Estudo da USP aponta que três doses de vacina reduzem 97% dos casos graves de COVID-19 em crianças
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Estudo da USP aponta que três doses de vacina reduzem 97% dos casos graves de COVID-19 em crianças

Cientistas da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP divulgaram um artigo detalhando a eficácia das vacinas pediátricas contra a COVID-19. Os achados indicam que a aplicação de três doses da vacina Pfizer/BioNtech em crianças com idade entre 6 meses e 4 anos está ligada a uma diminuição de 97% nas taxas de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) relacionada ao sars-cov-2.

O estudo observou que um número menor de doses não proporcionou benefícios consistentes, visto que os efeitos são alterados de maneira notável pela faixa etária. Essa pesquisa sublinha a relevância de manter a vacinação nesse grupo populacional para prevenir quadros graves da enfermidade.

JORNAL DA USP

As análises foram conduzidas abrangendo 24 municípios brasileiros que apresentaram o maior volume de casos e internações por COVID-19, no período compreendido entre julho de 2022 e dezembro de 2024. A coorte estudada englobou 2.093.745 indivíduos de 6 meses a 4 anos, representando 18% de toda a população pediátrica brasileira, conforme dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Este representa o primeiro estudo a investigar a efetividade da vacina contra a COVID-19 especificamente em crianças. Embora pesquisas anteriores tenham confirmado a segurança e a eficácia desses imunizantes, as provas disponíveis para crianças menores de cinco anos eram escassas, especialmente no contexto da variante Ômicron.

No Brasil, apesar da primeira dose do imunizante ter sido administrada em janeiro de 2021, a vacinação infantil só teve início em 2022, pois essas crianças não eram classificadas como grupo de risco. Contudo, com o aumento da imunidade populacional, os casos graves e óbitos passaram a se concentrar desproporcionalmente em populações vulneráveis ou com esquemas de vacinação incompletos, elevando a vulnerabilidade dos menores de cinco anos.

Isaac Negretto Schrarstzhaupt, cientista de dados e pesquisador da FSP e primeiro autor do artigo, afirmou que o estudo fornece informações cruciais sobre a funcionalidade das vacinas e a necessidade de uma alta cobertura vacinal para reduzir casos graves, sobretudo neste momento de polarização.

Inicialmente, o Programa Nacional de Imunização (PNI) do Ministério da Saúde sugeriu a vacina CoronaVac para crianças a partir dos 3 anos, sendo posteriormente adotada a vacina Pfizer-BioNTech para o grupo de 6 meses a 4 anos. Atualmente, as vacinas da Pfizer/BioNtech e Moderna contra o sars-cov-2 fazem parte do calendário do PNI.

Para a realização da investigação, os autores utilizaram dados de internação obtidos no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Influenza (Sivep-Gripe), que é o registro obrigatório de casos de SRAG hospitalizados por qualquer motivo. Adicionalmente, analisaram os registros oficiais da campanha de vacinação contra a COVID-19 da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), o repositório nacional obrigatório para todos os registros de vacinação no Brasil, incluindo a COVID-19. Os dados do Censo de 2022 serviram para estimar o total de crianças de 6 meses a 4 anos residentes nos municípios sob análise.

Os cientistas segmentaram as análises em dois grandes grupos. No primeiro, compararam crianças vacinadas com Pfizer/BioNtech contra grupos de crianças não vacinadas. No segundo, compararam crianças vacinadas com CoronaVac contra aquelas não vacinadas.

A coorte totalizou 37.687.410 crianças-mês monitoradas. Durante este período, registraram-se 1.384 internações por SRAG atribuídas à COVID-19, o que corresponde a uma incidência geral de 3,67 casos por 100 mil meses-pessoa, incluindo 27 óbitos relacionados.

Os dados confirmam que o esquema completo de três doses da vacina Pfizer/BioNtech gerou uma redução acentuada na taxa de SRAG em crianças de 6 meses a 4 anos. Entretanto, um esquema com menos doses não demonstrou benefícios consistentes, e os efeitos foram significativamente influenciados pela idade.

Dentro do mesmo grupo, a categoria de não vacinados representou a maior parte do tempo de acompanhamento (28 milhões de pessoas-mês), respondendo por 85% das internações (1.175) e 23 dos 27 óbitos. Não houve registros de óbitos em crianças que concluíram o esquema primário (três doses). Dos quatro óbitos ocorridos entre crianças vacinadas, dois pertenciam ao grupo de uma dose e dois ao grupo de duas doses da vacina Pfizer/BioNTech.

Em relação à CoronaVac (Sinovac), o esquema de duas doses em pacientes de 3 a 4 anos não mostrou redução significativa de SRAG. Embora 92% das crianças que finalizaram a série primária tivessem 4 anos, a diminuição no risco de SRAG para essa faixa etária foi pequena e não atingiu significância estatística. Nenhum óbito foi registrado em nenhum dos grupos vacinados com esta vacina. A cobertura de uma terceira dose da vacina foi insuficiente para avaliar sua ligação com o risco de SRAG.

Fredi Diaz-Quijano, orientador do estudo, esclareceu que esses resultados não desmerecem a CoronaVac, reconhecendo sua importância inicial durante a pandemia, quando provou sua eficácia em outras faixas etárias. Ele acrescentou que, por ser uma vacina de vírus inativado, ela necessita de revisão e reavaliação contínua diante do tempo ou surgimento de novas variantes.

É relevante notar que a vacina contra a gripe é reformulada anualmente devido às mutações do vírus influenza. Cientistas globais monitoram as cepas circulantes para desenvolver vacinas alinhadas ao vírus vigente.

Um ponto fraco apontado pelos autores é a imunidade natural adquirida pela população após a ampla circulação viral. Dados do estudo Epicovid 2.0 indicam que 28% das pessoas já tiveram pelo menos uma infecção por sars-cov-2 entre março e junho de 2024. Os pesquisadores alertam que a imunidade obtida por infecção em crianças não vacinadas pode ter diminuído o contraste nas taxas de incidência e enfraquecido a efetividade estimada de certos esquemas de vacinação.

Para o primeiro autor, o estudo oferece subsídios importantes para que os responsáveis pela tomada de decisões possam criar políticas públicas focadas na COVID-19. Ele enfatiza a necessidade de vacinar as crianças e protegê-las da mesma forma que se protege idosos e gestantes, grupos onde a cobertura vacinal é consideravelmente maior.

Fredi Diaz-Quijano conclui ressaltando que a pesquisa evidencia os benefícios de uma intervenção acessível e promovida por instituições. Segundo ele, esse tipo de trabalho fortalece a confiança nas vacinas e demonstra o esforço da academia em manter informações atualizadas para que a população esteja ciente dos esforços para melhorar a saúde, especialmente a das crianças.

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