A onça-pintada identificada como Cynthia, responsável por atacar animais domésticos no assentamento Lambari, em Poconé (MT), foi avistada com dois filhotes. Este registro ocorreu após aproximadamente um ano sem novos incidentes de ataque ao gado na área que foi protegida por cercas elétricas, conforme dados fornecidos pelo Instituto Impacto.
O registro dos felinos foi realizado em maio deste ano e divulgado pelo instituto nas redes sociais na última semana de setembro. O Instituto Impacto relatou que, durante cerca de dez meses de monitoramento subsequente à instalação da cerca, não foram registrados novos ataques na zona protegida.
Paul Raad, médico-veterinário e presidente do instituto, esclareceu que o objetivo da iniciativa é garantir a segurança dos animais de criação sem interferir na capacidade das onças de viverem em seu ambiente natural. Ele ressaltou que não há provas de que a colocação da cerca tenha causado o nascimento dos filhotes.
Raad comentou sobre a situação inicial, afirmando: “Não havia um vilão nessa história: havia produtores prejudicados e uma onça-pintada que precisava continuar vivendo em seu habitat. Precisávamos encontrar uma solução para os dois”.
O sistema de proteção emprega fios eletricamente carregados dispostos em diversas alturas ao redor da área onde o gado está resguardado, especialmente durante a noite. Ao tentar cruzar essa barreira, a onça recebe um pulso elétrico breve, o qual gera desconforto e visa dissuadi-la de entrar, sem intenção de causar lesões.
Os trabalhos tiveram início em 2022, visando oferecer aos produtores métodos práticos para prevenir os ataques das onças. Paul mencionou que o projeto contou com a orientação do pesquisador Rafael Hoogesteijn, seu mentor na área, e com a cooperação da organização WWF Brasil, dedicada à preservação da natureza.
Ele observou: “Percebemos que havia uma lacuna entre o conhecimento científico e a aplicação prática das estratégias de coexistência. O objetivo sempre foi transformar esse conhecimento em soluções que funcionassem na realidade do Pantanal”.
Uma das primeiras implementações ocorreu na Fazenda Piuval, também conhecida como Fazenda Ypiranga, localizada em Poconé. O proprietário, Eduardo Campos, relatou que os ataques afetavam majoritariamente bezerros mantidos em espaços abertos. A solução adotada foi manter as vacas e os filhotes em uma área de maternidade cercada por currais equipados com cerca elétrica.
Campos afirmou que, após a instalação da cerca elétrica, não houve nenhuma predação dentro da maternidade, embora ainda existam relatos de ataques quando os animais são liberados dela. De acordo com o Instituto Impacto, uma análise comparativa de dois períodos consecutivos de catorze meses na área monitorada demonstrou uma diminuição de cerca de 83% nas perdas de animais causadas por onças-pintadas.
Nos 14 meses anteriores à instalação da cerca, foram registradas 23 mortes, enquanto nos 14 meses seguintes, esse número caiu para apenas quatro. A propriedade de Eduardo já possui três dessas estruturas de proteção. O fazendeiro também vincula a proteção do gado à atividade turística local, que depende da manutenção da fauna.
Ele declarou: “Não poderia ter essa relação de matar as onças, porque ela vale mais viva do que morta. Essa coexistência da pecuária com o turismo tem que existir”.
O custo de montagem varia conforme o tamanho da área e a infraestrutura necessária. Paul estimou que uma cerca construída do zero para proteger uma área com capacidade para cerca de 100 animais pode custar entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. Eduardo, da Fazenda Piuval, informou que cada curral elétrico custou aproximadamente R$ 10 mil.
O Instituto Impacto informou que já prestou assistência a mais de 15 propriedades tanto no Pantanal quanto na Amazônia. No Pantanal mato-grossense, as ações estão focadas primariamente em Poconé, mas também abrangem iniciativas em Cáceres e outras localidades.
A equipe busca estabelecer parcerias para possibilitar a instalação dessas estruturas em propriedades de produtores com menor poder aquisitivo, oferecendo, paralelamente, assessoria técnica para avaliar cada situação. O propósito é aumentar o uso de medidas que diminuam os prejuízos na pecuária e promovam uma convivência harmoniosa entre os agricultores e as onças-pintadas.

