Especialistas em saúde alertaram à Lusa que a desconfiança da população local e o histórico de violência no leste da República Democrática do Congo (RDCongo) estão complicando o enfrentamento do Ebola, fazendo com que a epidemia avance de forma oculta nas estatísticas oficiais.
Mohamed Yakub Janabi, Diretor Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, informou que, em 20 de outubro, a RDCongo registrava 9.704 casos confirmados e 4.687 óbitos, resultando em uma taxa de mortalidade de 48,3%. Contudo, a percepção no campo indica que os números reais são consideravelmente maiores.
Tomás Bandeira, responsável de medicina tropical da Médicos Sem Fronteiras (MSF), alertou que os dados disponíveis provavelmente subestimam a realidade, permitindo que a doença se espalhe 'nas sombras' e indicando que o problema 'está longe de estar resolvido'.
O responsável da MSF relatou que há muitos casos que não chegam a tempo de receber tratamento, em locais inacessíveis, seja porque as comunidades não aceitam as equipes, seja devido às condições de segurança.
O médico português explicou que a população local demonstrava desconfiança em relação às equipes internacionais, pois não tinha histórico de contato com organizações humanitárias e estava acostumada a procurar ajuda junto a estrangeiros ligados à mineração ou a utilizar tratamentos tradicionais.
Para superar essa falta de confiança, que culminou em ataques a centros de tratamento, como ocorreu em Nyankunde em julho, a OMS e seus parceiros intensificaram o trabalho com líderes comunitários, religiosos, praticantes de medicina tradicional, sobreviventes e agentes de saúde locais, conforme detalhado por Mohamed Yakub Janabi.
Em Nyankunde, foram realizados 32 diálogos envolvendo mais de 1.500 líderes e figuras influentes. Essa ação elevou os alertas comunitários diários de um pico de 11 para algo entre 60 e 70 em setembro, e não houve novos ataques no local desde julho.
Similarmente, em Mongbwalu, quase seis meses após a chegada da MSF, o engajamento com autoridades locais e líderes comunitários ajudou a fazer com que o centro de tratamento fosse aceito pela população, levando as pessoas a retornar ao hospital.
O Ebola é caracterizado por ser altamente contagioso, transmitindo-se pelo contato direto com fluidos corporais de indivíduos infectados, incluindo vômito e sangue, ou pelo toque em superfícies e materiais contaminados, como roupas de cama e vestuário.
A epidemia, causada pelo vírus Bundibugyo — sobre o qual persistem incertezas clínicas devido à carência de dados comparativos —, é classificada por Tomás Bandeira como 'uma crise dentro de uma crise'.
O médico lembrou que a situação no país, vizinho de Angola, ocorre em um contexto de conflito armado, com a presença de diversos grupos paramilitares, o que gera altos níveis de deslocamento populacional e surtos concomitantes de cólera e malária.
O dirigente da OMS salientou que, enquanto o Ebola necessita de acesso confiável a pacientes e rastreamento de contatos, a cólera demanda água potável, saneamento e vacinação específica.
Adicionalmente, o médico português observou que o foco exclusivo no Ebola está desviando atenção e recursos de campanhas de vacinação e do combate a outras doenças letais, como a malária.
Para conter a transmissão, o diretor regional da OMS defendeu como necessidades urgentes garantir acesso humanitário seguro, assegurar financiamento previsível, prover apoio e pagamento confiável aos profissionais de linha de frente, além de fornecer suprimentos e materiais apropriados.
