Devido ao aumento progressivo das temperaturas, o plano de climatização das instituições públicas sob gestão do governo paulista deixará de contemplar a maioria das unidades na região de Piracicaba (SP). Dos 63 estabelecimentos da Unidade Regional de Piracicaba, 37 não serão equipados com aparelhos de ar-condicionado.
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc) comunicou ao g1 que a priorização do plano foi direcionada a áreas mais quentes do estado, visando a melhoria das condições de conforto térmico e de aprendizado. Contudo, a Secretaria não forneceu justificativa para a exclusão de 59% das unidades da UR de Piracicaba.
Para a maioria dos colégios que não receberão os equipamentos, e mesmo para aqueles que os terão somente até o começo de 2027, é crucial que as estruturas escolares sejam modificadas. Essas adaptações devem fazer com que o ar-condicionado funcione como um complemento, e não como a única defesa contra o calor.
Abordagens de arquitetura bioclimática
Doutora Letícia Neves e mestra Eduarda Chaga, ambas especialistas em arquitetura bioclimática da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), defendem essa abordagem. Neves esclarece que a climatização eficaz de qualquer local deve dar preferência às chamadas estratégias passivas, que não demandam consumo de energia, antes de recorrer aos sistemas ativos, como ventiladores ou ar-condicionado.
As soluções passivas englobam desde a construção de paredes mais espessas e o uso de coberturas isolantes, até a asseguração de ventilação cruzada e o alinhamento correto dos edifícios em relação à trajetória solar. Neves acrescenta que, considerando futuros desafios no fornecimento de energia, a resiliência das edificações é vital, pois estruturas com maior climatização passiva podem se manter funcionais mesmo em caso de interrupção elétrica.
Por sua vez, Chaga sugere que as reformas em escolas já existentes devem focar em quatro pontos principais: isolamento térmico de telhados e coberturas; aplicação de tintas claras nas fachadas para reduzir a absorção de radiação solar; provisão de sombreamento através de árvores ou barreiras externas; e otimização da ventilação natural, incluindo o aproveitamento da ventilação noturna para resfriar os espaços internos quando a temperatura externa for mais baixa.
Padronização dos projetos escolares
As escolas estaduais paulistas seguem padrões definidos pelos manuais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), órgão governamental responsável pelas obras. Segundo Neves, esses manuais priorizam a economia, a modularidade e o sistema construtivo. Chaga complementa que, apesar de facilitarem a construção, esses manuais falham em considerar as particularidades climáticas de cada área de São Paulo, o que compromete o conforto bioclimático dos usuários.
Chaga enfatiza que uma escola em clima quente necessita de uma resposta arquitetônica distinta daquela em regiões mais amenas, e este é o desafio de adequar a arquitetura às condições locais. Neves detalha que o padrão da FDE prevê salas de aula uniformes, medindo 7,20 metros por 7,20 metros, e que as construções desconsideram as orientações ideais para minimizar a incidência solar.
Um modelo frequentemente empregado é o de fileira dupla de salas com corredor central. A arquiteta considera que este arranjo prejudica a circulação de ar natural. Embora a FDE geralmente projete uma janela alta voltada para o corredor para promover a ventilação cruzada, as professoras costumam fechá-la por questões de acústica, impedindo a audição de ruídos de salas vizinhas. Neves relata que, em uma pesquisa de campo realizada por Eduarda Chaga, a direção de uma escola chegou a vedar tais janelas durante uma reforma. Ela alerta que, se a janela aberta já não for a solução ideal, seu fechamento impede a circulação de ar necessária em salas com grande número de ocupantes.
O g1 buscou contato com a FDE, mas não obteve retorno até a última atualização da matéria.
Os riscos de usar ar-condicionado sem planejamento
Letícia Neves adverte que simplesmente instalar aparelhos do tipo split em ambientes fechados apenas faz com que o ar «velho» seja recirculado, elevando os níveis de dióxido de carbono (CO₂) e deteriorando a qualidade do ar interno. Ela classifica essa situação como «totalmente insalubre», contribuindo para a disseminação de doenças e provocando fadiga e sonolência devido à alta concentração de CO₂.
Para solucionar esse problema, Neves apresenta duas vias: se for escolhido um aparelho split convencional, é mandatório adicionar um ventilador separado para renovar o ar. Em sistemas mais avançados e robustos, como multi-split ou central, essa renovação é gerenciada pelo próprio equipamento. Em ambos os cenários, a especialista sublinha a importância de contratar um projetista de ar-condicionado, pois o conceito do ambiente requer um raciocínio técnico normatizado. A norma NBR 16401 define uma taxa mínima de renovação de ar baseada em diversos fatores, como a densidade de ocupação.
O g1 questionou se toda a rede de instalações segue a NBR 16401, mas a pasta responsável não respondeu até o momento da publicação.
Lista de escolas com e sem ar-condicionado
A Unidade Regional de Ensino de Piracicaba abrange municípios como Águas de São Pedro (SP), Charqueada (SP), Piracicaba (SP), Saltinho (SP), Santa Maria da Serra (SP) e São Pedro (SP). De acordo com a Seduc, esta rede atende 29.322 estudantes e conta com 2.100 professores.
Sobre as escolas excluídas desta fase do projeto, a Seduc-SP informou que essas unidades possuem, em média, três ventiladores por sala de aula. Em períodos de calor intenso, a recomendação do governo estadual é que as escolas ajustem suas rotinas para proteger os alunos. Tais orientações incluem realizar aulas de Educação Física com menor intensidade, prever intervalos frequentes para hidratação e evitar a exposição dos estudantes ao sol, especialmente entre 10h e 16h, período de maior calor. A secretaria também confirmou que as diretorias das escolas detêm autonomia para implementar essas adaptações conforme a necessidade.
