Um estudo publicado na revista The Lancet sugere que a manosfera, definida como uma comunidade online que advoga visões machistas ou defende a masculinidade em oposição à autonomia feminina, deve ser abordada como um problema de saúde pública, equiparando-a ao tabagismo e à obesidade.
Os autores do estudo argumentam que os problemas masculinos são frequentemente apresentados na manosfera como consequência do feminismo, em vez de serem vistos como condições estruturais. Além disso, a identidade masculina é comercializada por meio de produtos e conteúdos pagos que reforçam masculinidades prejudiciais à saúde e focadas no desempenho.
O trabalho detalha que a manosfera constitui um 'conjunto informal de comunidades online unidas por crenças partilhadas sobre a masculinidade, a misoginia e a vitimização masculina' e pode ser vista como um 'ecossistema comercial'. Isso ocorre porque as receitas são geradas por publicidade nas plataformas, modelos de assinatura e criação de conteúdo.
Os pesquisadores acrescentam que os algoritmos tendem a promover conteúdos que visam maximizar a atenção e a monetização. Essa amplificação não é passiva, pois os incentivos financeiros que estruturam a manosfera premiam as manifestações mais extremas de masculinidade tóxica e misoginia, visto que a indignação e o ressentimento beneficiam o negócio.
Os estudiosos alertam que, assim como acontece com as indústrias de tabaco e alimentos ultraprocessados, criadores de conteúdo e plataformas empregam táticas que individualizam a responsabilidade. Frequentemente, os esforços para regular ou moderar esses conteúdos são apresentados como ameaças à autonomia masculina, limitando o espaço político para qualquer intervenção.
O relatório enfatiza a necessidade de uma resposta coordenada envolvendo governos, instituições de ensino, serviços de saúde e grupos comunitários, similar ao combate à obesidade e ao tabagismo. É crucial garantir o acesso igualitário a serviços de saúde mental e outros cuidados primários, bem como promover o emprego e as habilidades para melhorar o acesso ao mercado de trabalho.
As estratégias adotadas devem evitar enquadrar a masculinidade como intrinsecamente tóxica ou os homens e rapazes como inerentemente problemáticos. Especialistas apontam que o isolamento social e a exclusão são fatores que levam os homens a consumirem esse tipo de material.
Kent Buse, coautor do artigo e fundador do grupo de reflexão sobre justiça social Global 50/50, defendeu que se trata de um modelo de negócios, e não de um fenômeno marginal. Ele previu que a estratégia utilizada pela indústria do tabaco — culpar o indivíduo e rotular a regulamentação como um ataque à liberdade — será replicada. Buse afirmou que a saúde pública possui ferramentas comprovadas para combater danos comerciais e elas devem ser utilizadas.
O mesmo estudioso ressaltou que o problema não reside nos rapazes e homens, mas sim nas condições que os deixam isolados e sem perspectivas futuras, e nas empresas que lucram com sua insegurança e raiva.
Por sua vez, Sarah Hawkes, outra coautora do relatório, destacou que a manosfera proporciona aos jovens um senso de pertencimento, identidade e uma explicação para a dificuldade percebida na vida. Ela sustentou que uma resposta que apenas elimine a manosfera, sem oferecer alternativas críveis, será ineficaz, sendo necessário oferecer aos jovens algo melhor, em vez de apenas indicar o que devem evitar.



