O Ministério da Saúde iniciou a distribuição de nove medicamentos de alta tecnologia destinados ao tratamento de câncer na rede pública brasileira. Esta iniciativa faz parte de um plano governamental focado em expandir o acesso a terapias oncológicas no país.
Os fármacos abrangem 13 indicações clínicas, cobrindo tratamentos para cânceres de alta incidência, como os de mama, próstata e pulmão, além de linfomas. Inicialmente, espera-se beneficiar mais de 116 mil pacientes em 20 unidades de saúde localizadas em 17 estados, com a meta de cobrir toda a rede pública até o final do ano.
Maria Ignez Braghiroli, oncologista especializada em tumores do trato digestivo da Oncologia D’Or e membro do Grupo de Tumores Gastrointestinais do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), detalhou o impacto da inclusão desses novos medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), suas aplicações e os cuidados necessários durante o tratamento.
Entre os medicamentos introduzidos estão o abemaciclibe, usado no tratamento de câncer de mama, e o pazopanibe, indicado para estágios avançados de câncer renal. Essas terapias oferecem mais opções de tratamento, mas demandam monitoramento médico rigoroso e cuidados específicos.
Segundo Maria Ignez, o abemaciclibe atua inibindo proteínas que estimulam a proliferação celular tumoral. Ele é empregado em um tipo de câncer de mama que possui receptor de hormônio positivo. O tratamento frequentemente é combinado com terapia hormonal e, por ser oral, permite que o paciente o administre em casa, seguindo horários e doses prescritas, geralmente duas vezes ao dia.
A oncologista alertou que o efeito colateral mais comum é a diarreia, especialmente nas primeiras semanas, exigindo acompanhamento constante. Além disso, ele pode causar fadiga e náuseas em alguns indivíduos.
Quanto ao pazopanibe, Maria Ignez esclareceu que ele interfere nos processos que promovem o crescimento tumoral e a formação de vasos sanguíneos que nutrem as células cancerígenas. Trata-se de uma terapia-alvo anti-angiogênica, liberada pelo SUS para câncer de células renais, pois bloqueia sinais que impulsionam o crescimento e a vascularização tumoral, restringindo o suprimento de nutrientes.
O uso do pazopanibe exige vigilância contínua, sobretudo devido a possíveis mudanças na pressão arterial e na função hepática. A hipertensão pode surgir mesmo em pacientes sem histórico prévio, e alterações no fígado devem ser verificadas por exames de sangue periódicos. A médica acrescentou que, apesar do risco aumentado de sangramento, a tolerância geral do medicamento é razoável quando comparada às quimioterapias tradicionais.
Outra novidade é a inclusão do trastuzumabe, já usado em certos tumores mamários, para tratar casos específicos de câncer de estômago e da junção esofagogástrica. Essa indicação está ligada à presença da proteína HER2, cuja amplificação ocorre em uma porcentagem dos tumores gástricos.
Braghiroli explicou que a eficácia do trastuzumabe neste novo contexto foi investigada em estudos há mais de dez anos. Inicialmente, o medicamento era usado em tumores de mama com amplificação de HER2, e um estudo de 2010 demonstrou seu benefício no tratamento de tumores gástricos com essa característica molecular. Desde então, ele passou a ser aprovado em conjunto com quimioterapia para tumores específicos.
A pesquisa continua avançando, com estudos recentes, como o de 2023, mostrando o benefício da associação de imunoterapia a essa combinação. A médica ressaltou que, para o SUS, é um avanço significativo, visto que essa medicação possui eficácia comprovada há algum tempo.
A lista disponibilizada pelo Ministério da Saúde inclui tratamentos para diversos tipos de câncer, cujas indicações dependem das características e do estágio da doença. A abiraterona, por exemplo, atua no estímulo hormonal, um mecanismo chave na progressão do câncer de próstata. Ao reduzir a produção de testosterona, ela auxilia no controle da doença, mesmo em áreas onde tratamentos hormonais convencionais não foram totalmente eficazes.
Segundo a especialista, a abiraterona é utilizada quando os métodos de bloqueio hormonal padrão falham, sendo um tratamento bem consolidado na prática clínica. No entanto, nem todos os tratamentos são universais; a indicação de alguns depende da detecção de alterações genéticas ou proteicas específicas nas células tumorais, tornando os exames laboratoriais cruciais para a decisão terapêutica.
O gefitinibe, usado contra certos tumores pulmonares, é um exemplo disso. Embora seja um tratamento estabelecido, ele só é indicado se o tumor apresentar uma mutação no gene EGFR, conferindo sensibilidade à terapia. Essa alteração é confirmada por um teste molecular realizado em amostra tumoral coletada durante o diagnóstico.
Adicionalmente à oferta de medicamentos, o Ministério da Saúde começou a distribuir 400 mil testes imunoquímicos fecais para estados e capitais brasileiras. Esta ação visa intensificar a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer intestinal, sendo direcionada a homens e mulheres entre 50 e 75 anos.
O teste detecta vestígios de sangue nas fezes, mesmo invisíveis a olho nu, podendo indicar pólipos ou tumores existentes. A identificação precoce possibilita o encaminhamento para exames complementares, como a colonoscopia, que permite visualizar o intestino e remover pólipos. Diversas sociedades médicas recomendam esse rastreamento preventivo.
O teste imunoquímico fecal serve como primeira fase dessa investigação: um resultado positivo direciona o indivíduo para a colonoscopia para determinar a origem do sangramento e avaliar lesões. Outras melhorias na rede pública incluem a implementação do rastreamento do câncer de colo do útero com testes de DNA e o custeio federal de cirurgias oncológicas videotorácicas, que permitem recuperação mais rápida.
Apesar da expansão dessas iniciativas, o principal desafio do SUS permanece sendo garantir que a disponibilidade de medicamentos, exames e procedimentos se converta em atendimento efetivo, assegurando o acompanhamento completo do paciente durante todo o processo de tratamento.
