O artista cabo-verdiano Amadeu Carvalho exibe pela primeira vez em Paris, França, uma exposição individual na feira internacional AKAA. Esta exposição aborda temas de identidade, memória e experiência da diáspora, reunindo obras da sua série «Retratos da Ausência».
A exposição, intitulada «Fragmentos de Identidade — Circulações Lusófonas, Geografias Sensíveis», foi apresentada pelo artista conhecido como «trabalhador de rostos». Ele considera esta oportunidade extremamente importante para a apresentação focada de suas obras e busca por um novo público, explicando que suas peças são retratos que exploram a memória, a identidade e a presença.
A curadoria da exposição é realizada pela cabo-verdiana Emily Silva, fundadora da plataforma curatorial Casa Vicência em Paris. A mostra se destaca pelo uso de materiais orgânicos e texturas nas telas. O artista mencionou que utiliza pigmentos do vulcão da ilha Fogo, pois é de lá que vêm seus ancestrais, guardando memórias familiares que ele desconhece.
Além da ilha Fogo, Carvalho incluiu em suas telas materiais vulcânicos coletados nas ilhas Santiago e São Vicente, ligando assim a geologia do arquipélago ao processo criativo, segundo um comunicado enviado à Lusa. Vivendo em Londres, Reino Unido, Amadeu Carvalho acredita que para ver uma ilha, é preciso estar fora dela, sublinhando que a arte o ajudou a «curar muitas feridas e traumas».
Ele acrescentou que esses pigmentos ajudam a estabelecer uma conexão entre o território, o corpo e aquilo que resta entre as pessoas, e seu trabalho toca na experiência da emigração. Segundo ele, a emigração não só causa saudade dos entes queridos, mas também cura.
Para Amadeu Carvalho, a experiência acumulada em residências artísticas na África, América e Europa nutre sua prática e dinâmica criativa. Ele afirmou que os cabo-verdianos são um povo que nasce em movimento, e como artista, ele também deve estar em constante movimento.
Apesar da inspiração pelas raízes cabo-verdianas, Amadeu Carvalho recusa rótulos limitantes no mercado de arte internacional. Ele insiste em ser chamado simplesmente de artista, e não apenas africano, pois tais rótulos podem colocá-lo em caixas que ele não gosta, visto que a arte é muito mais ampla que isso.
O artista também enfatizou que suas obras são criadas para estabelecer uma conexão íntima com o público através de detalhes visuais. Ele concluiu que, olhando de longe, vê-se a pintura, mas ao se aproximar, é possível observar as texturas e camadas que refletem as dificuldades cotidianas, e às vezes é preciso remover camadas para compreender a camada do outro.
Amadeu Carvalho, natural de São Vicente, foi destacado em 2024 no Powerlist100 da publicação Bantumen. Seu histórico inclui visitas ao FNB Art Joburg (África do Sul) e uma residência artística no Pacific Northwest College of Art, nos Estados Unidos.
