovisual e economia criativa. Ele confirmou que nenhum novo acordo foi anunciado na conferência, mas os contatos fortaleceram a confiança dos investidores canadenses no mercado brasileiro.
Por sua vez, Peter Hawkins, copresidente da Câmara de Comércio Brasil-Canadá, apontou a proteção de setores econômicos concorrentes como um dos principais obstáculos nas negociações comerciais entre Canadá e MERCOSUL. "Ambos produzimos carne e aço, e há o receio de que um mercado possa prejudicar o outro", disse ele à Lusa, citando preocupações de produtores de carne do Alberta, no Canadá, sobre a importação de produtos brasileiros.
No entanto, Hawkins afirmou que as diferenças nos produtos e tecnologias utilizadas podem promover a complementaridade das duas economias, em vez de intensificar a concorrência. Na opinião de Peter Hawkins, mais da metade dos bens discutidos já foi resolvida, embora permaneçam questões importantes a serem finalizadas. Ele observou: "Se houver a possibilidade de fechar um acordo de livre comércio, poderemos aumentar exponencialmente o volume de comércio", reconhecendo a possibilidade de gerar adicionais 6,2 bilhões de euros em negócios. O empresário também destacou os contatos estabelecidos entre empresas de tecnologia e representantes do setor agrícola durante a conferência, bem como a preparação de novas missões de negócios nos próximos meses. Entre os eventos planejados estão missões de empreendedores e líderes canadenses em Florianópolis e São Paulo, bem como contatos nos setores de vestuário, animação e alimentação.