A equipe de projeto descreveu a Casa Iriarte / SOCO, localizada no centro histórico de Las Palmas de Gran Canaria, como um exemplo de como transformar as restrições impostas por um terreno estreito em uma oportunidade de inovação espacial. Um pátio centralizado foi implementado para garantir iluminação e circulação de ar no interior, além de organizar os ambientes ao redor, rompendo com as divisões tradicionais de cômodos para criar um espaço aberto onde convivência e lazer se complementam.
A estreiteza do lote serviu como ponto de partida fundamental para o desenvolvimento do projeto, ditando aspectos como a implantação, a ventilação e o uso diário da residência.
A construção adota uma hierarquia clara de durabilidade. A estrutura principal, composta por concreto armado e blocos aparentes utilizando o picón — um agregado vulcânico local ligado às tradições construtivas das Canárias —, possui uma vida útil projetada para exceder 80 a 100 anos.
O interior da casa é organizado em uma sucessão de cômodos amplos e interligados. Embora se inspire na lógica da enfilade, estes espaços evitam hierarquias funcionais rígidas, permitindo que as dinâmicas da vida doméstica sejam adaptadas por meio de mobiliário móvel e usos flexíveis. Assim, o lar se configura como um local cujo uso é constantemente negociado pelos moradores, estando aberto à modificação e a apropriação.
Essa maleabilidade funcional possibilita que o edifício funcione tanto como moradia quanto como estúdio, com os dois usos coexistindo e ocupando o espaço conforme as necessidades mudam. Os cômodos e suas conexões permitem que qualquer função se expanda, reduza ou ceda lugar a outra atividade ao longo do tempo, preservando a lógica espacial inerente ao projeto.
Em contraste, divisórias internas, marcenaria e elementos leves possuem uma expectativa de vida útil menor, estimada entre 25 e 40 anos, facilitando sua substituição ou adaptação. As fachadas, por sua vez, são concebidas como camadas técnicas modulares e desmontáveis, com uma longevidade prevista de cerca de 30 a 50 anos, o que permite sua renovação sem comprometer a estrutura de suporte de carga.
Dessa forma, a sustentabilidade do projeto é tratada primariamente pela dimensão temporal: planejar a diferença entre aquilo que deve perdurar e aquilo que pode ser alterado. A casa é vista como uma infraestrutura doméstica capaz de receber novas tecnologias, modos de vida e usos ao longo de sua existência.
Considerando o contexto das Ilhas Canárias, onde a escassez de recursos locais exige a importação de muitos materiais de construção, as decisões construtivas impactam diretamente o custo, o prazo de execução e a viabilidade do empreendimento. Optar por utilizar o que está disponível, apoiar-se em métodos estabelecidos e na força de trabalho local, e evitar soluções desnecessárias, constituem formas de resistência ao excesso. A arquitetura, sendo necessária, direta e profundamente enraizada em seu ambiente, emprega somente o essencial, e seu caráter surge justamente desse limite: uma ética da suficiência.

