O conceito de 'fair play' é um princípio abstrato, mas amplamente aceito, tanto no esporte quanto na literatura policial. No contexto esportivo, refere-se à ideia de que os competidores devem garantir condições justas para ambos vencerem, mesmo que isso signifique abrir mão de uma vantagem imediata, como quando um adversário tira a bola para que um colega lesionado receba atendimento.
Na ficção policial, o 'fair play' implica que o leitor participe ativamente da narrativa, tentando solucionar o mistério e identificar o culpado antes do desfecho. O autor deve fornecer todos os elementos necessários para que o leitor consiga resolver o enigma por conta própria, exigindo apenas um raciocínio apurado para conectar os pontos, sem entregar a solução de forma óbvia.
O oposto desse princípio é o 'deus ex machina', situação em que o mistério é resolvido por elementos introduzidos de repente, sem terem sido mencionados ou sugeridos anteriormente na trama. Um exemplo seria um detetive anunciando a descoberta de uma gravação de câmera oculta no capítulo final, quando tal câmera jamais foi citada no livro.
Uma pesquisa realizada em 2026 pela Universidade Hebraica de Jerusalém buscou quantificar este conceito literário, investigando se as histórias geradas por Inteligência Artificial (IA) podem alcançar um nível satisfatório de 'fair play'. Os pesquisadores defendem que uma boa narrativa deve oferecer uma solução acessível a dois perfis de leitores: o 'ingênuo', que interpreta as pistas superficialmente, e o 'detetive brilhante', que faz as inferências mais precisas.
Para realizar a medição, os desenvolvedores de IA foram solicitados a criar 54 histórias de mistério. A este grupo foram adicionadas 11 obras escritas por humanos, incluindo seis histórias do detetive Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, e cinco histórias do detetive Hercule Poirot, de Agatha Christie.
As narrativas foram avaliadas de duas formas distintas. Primeiramente, os próprios modelos de linguagem simularam os dois tipos de leitores. Em segundo lugar, vinte pessoas reais leram as histórias seção por seção, tentando determinar o culpado entre quatro suspeitos. Ao término, esses participantes atribuíram notas de 1 a 5 para os critérios de surpresa, coerência, 'fair play' e prazer de leitura.
Nos testes conduzidos por seres humanos, o único critério onde as histórias criadas por IA alcançaram o mesmo nível das obras originais foi a surpresa. Nos demais três aspectos — coerência, 'fair play' e prazer de leitura — os avaliadores apontaram a superioridade das histórias escritas por Agatha Christie e Conan Doyle.
Este resultado indica que as IAs são capazes de gerar finais imprevisíveis, ou seja, com reviravoltas, mas geralmente falham em estabelecer o 'fair play' necessário para sustentar essa reviravolta. A conclusão do estudo aponta que os modelos conseguem produzir surpresa ou coerência de forma isolada, mas encontram dificuldade em combiná-las, o que é essencial para construir o 'fair play'.
Em suma, as IAs conseguem criar narrativas com desfechos chocantes, como quando o culpado é a pessoa menos suspeita. Contudo, elas frequentemente não conseguem realizar o processo inverso: assegurar que todas as pistas apresentadas ao longo da história façam sentido e permitam que um leitor atento chegue à conclusão correta sem que haja trapaça.
