Para quem acompanha partidas profissionais de League of Legends (LoL), os resultados finais — como abates, objetivos alcançados e estratégias aplicadas — são visíveis na tela, mas o público raramente testemunha o extenso trabalho realizado antes de os jogadores acessarem o servidor.
Por trás de qualquer confronto competitivo há inúmeras horas dedicadas ao treinamento, à análise de desempenho, a reuniões e a testes de táticas. Um elemento crucial nesse preparo são as chamadas scrims.
O termo 'scrim' deriva da palavra inglesa 'scrimmage' e designa partidas de treino entre equipes. No cenário de e-sports, essas sessões permitem que os atletas simulem um ambiente de competição oficial, focando, contudo, no aprendizado.
O coach Night Wing foi consultado pelo Olhar Digital para elucidar os bastidores da preparação competitiva e os desafios inerentes ao desenvolvimento de jogadores, especialmente nas categorias de base.
Segundo Night Wing, as scrims são tipicamente estruturadas em formatos de melhor de três (MD3) ou melhor de cinco partidas (MD5). Isso implica que as equipes disputam uma sequência de jogos, aproveitando cada confronto para testar abordagens, identificar falhas e refinar a colaboração coletiva.
O treinador esclarece: “São blocos de MD5 ou MD3, onde os times se enfrentam simulando situações reais”. A seleção dos oponentes também faz parte do planejamento estratégico. Night Wing enfatiza a importância de enfrentar times de diferentes patamares, mesclando parceiros de treino habituais com adversários que apresentem novos desafios.
Treinar contra equipes de nível similar auxilia no monitoramento da evolução ao longo do tempo, enquanto os duelos contra adversários distintos ajudam a entender como o time se adapta a diversos estilos de jogo. A organização desses encontros ocorre frequentemente por meio de grupos de scrims, onde representantes das equipes acertam horários e confrontos. Com a crescente profissionalização, a gestão do calendário pode ser delegada à comissão técnica, visando prevenir sessões de treino improdutivas.
A rotina de uma equipe competitiva não consiste em jogar partidas o dia inteiro. Na programação ideal definida por Night Wing, os jogadores iniciam o dia dedicando-se a cuidados pessoais e à saúde física. Após o almoço, a equipe se reúne para revisar o planejamento e estabelecer os objetivos do treino. O primeiro bloco de scrims geralmente começa entre 13h e 14h.
Durante os intervalos entre os jogos, treinadores e jogadores debatem ajustes específicos, buscando corrigir problemas sem quebrar excessivamente o ritmo do treinamento. À noite, a equipe pode realizar um segundo bloco mais breve ou dedicar esse tempo à análise detalhada das dificuldades previamente detectadas.
Existe uma distinção vital entre jogar casualmente e treinar de forma estruturada. Na modalidade ranqueada, conhecida como solo queue, onde os jogadores buscam partidas individualmente ou em duplas, o foco tende a ser o aperfeiçoamento de habilidades individuais. Night Wing explica que a repetição serve para automatizar hábitos positivos, permitindo que certas decisões sejam tomadas com menor dispêndio mental.
Em contraste, nas scrims, a comunicação assume um papel central. O propósito é garantir que cinco jogadores, cada um com funções e responsabilidades distintas, consigam tomar decisões coordenadas durante a partida. Uma das maiores divergências entre scrims e campeonatos reside na interpretação do resultado. Durante os treinos, a vitória não precisa ser o foco primordial.
Night Wing afirma que “Vencer é muito mais consequência que objetivo, tanto de scrim quanto de campeonato”. Ele acrescenta que as equipes podem usar esses jogos para testar combinações de campeões, aprimorar a execução de objetivos ou aprender a reagir tanto em momentos de vantagem quanto de desvantagem.
Em certos contextos, o treinamento pode focar apenas em uma fase específica do jogo. Night Wing menciona as chamadas turbo scrims, usadas em competições latino-americanas, onde os jogos podem durar cerca de 15 minutos para trabalhar especificamente o early game, ou seja, os momentos iniciais da partida. Esse tipo de exercício possibilita a repetição de situações cruciais sem a necessidade de disputar um jogo completo.
O treinador também ressalta que perder diversas scrims não implica, necessariamente, que a preparação tenha sido um fracasso. Ao ser questionado sobre a possibilidade de uma equipe perder todos os treinos da semana e ainda assim estar mais preparada para uma partida oficial, ele respondeu afirmativamente. Ele argumenta que o aprendizado ocorre quando os jogadores passam a entender melhor as ramificações de suas escolhas. Por exemplo, um jogador que insiste em uma incursão arriscada durante os treinos pode aprender a reconhecer quando tal opção não é apropriada, o que pode influenciar sua decisão em uma partida oficial.
Night Wing relatou experiências de semanas de treino difíceis seguidas por recuperações em competições, inclusive situações em que sua própria equipe conseguiu reverter uma desvantagem em uma série. Para ele, a qualidade do ambiente e a capacidade de absorver conhecimento são mais relevantes do que o placar isolado das scrims.
Após o término de uma scrim, o trabalho da comissão técnica prossegue. Uma ferramenta essencial nesse processo é o VOD review, que consiste na análise de gravações das partidas. O intuito é identificar as decisões que impactaram o resultado, compreender tanto os erros individuais quanto os coletivos e descobrir caminhos para a melhoria do desempenho.
Night Wing prefere manter comentários breves entre as partidas, reservando discussões mais profundas para o final do bloco de treino, permitindo assim que a equipe faça ajustes sem perder o ritmo. O treinador salienta a importância de investigar as raízes dos problemas, em vez de apenas observar suas consequências. Um jogador com dificuldade em acumular recursos na fase de rotas, por exemplo, pode estar sendo excessivamente passivo ou realizando jogadas agressivas no momento inadequado.
Embora as estatísticas auxiliem na identificação do problema, elas nem sempre revelam sua origem. Por isso, a análise das gravações e a escuta ativa dos jogadores são etapas complementares. Night Wing enfatiza: “Ouvir o jogador sempre traz respostas para as perguntas que o treinador tem”.
Em League of Legends, cinco jogadores precisam trocar informações e decidir em questão de segundos. Assim, uma comunicação eficaz pode ser tão vital quanto a habilidade individual. Night Wing alerta para uma interpretação incorreta do shotcalling, termo usado para descrever a transmissão de decisões estratégicas durante o jogo. Segundo ele, concentrar toda a responsabilidade em um único jogador pode gerar sobrecarga. O ideal é que todos os cinco membros participem da comunicação de modo constante, claro e objetivo.
Para detectar falhas, o treinador aconselha gravar não só as partidas, mas também a comunicação da equipe. Isso possibilita revisar instantes em que uma decisão equivocada ocorreu devido à carência de informação, excesso de fala ou interpretações divergentes da mesma situação. Este trabalho também fortalece a confiança mútua entre os atletas.
O desempenho obtido nas scrims nem sempre se replica nas partidas oficiais. Uma das razões citadas por Night Wing é a pressão inerente à competição. Nos treinos, os jogadores tendem a se sentir mais à vontade para experimentar táticas e correr riscos. Contudo, em campeonatos, a responsabilidade pelo resultado pode alterar o comportamento da equipe. Ele observa: “Existem muitos times que jogam travados no campeonato, sentindo a pressão de performar”.
O inverso também pode ocorrer. Uma equipe que passou por uma semana de treino ruim pode entrar em uma partida oficial com expectativas menores e apresentar um desempenho superior ao previsto. Para Night Wing, a reação de cada atleta à pressão é particular, e o suporte psicológico pode auxiliar nesse processo.
Outro aspecto relevante é saber quando o excesso de treino começa a prejudicar o rendimento. O treinador explica que a diminuição da concentração e alterações na comunicação podem sinalizar fadiga ou frustração. Nesses cenários, forçar mais partidas pode tornar o treino improdutivo. Por isso, ele defende pausas e atividades fora do jogo. Ele afirma: “Conciliar o IRL e o online é essencial para se tornar um bom atleta”, referindo-se à vida real.
A realidade das equipes de base difere daquelas encontradas nas grandes organizações profissionais. Muitos times carecem de analistas, psicólogos ou comissões técnicas completas, e em alguns casos, o próprio treinador está iniciando sua trajetória. Para Night Wing, esta conjuntura impõe um desafio extra, visto que profissionais em formação precisam guiar jogadores que também estão aprendendo os fundamentos do competitivo. Ele aponta que o trabalho pode ser árduo e mal remunerado, quando há pagamento.
Ainda assim, algumas práticas podem otimizar a produtividade dos treinos. O treinador sugere estabelecer momentos de foco durante as scrims, promover reuniões e criar um ambiente onde os jogadores se sintam seguros para aprender. Também considera valioso que equipes compostas por jogadores de diferentes níveis de experiência assistam a jogos juntos. Essa análise coletiva ajuda a uniformizar a compreensão do jogo entre os atletas, facilitando a criação de estratégias compartilhadas.
Para aqueles que desejam iniciar um treinamento mais profissional, Night Wing oferece três orientações. O treinador enfatiza que os jogadores não precisam ser amigos, mas devem manter o respeito mútuo como colegas de equipe. Competições como o CELOL Série A, promovida pela Liga GG, fornecem um palco para que equipes de base apliquem o que desenvolveram nos treinos. No entanto, o resultado de um campeonato representa apenas uma fração do processo.
Antes de cada confronto, há decisões minuciosamente analisadas, estratégias testadas, erros corrigidos e conversas que raramente chegam ao conhecimento do público. As scrims integram esse trabalho, pois permitem que os jogadores vivenciem situações competitivas e aprendam com elas antes de encararem a pressão de uma partida oficial. Conforme explica Night Wing, o objetivo do treinamento transcende a mera acumulação de vitórias; trata-se de desenvolver a aptidão para reconhecer situações e tomar decisões superiores. Em última análise, uma boa scrim não é definida pela vitória, mas sim por deixar a equipe mais preparada para o próximo desafio.
