Cristina Petroni justificou o atraso em suas respostas dizendo que tendem a adiar tarefas e se perder no tempo. Essa reflexão filosófica permeia o trabalho de Cristina Petroni, associada ao Sítio Sete Estrelas, e Vera Silva, do Sítio Machado, bem como o processo criativo desenvolvido em parceria com a artista Ana Lira.
No contexto do fazer agroecológico, Cristina enfatiza a importância de respeitar o ritmo natural, afirmando que "nada é forçado" e que "os ciclos dos cultivos são completos, uniformes". Essa observação transcende culturas específicas como maxixe, jerimum e alface.
Inicialmente, Vera e Cristina não compreenderam imediatamente a proposta de trabalho trazida por Ana Lira, e esse período de adaptação reforçou a recusa em apressar o processo. O objetivo percebido não era criar uma obra sobre as famílias agricultoras agroecológicas, mas sim oferecer "mais uma oportunidade para que o povo da cidade conheça o trabalho das famílias agricultoras agroecológicas".
Uma obra feita com elas
Existe um risco recorrente em projetos dessa natureza: o artista externo colhe apenas o que lhe interessa, representa e se retira, relegando os participantes a meros cenários. Vera e Cristina previram e evitaram esse perigo, demonstrando desconfiança em relação ao termo "representação".
Ao serem questionadas sobre o que tornaria a obra honesta, Vera Silva declarou que ela deveria expor "a verdade do nosso dia a dia", englobando o zelo pela terra, a cultura alimentar e o esforço de homens e mulheres rurais, além de "a luta política por uma vida digna no campo". Cristina Petroni foi ainda mais enfática, exigindo que fique claro que "o alimento de verdade, limpo, sem exploração, é acessível para todos", considerando o restante como mero adorno.
O que distingue esta colaboração é que Ana Lira não está introduzindo um coletivo inexistente; ela está encontrando um grupo que já possui um coletivo estabelecido. A agroecologia praticada pelas duas coautoras constitui, antes de qualquer produção artística, um método compartilhado de tomada de decisões. Vera afirma que "as decisões são coletivas" e que "o consenso é sempre buscado, nunca sendo unilaterais".
Cristina detalha esse funcionamento interno: nas áreas de cultivo, "todo trabalho é definido por todos os membros da família, sem exceção"; e nas feiras, "ouvindo todo o coletivo, prevalecendo a maioria". Quem já compartilha a definição sobre o que plantar, quando colher e como comercializar não necessita aprender a dividir a autoria de uma obra; esse conhecimento já existe. O verdadeiro desafio reside na arte, que deve corresponder a uma organização que a precede.
Vera resume essa dinâmica ao afirmar que "a política é partilhada", enfatizando que o processo é de construção conjunta, e não de decisão singular. Essa ideia reflete a própria essência da agroecologia. A força do trabalho de Ana Lira pode residir em não separar esses dois aspectos, permitindo que o método da terra influencie o método da obra.
A questão final que toda obra deve abordar é o propósito. Cristina define esse objetivo com precisão: o lançamento ocorrerá na Fliporto, próximo ao Espaço Agroecológico de Setúbal. Seu desejo não é que o público apenas admire a peça, mas que ele seja levado a visitar a feira. Ela espera que as pessoas compareçam, dialoguem com os agricultores e agricultoras, e compreendam "um pouco do processo de quem planta o seu alimento".
Para Cristina, a obra só será considerada honesta se provocar uma ação: se alguém, após vê-la, caminhar os poucos metros que separam a arte da barraca onde o alimento genuíno, livre de exploração e acessível, está à venda. Assim, nada será forçado, cumprindo o princípio de "respeitar, no fim, o tempo das coisas".
