Sistema de abastecimento de água de Manaus: como o Rio Negro fornece água para mais de 2,2 milhões de habitantes
Leia mais
Grupo Globo
g1.globo.com

Sistema de abastecimento de água de Manaus: como o Rio Negro fornece água para mais de 2,2 milhões de habitantes

No dia da celebração dos 357 anos de Manaus, o Rio Negro continua sendo uma fonte vital para a cidade, apesar de todas as transformações. Existe um sistema complexo responsável por captar a água do rio e entregá-la às torneiras de mais de 2,2 milhões de pessoas, e este sistema enfrenta hoje os maiores desafios devido às mudanças climáticas.

A história deste sistema é contada por pessoas que trabalham diariamente em sua manutenção, como Simone Santos, que ocupa o cargo de supervisor de manutenção eletromecânica na Águas de Manaus. Ele trabalha com saneamento básico há dez anos. Antes de ingressar nesta concessionária, ele trabalhou como soldador após experiência no estádio Mane Garrincha, em Brasília, e em diversas indústrias.

Simone relembra: «Eu nunca tinha trabalhado com saneamento antes. Até então, eu era apenas alguém que bebia água, mas não sabia de onde ela vinha nem como era produzida». Sua curiosidade em entender todo o percurso da água, da captação à torneira, o motivou a permanecer e crescer na empresa justamente quando o sistema estava passando pelo teste mais sério.

Em 2024, Manaus enfrentou a seca mais severa em 120 anos, quando o nível do Rio Negro caiu para 12,11 metros. Para que a cidade pudesse atravessar o período de baixo nível sem prejuízo ao abastecimento, foi necessário desenvolver soluções antes inéditas, como a redução das bombas de captação de água. Dos dezesseis bombas verticais instaladas no rio, treze foram rebaixadas durante uma operação complexa envolvendo mergulhadores e equipamentos especiais operando em estruturas datadas de alguns anos 1960.

Este projeto foi um ponto de virada para Simone, que quis contribuir e assumiu a liderança desta ação. O trabalho, que durou cerca de cinco meses, incluiu um estudo técnico que demonstrou que a eficiência das bombas anfíbias usadas para drenar cidades inundadas durante as cheias no Rio Grande do Sul naquele ano poderia ser aplicada em sentido inverso em Manaus — para captar água do rio durante a queda do nível.

Ele resume: «Essa solução nasceu para a seca, mas foi incorporada definitivamente ao nosso sistema. Foi um projeto tão bem-sucedido que garantiu o abastecimento de outras áreas afetadas por emergências». Ele acrescentou também que este trabalho serviu de modelo para o que foi desenvolvido neste ano durante a seca, quando a concessionária adquiriu mais duas bombas anfíbias para reforçar a captação de água em Ponta das Lajes, que abastece a Zona Leste e parte da Zona Norte.

A estrutura chamou a atenção até do fabricante, e funcionários de outras concessionárias visitam a fábrica para estudar este projeto. Simone compartilha: «Para pessoas de fora, foi um trabalho inovador, com uma estrutura de fornecimento confiável que teve que ser totalmente adaptada neste cenário extremo. Temos muita troca de experiências com outras empresas que querem entender como esse trabalho foi realizado». Ele também observou que esta operação marcou um novo passo em sua vida profissional: «Comecei a ver o projeto não apenas como uma forma de realizar trabalhos de soldagem, mas como uma oportunidade de saber o que eu poderia alcançar profissionalmente, e isso ajudou a salvar Manaus de alguma forma».

A seca de 2024 representa um dos últimos desafios para o abastecimento de Manaus. No entanto, para entender o quanto o sistema mudou ao longo do tempo, é preciso voltar a um passado ainda mais distante. Há 50 anos, no setor de saneamento da capital, o engenheiro Jalma Sobrinho acompanhava atentamente a transformação das estruturas e o aumento da capacidade de captação de água.

Ele conta que a estação Ponta do Ismael foi projetada para um vazão de 1,8 metros cúbicos por segundo. «A PDI opera em torno de 5-6 metros cúbicos por segundo. No início do século passado, a captação era feita pela força da gravidade e dependia do alto nível do rio. Hoje, são necessárias estruturas flutuantes e planejamento, porque o rio está baixando mais do que antes», observa ele.

Jalma lembra que a lógica sempre residiu na pré-tratamento da água do rio antes de sua purificação. «A água do Rio Negro contém muitos materiais orgânicos e suspensões, além de um nível de pH muito baixo. Para que ocorra a reação, precisamos elevar o pH», explica ele.

Entre as inúmeras mudanças, permanecem vestígios daqueles que iniciaram tudo. Na Ponta do Ismael, ainda está afixada uma placa de 1909, marcando a Manaós Improvements, uma empresa inglesa que implementou o primeiro sistema moderno de abastecimento de água da cidade. O projetista Anderson Oliveira, que trabalha com saneamento de Manaus desde 1996, complementa essa narrativa: «Nós tínhamos caldeiras, algumas bombas do tipo inglês, mas elas foram rapidamente substituídas. Essas estruturas de ferro permanecem robustas».

Desde 2018, a Águas de Manaus tem promovido transformações no saneamento da capital amazônica. Em oito anos, a cidade alcançou a universalização do abastecimento de água para mais de 2 milhões de pessoas. Agora, esse processo se repete em relação ao sistema de esgoto, que atende 42% da população e também deve ser universalizado em menos de 10 anos. Essa mudança é construída com o apoio de iniciativas passadas bem-sucedidas e considerando direções inovadoras que permitem levar um sistema completo de saneamento às áreas vulneráveis.

Popular