Existe um fascínio inerente em projetos que, logicamente, não deveriam existir, especialmente quando envolvem a instalação de um motor totalmente estranho em um veículo não concebido para ele. Este cenário ganha maior interesse quando realizado pelas próprias montadoras. Enquanto em projetos oficiais certas ideias são inconcebíveis, o caso do BMW M5 despertou grande curiosidade devido ao motor inesperado sob seu capô.
O BMW M5 E39 é reconhecido como um belo sedã executivo transformado em esportivo legítimo, surgido no início do século XXI. Originalmente, ele era equipado com o motor S62, um V8 de 4,9 litros, que produzia 400 cv e 51 kgfm de torque, e oferecia apenas câmbio manual de seis marchas. Com essas especificações, o M5 E39 conseguia atingir 100 km/h em 4,8 segundos e ultrapassar 300 km/h com o limitador removido, destacando-se também pelo uso de componentes de alumínio na suspensão e um eixo multilink traseiro.
A ideia de substituir o V8 aspirado por um motor mais exótico, como um W10, e especificamente um W10 da Volkswagen, levou a um carro cuja existência era desconhecida até o ano passado, quando o site Drivetribe confirmou que se tratava de uma criação oficial, embora secreta, da Volkswagen.
A concepção deste projeto teve origem em Ferdinand Piëch. Na época, o patriarca do Grupo Volkswagen era conhecido por promover uma revolução corporativa, técnica e filosófica na empresa, incentivando experimentações arriscadas. Sob sua liderança, a Volkswagen iniciou o caminho para plataformas modulares. Piëch impulsionou diversas inovações, como exigir que o Volkswagen Phaeton alcançasse 300 km/h em altas temperaturas, encomendar um motor V10 turbodiesel para o Touareg, e insistir na renovação da Bugatti com um motor de dezesseis cilindros.
Neste contexto de megalomania automotiva, Piëch solicitou discretamente o desenvolvimento de um motor W10. A filosofia por trás dos motores em W da Volkswagen reside no inteligente aproveitamento de espaço. Tudo começou nos anos 1990 com o motor VR6, criado para caber em carros compactos de tração dianteira. A evolução levou à ideia de unir dois blocos VR, resultando em um motor em W. O W12, por exemplo, era mais curto que um V12 tradicional, e essa lógica gerou o W8 do Passat, os W12 do Audi A8 e Bentley Continental, e o W16 do Bugatti Veyron.
Havia uma lacuna na família de motores: o VR5, um VR6 com um cilindro a menos. Seguir a lógica modular significava que a combinação de dois blocos VR5 em um único virabrequim produziria um W10. Diferentemente de um V10 convencional, o W10 seria extremamente compacto e simétrico. Em 1999, Piëch ordenou a criação deste W10 para ser usado em um sedã de altíssimo desempenho. Uma equipe de engenharia, liderada por Sabine Willeke, construiu um motor novo em alumínio, com cerca de cinco litros de deslocamento, sem indução forçada.
O desafio era que, em 1999, o Grupo Volkswagen não possuía um veículo adequado para testar o motor W10. O projeto ocorreu fora do departamento oficial de P&D, sob ordens diretas de Piëch. Embora a Audi estivesse desenvolvendo o RS6 e a Porsche o Panamera, era necessário um carro com estrutura sólida, bom espaço no cofre, dinâmica perfeita e tração traseira. A escolha recaiu sobre o BMW M5 E39, que era considerado o padrão absoluto da categoria.
A Volkswagen adquiriu um exemplar do ano 2000, na cor «Carbon Black Metallic», com interior de couro preto. Após chegar à oficina secreta da VW, o motor S62 foi retirado. A Volkswagen investiu quase dois milhões de euros para instalar e ajustar o W10 experimental. Mantiveram a caixa de seis marchas, mas todos os periféricos foram trocados por peças sob medida, incluindo caixa de ar em fibra de carbono, sistema de arrefecimento e escape, todos feitos artesanalmente.
A eletrônica representou um grande obstáculo, pois integrar o motor de uma fabricante ao chassi de outra não era simples na década de 1990. A Volkswagen precisou desenvolver seu próprio sistema. Devido à prioridade de fazer o carro funcionar, ele perdeu todas as assistências eletrônicas modernas, como ABS, controle de tração e estabilidade. Internamente, manteve-se o requinte, como o telefone original no apoio de braço, mas o painel de instrumentos foi substituído por um painel de corrida da Stack, e o hodômetro nunca foi configurado.
Testes iniciais em dinamômetro indicaram que o projeto alcançou 480 cv nas rodas traseiras, o que equivaleria a mais de 530 cv no virabrequim, um aumento de cerca de 130 cv em relação ao motor original. A lenda popular dizia que Ferdinand Piëch usava o carro diariamente em Wolfsburg; a realidade, revelada recentemente, é que Piëch realmente conduziu o M5 com placas provisórias, participando ativamente dos testes secretos em vias públicas.
Sabine Willeke informou que apenas três motores W10 foram construídos. Um foi resgatado por um mecânico da Volkswagen na Alemanha, outro está exposto junto ao M5, e o terceiro está instalado no sedã preto. O projeto foi encerrado pela Volkswagen, que optou por manter os modelos W8, W12 e W16 em produção. O carro permaneceu escondido por mais de 15 anos na garagem de um colecionador. Posteriormente, foi adquirido por um entusiasta da Eslováquia que o conduzia regularmente. Agora, a casa de leilões Broad Arrow está oferecendo o M5 W10 no Zoute Concours, na Bélgica, em 9 de outubro, com estimativa de preço entre €250.000 e €350.000.
