Os humanos criaram máquinas para simplificar a vida e depois começaram a desenvolver dispositivos capazes de responder a perguntas, ajudar no trabalho e oferecer apoio em momentos de solidão. Imagine uma máquina que compreende seu comportamento melhor do que você mesmo, que lê os sentimentos dos seus entes queridos e está pronta para fazer tudo o que você esperaria de um ser humano amado, por medo de perdê-lo. Ela permanecerá apenas uma máquina? O romance 'Clare e o Sol', de Kazuo Ishiguro, explora exatamente essa questão, mergulhando o leitor em um mundo onde amigos artificiais (AF) são adquiridos por crianças que lutam contra a solidão. No entanto, esta narrativa vai além da história de um robô e uma menina; ela analisa sentimentos, relacionamentos, aspirações humanas e a complexa questão da essência da existência humana.
A história começa na vitrine de uma loja, onde Clare observa atentamente o mundo exterior. Seu olhar se volta para tudo: pedestres, a luz em mudança, a atividade circundante e, acima de tudo, para o sol. Clare é um amigo artificial criado para interagir com crianças. Seu mundo é limitado; ela estuda as coisas de perto e tenta encontrar conexões entre elas, mas nem sempre consegue entender as razões ocultas dos acontecimentos. É essa percepção limitada que a torna interessante. Ela está presente no mundo humano, mas não tem a experiência de vê-lo e entendê-lo como os humanos.
Ishiguro apresentou a história humana não pelos olhos de um humano, mas através da lente de uma máquina. Ao observar o mundo através dos olhos de Clare, começamos a examinar mais de perto o comportamento e as emoções das pessoas, que muitas vezes são ignoradas como algo dado. O livro não possui um enredo envolvente sobre uma grande revolução tecnológica ou o brilho do futuro. O mundo parece mundano à primeira vista, mas à medida que Clare se aproxima das pessoas, ansiedades e contradições ocultas em seus relacionamentos começam a surgir.
A vida de Clare muda quando uma garota de catorze anos chamada Josie a escolhe. A mãe de Josie, Crisi, compra Clare e a traz para casa. Agora, a tarefa de Clare não é observar o mundo pela janela da loja, mas sim fazer parte da vida de Josie. Ela precisa entender os hábitos, preferências e sentimentos de Josie, apoiá-la e diminuir seu sentimento de solidão. No entanto, a vida de Josie não é tão simples quanto parece por fora. Ela está gravemente doente, e há uma tensão no comportamento de sua família que gradualmente se revela.
O amigo de Josie, Rick, também desempenha um papel importante na trama. Eles são próximos, mas suas posições sociais são diferentes. A presença de Rick faz com que o livro se concentre também no sistema onde, inicialmente, existe desigualdade nas oportunidades e no futuro das crianças. Através do relacionamento entre Josie e Rick, Clare começa gradualmente a compreender um mundo onde o amor se entrelaça com o medo, a proximidade com a incerteza e a esperança com a ansiedade pelo futuro.
Para Clare, o apoio a Josie se transforma com o tempo em algo mais do que apenas um dever. A vida de Josie torna-se o centro de seu próprio mundo. Ela busca entender a doença de Josie e encontrar uma maneira de ajudá-la. Apesar da ausência de experiência ou compreensão humana, ela continua tentando fazer algo por Josie. Aqui surge a pergunta para o leitor: o comportamento de Clare é resultado de seu programação, ou ele contém o potencial para sentimentos como o amor?
O sol também ocupa um lugar especial no mundo de Clare. A palavra 'The Sun' no título do livro não é apenas uma fonte de luz ou energia para ela. Clare depende da energia solar e vê o sol como uma força confiável. Ela tem a convicção de que o sol pode ouvir seus pedidos e ajudar Josie. À medida que a ansiedade de Clare pela doença de Josie cresce, sua confiança no sol se liga à esperança de salvar Josie.
Quão real é essa fé de Clare e quais são seus limites? Este é um dos aspectos mais intrigantes do livro. Seu pensamento não pode ser totalmente explicado pela lógica humana, mas o desejo de fazer algo por Josie, por trás de sua fé, é evidente. Daí, a história começa a explorar a diferença entre amor e medo da perda. Crisi, a mãe de Josie, também ama sua filha, mas sua preocupação inclui o medo de perdê-la. Dentro desse medo, surge um plano. Este plano apresenta ao leitor uma das questões mais desconfortáveis: é possível recriar um ser humano com base em seu comportamento, hábitos e relacionamentos com os outros?
Tanto Clare quanto Crisi têm afeição por Josie, mas seus caminhos divergem. Por um lado, há a devoção de Clare, e por outro, a tentativa de Crisi, onde o desejo de salvar a filha colide com questões de sua identidade. Ishiguro não classifica nenhum personagem como unicamente certo ou errado. Ele coloca diante do leitor uma situação onde é difícil separar amor, medo e ambição. Até onde pode ir o desejo de salvar alguém? É suficiente substituir a presença de alguém por outro ser para manter seu lugar?
