Alguns benzedeiros no interior do Rio Grande do Sul estão utilizando o celular para realizar rituais de oração a cavalos e bovinos, modernizando uma tradição antiga. Em vez de visitar as propriedades rurais, os pedidos de ajuda podem ser feitos através de mensagens de texto ou áudios enviados pelo telefone, integrando a tecnologia à rotina desses praticantes.
Ronaldo, um dos benzedeiros, atende a esses pedidos remotamente. Os proprietários entram em contato telefônico e enviam fotos dos animais necessitados. Ele mencionou que começou a benzer há aproximadamente dez anos, e desde então, os pedidos aumentaram, chegando também por canais digitais. Para ele, a eficácia da prática depende tanto da crença de quem solicita quanto de quem executa o ritual.
Ronaldo compartilhou uma experiência anterior em que benzer uma vaca 'bichada' no morro resultou em sucesso. Atualmente, ele recebe muitos pedidos, inclusive por meios digitais. Entre os clientes, há Lauri, fornecedor de gado para rodeios, que solicitou auxílio para uma vaca por meio de um áudio. Segundo Lauri, o animal demonstrou melhora após as orações, afirmando que o benzedor possui um 'dom de Deus'.
Outro produtor rural, José Ricardo Lima, procurou Ronaldo após uma recomendação de um amigo. Ele enviou uma foto de uma potranca com problemas. Semanas depois, José Ricardo constatou que o animal estava recuperado. Ele relatou que, após enviar a foto, recebeu a orientação de que não precisaria mais observar o animal, e na terceira semana, ao ir ao campo, viu que a potranca estava bem, reforçando sua fé.
Elementos simbólicos
Em Santo Antônio da Patrulha, a benzedeira Arinda Rocha de Souza incorpora elementos simbólicos em seus atendimentos. Ela utiliza uma folha e uma faca, gestos que, segundo ela, simbolizam o afastamento do problema que afeta o animal. Arinda explica que a folhinha é seu método de bênção, proferindo o nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A fé religiosa é um pilar central na atividade de Arinda. Ela reza pedindo proteção a santos, citando Santo Expedito e São Sebastião. Arinda considera Santo Expedito seu protetor e acredita na força de São Sebastião, afirmando que se pedir a ele, ele protege o que está sendo solicitado.
Elma Sant'ana, escritora especializada no tema, explica que a persistência dessa tradição no ambiente rural visa restaurar a harmonia entre humanos e animais, que historicamente viviam em uma relação de dependência no campo. Ela detalha que, ao rezar, a benzedeira não via uma hierarquia entre o animal e o ser humano, mas sim uma desarmonia que precisava ser equilibrada.
Preces por recuperação
Na cidade de Soledade, a benzedeira Jurema, de 77 anos, continua oferecendo assistência durante eventos tradicionais, conversando com participantes que buscam ajuda para cavalos e outros animais. Seus rituais são breves, focando em pedidos para afastar males e desejar a recuperação do animal.
Jurema aprendeu a prática por conta própria, atribuindo seu conhecimento aos 'poderes de Deus'. Ela reza, por exemplo: 'Espírito, eu, em nome de Jesus, tiro todos os ciúmes, as invejas, 'mau-olhado', olho grande que botaram em você, e Deus manda pra longe, e que tu trate de melhorar bem, e que sare'.
Um caso memorável que Jurema recorda é o de uma égua que sofria com cólicas. Pouco tempo após a bênção, o proprietário retornou para informar que o animal havia se levantado e voltado a pastar, dizendo que isso ocorreu em menos de trinta minutos.
