O bem-estar deve contribuir para a melhoria do estado de espírito, mas com o tempo transformou-se em mais um aspecto que pode ser estragado. Surge uma sensação constante de necessidade de seguir novas rotinas, formar hábitos ou experimentar diferentes métodos de tratamento. As pessoas tendem a comparar seu sono, dieta, exercícios físicos e rotinas matinais com os dos outros, perguntando-se por que não conseguem fazer tudo perfeitamente.
Monique Pereira, com mais de vinte anos de experiência na indústria de bem-estar, acredita que o bem-estar se tornou excessivamente complicado. Na sua opinião, o ponto de partida é permitir-se descansar, algo que muitos não têm.
Pereira enfatiza: «Precisamos parar de ver o descanso como algo que precisa ser merecido». Ela observa que muitas pessoas sentem a obrigação de terminar todos os afazeres, cuidar de todos ao seu redor e atingir um certo nível de produtividade antes de se permitirem uma pausa, sempre havendo algo que requer atenção.
Cuidar de si mesmo não deve parecer uma pressão
Pereira também considera a comparação uma armadilha. Embora o programa de bem-estar de alguém possa parecer atraente, isso não significa necessariamente que seja adequado para você. Ela adverte: «A rotina de alguém pode parecer ótima, mas pode ter muito pouco a ver com o que você realmente precisa».
Esta é uma distinção importante na era em que o autocuidado é frequentemente apresentado como um conjunto de elementos adicionais que devem ser incluídos na vida. Em vez disso, Pereira sugere fazer-se perguntas: «O que drena minha energia, o que me ajuda a recuperá-la e o que posso mudar para me apoiar e obter um resultado diferente?» Às vezes, a resposta é surpreendentemente simples: pode significar dizer «não» com mais frequência, ser menos acessível, estabelecer limites mais saudáveis ou aceitar que foi feito o suficiente no dia.
Apesar de seu trabalho na área de bem-estar, Pereira admite que ela mesma ainda não dominou todos esses princípios. Ela diz: «Eu digo isso como alguém que ainda está aprendendo». Ela acrescenta que trabalhar na área de bem-estar não torna uma pessoa imune a sobrecargas excessivas.
Não existe uma abordagem universal para o bem-estar
A compreensão de Pereira sobre saúde mudou significativamente desde que ela se interessou pela cosmetologia na adolescência. Inicialmente, ela via o bem-estar principalmente através da lente da cosmetologia, procedimentos e resultados visíveis. Mais tarde, sua carreira a levou a várias áreas, incluindo trabalho em navios de cruzeiro internacionais e gestão de seu próprio negócio.
Essas experiências a apresentaram a diferentes culturas, personalidades e expectativas, ensinando-a a ouvir antes de tirar conclusões. Ela observa: «As pessoas podem se expressar de maneiras muito diferentes, mas o desejo de sentir respeito, compreensão, atenção e cuidado é algo que compartilhamos».
Hoje, Pereira ocupa o cargo de gerente de spa no Steenberg Spa, onde suas responsabilidades incluem tanto a interação com os hóspedes quanto a liderança da equipe. Anos de trabalho neste setor reforçaram sua convicção de que o que restaura uma pessoa pode não funcionar para outra. Ela conclui: «Cada hóspede é individual. O que restaura uma pessoa pode não restaurar outra».
Às vezes, as pessoas só precisam ser ouvidas
Há outro componente do bem-estar que não pode ser facilmente comprado ou incluído na rotina matinal — a conexão com outras pessoas. Ao longo dos anos de trabalho, Pereira observou as pessoas se abrirem quando lhes era dado tempo e espaço livres das exigências diárias.
Ela afirma: «Você constrói relacionamentos que vão muito além dos procedimentos. Os hóspedes compartilham suas histórias, e com o tempo, você percebe a importância de simplesmente criar um espaço onde as pessoas se sintam cuidadas».
É por isso que ela acredita que devemos ter cuidado com a ideia de que o bem-estar pode ser alcançado apenas comprando. Ela acrescenta: «Os procedimentos podem desempenhar um papel valioso, mas os hábitos diários e as exigências que fazemos a nós mesmos também são importantes».
Para Pereira, o bem-estar está cada vez mais ligado à consideração da pessoa como um todo, e não à tentativa de corrigir apenas um aspecto de sua vida.
Como é o bem-estar na vida real?
Fora do trabalho, Pereira admite que desligar nem sempre é natural. Ela é ambiciosa, cuida profundamente de sua carreira e, como muitas mães que trabalham, frequentemente sente que está sendo puxada em direções diferentes. Em vez de perseguir a ideia de equilíbrio perfeito, ela aprende a buscar harmonia.
Quando a vida se torna muito pesada, seu método pessoal de recarga pode ser simples: dormir cedo, adiar o trabalho, manter um diário, meditar ou caminhar nas montanhas. Ela também gosta de compartilhar algumas dessas práticas com sua filha.
Ela reconhece: «Eu entendo que a maneira como eu gerencio minhas emoções afeta a maneira como ela aprende a gerenciar as dela». Essa percepção a tornou mais atenta ao exemplo que dá. Ela deseja que sua filha veja uma mulher que trabalha arduamente e valoriza seu trabalho, mas que também cuida de seu próprio bem-estar. Ela quer que sua filha saiba que é possível ser ambiciosa, cuidar dos outros e, ao mesmo tempo, encontrar tempo para si mesma.
Talvez seja aqui que a conversa sobre bem-estar deva retornar. Não a mais uma lista de tarefas a serem cumpridas, mas a uma pergunta mais honesta sobre o que realmente precisamos. Às vezes, pode ser uma caminhada, meditação ou tempo na natureza. Às vezes, pode ser interação. E às vezes, pode ser apenas ir dormir cedo e aceitar que amanhã é um novo dia. O bem-estar não deve se tornar mais uma medida da nossa produtividade; pode ser tão simples quanto saber ouvir a si mesmo.
