ONU alerta para os riscos do uso de Inteligência Artificial na violência contra mulheres
Leia mais
Olhar Digital
olhardigital.com.br

ONU alerta para os riscos do uso de Inteligência Artificial na violência contra mulheres

O Comitê da ONU para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (Cedaw) solicitou que os países implementem ações para combater os estereótipos de gênero. A organização adverte que tecnologias como a inteligência artificial (IA) têm o potencial de intensificar a violência digital e replicar preconceitos que impactam a vida feminina.

Em uma nova orientação, o comitê defende alterações nas legislações, nas plataformas digitais e nos procedimentos institucionais visando erradicar a discriminação em diversas esferas da sociedade.

O Cedaw manifestou grande apreensão quanto ao emprego de ferramentas de IA generativa e de sistemas autônomos, denominados agentes de IA, para facilitar atos de agressão na internet. Entre os perigos apontados estão a produção de conteúdos audiovisuais sexualizados sem o consentimento das vítimas, golpes de identidade, chantagem sexual e ataques direcionados a mulheres em posições de liderança. Os chamados deepfakes referem-se a mídias (imagens, vídeos ou áudios) que foram alteradas ou criadas por meio de inteligência artificial.

Para mitigar tais abusos, o comitê sugere a adoção de medidas que aumentem a transparência e a prestação de contas tanto por parte das corporações quanto dos governos. As propostas incluem:

Os vieses de gênero também podem influenciar o funcionamento das instituições. No âmbito da Justiça, por exemplo, preconceitos podem afetar a maneira como o depoimento das mulheres é avaliado e as decisões tomadas pelos tribunais, o que pode levar a erros judiciais. O Cedaw defende a revisão de normas e práticas que tratam a violência como um assunto estritamente privado ou familiar, que culpam as vítimas pelas agressões sofridas ou que justificam a violência masculina. Além disso, a entidade propõe mecanismos para responsabilizar juízes, procuradores e agentes de segurança que mantêm práticas discriminatórias, bem como a revisão de sentenças marcadas por preconceito.

No setor da saúde, esses estereótipos podem comprometer diagnósticos e decisões relativas à saúde reprodutiva. Por essa razão, o comitê advoga pelo consentimento informado antes de qualquer procedimento médico, pela implementação de medidas contra a violência obstétrica e pela descriminalização do aborto.

A disparidade também se manifesta na distribuição das obrigações familiares. A crença de que as mulheres devem assumir a maior parcela dos cuidados com filhos e parentes contribui para desequilíbrios econômicos. Para resolver este cenário, o Cedaw sugere uma repartição mais equitativa do trabalho não remunerado e a criação de políticas de licença parental. O agravamento da sobrecarga de cuidados pode ser potencializado por conflitos, desastres climáticos e crises humanitárias, o que leva à naturalização da violência de gênero.

A diretriz enfatiza que o enfrentamento à discriminação requer mais do que soluções isoladas; os países precisam abordar também as atitudes, os sistemas e as estruturas sociais que perpetuam os estereótipos.

Popular