Em 1984, Amyr Klink realizou a primeira travessia do Atlântico Sul a remo, partindo da Namíbia e chegando à Bahia. Nesta expedição marcante, ele permaneceu isolado por cem dias, dedicando aproximadamente oito horas diárias ao remo. Durante a jornada, ele dependia exclusivamente de cálculos baseados nas estrelas para determinar sua localização, comunicando-se por rádio apenas algumas vezes por semana, sem o auxílio de GPS ou internet.
A preparação para esta aventura foi tão complexa quanto a própria travessia. Inicialmente, Amyr precisou conceber uma embarcação adequada às suas necessidades: ela deveria ser leve para facilitar o remo, mas robusta o suficiente para transportar todos os suprimentos e água necessários para o percurso completo. Além disso, era crucial que o barco fosse estável, pois um tombamento no oceano significaria morte certa.
Ele colaborou no projeto do barco com o engenheiro naval José Carlos Belford, que levantou dúvidas sobre a possibilidade de uma embarcação totalmente imune a capotagens. A solução encontrada foi um mecanismo que permitia ao barco retornar à sua posição original automaticamente após virar, semelhante a um «joão-bobo». Durante a viagem, Amyr sofreu três capotagens perto da costa africana, e em todas as ocasiões, o barco se estabilizou sozinho.
A gestão da alimentação também exigiu soluções criativas. Amyr transportou 275 litros de água e precisou restringir seu consumo a menos de três litros por dia. Para isso, ele utilizou alimentos desidratados que podiam ser preparados utilizando água do mar. Ao longo da travessia, ele enfrentou desafios físicos e técnicos, além de interagir com diversos animais marinhos, registrando tudo em um diário que posteriormente serviu de base para o best-seller «Cem dias entre céu e mar».
Mais recentemente, a história foi adaptada para o cinema no filme «100 dias», dirigido por Carlos Saldanha e estrelado por Filipe Bragança, que interpreta Amyr. O lançamento do longa está previsto para 29 de outubro. Em entrevista concedida à Superinteressante, Amyr Klink compartilhou outros pormenores de sua travessia histórica e comentou sobre a adaptação cinematográfica.
Amyr Klink expressou apreço por Carlos Saldanha, afirmando que, nas primeiras reuniões, deixou claro que o diretor tinha total liberdade criativa. Ele ficou extremamente impressionado com o rigor histórico da equipe, que buscou refazer detalhes considerados indispensáveis. Klink mencionou que, embora ele próprio não usasse adornos corporais, utilizou um colar com uma cruz de ouro presente de Natália Falzoni durante a travessia. No filme, Filipe Bragança recebeu uma corrente e camisetas idênticas às usadas na viagem.
O barco utilizado na produção é uma réplica encomendada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), sendo uma cópia fiel que realiza navegações. Klink descreveu o esforço envolvido na produção, citando sua visita ao set em Paraty e à piscina montada em São Paulo, classificando o processo como um ato de heroísmo devido à paciência necessária.
Ele refletiu que Filipe Bragança pode ter sofrido mais do que ele, pois a produção construiu uma máquina de gerar ondas, fazendo com que o ator tomasse água no rosto, algo que não ocorreu com Klink.
Klink relatou que o período da travessia foi complicado pessoalmente, tendo que esconder sua atividade da família; apenas sua mãe estava ciente e o apoiou, auxiliando na tradução de manuais de sobrevivência em sueco, alemão e francês. Sua relação com o pai era tensa, visto que este era descrito como um homem difícil e violento. O pai reagiu com indignação ao ler no jornal O Estado de S. Paulo sobre a intenção de um brasileiro chamado Amyr cruzar o Atlântico a remo, o que gerou um rompimento temporário. Houve uma reconciliação no meio do Atlântico, facilitada por radioamadores que localizaram o pai.
Klink destacou que, embora tenha admirado as tentativas fracassadas de travessia no Atlântico Norte, nenhuma havia sido realizada no Atlântico Sul. Ele admitia ter medo de morrer no mar, o que o motivou a planejar tudo meticulosamente. Ele observou que os erros de outros remadores eram frequentemente simples, relacionados à má nutrição, à falta de planejamento de rota ou ao desconhecimento de astronomia, e não à distância ou às ondas de 15 metros.
Para Klink, o trabalho foi tão gratificante quanto a viagem, permitindo-lhe aprender astronomia e navegação sem depender de GPS ou internet, transformando o projeto inicial em uma experiência positiva. Ele ressaltou que a busca incessante pela perfeição é perigosa, mas que é preciso começar. Os maiores riscos, segundo ele, não vieram do oceano, mas sim dos entraves burocráticos impostos pelo regime do apartheid na África do Sul e na Namíbia.
As autoridades sul-africanas demonstraram desaprovação ao saberem da tentativa de um brasileiro de deixar o sul da África rumo ao Brasil sem motor ou vela, resultando em uma série de problemas burocráticos. Embora planejasse levar o mínimo necessário, ele priorizou conforto e eficiência, mantendo os suprimentos em cerca de um terço do peso total do barco. Ele teve o apoio de nutricionistas do Paraná, que desenvolveram uma dieta inovadora onde ele cozinhava com água do mar, superando o desafio do excesso de sal através de alimentos desidratados e liofilizados sem cloreto de sódio.
Klink participou da construção do barco e levou painéis fotovoltaicos, além de livros técnicos de navegação, tábuas e almanaques para os cálculos astronômicos. Contudo, enquanto estava na Namíbia, ganhou um exemplar de «Cem Anos de Solidão» de Gabriel García Márquez em inglês. Este livro foi danificado por um tubarão que atingiu o leme, um evento que o fez temer um naufrágio.
Ao conversar com outros navegadores, como Gérard d’Aboville, ele aprendeu sobre o comportamento dos tubarões. Inicialmente, eles apenas se esfregavam no barco, mas mais tarde passaram a atacá-lo. Klink descobriu que o problema era a tinta anti-incrustante do casco; os tubarões removiam essa tinta, permitindo o crescimento de percebes, e passaram a bater neles para atrair peixes dourados, usando-o como isca. Ele teve que inventar um método para remover os crustáceos sem danificar a tinta.
Próximo ao litoral brasileiro, ele avistou um grupo de golfinhos sem focinho, que, na verdade, eram filhotes de baleia jubarte protegidos por um círculo de baleias adultas, um momento que ele intitulou «A creche das baleias» em seu livro. Após a travessia, Klink se especializou em viagens à Antártica. Em suas primeiras visitas, passou um verão inteiro lá, e em viagens mais recentes, sofreu queimaduras graves ao tomar banho nu sob o sol, evidenciando a notável mudança na ação dos raios ultravioleta.
