A LOGINK, uma plataforma chinesa desenvolvida para unificar dados de logística e transporte, viu sua presença internacional diminuir após anos de expansão. A empresa enfrentou interrupções em parcerias, saiu de uma associação setorial e a unidade responsável em Wenzhou começou a ser alvo de ações judiciais.
Essa mudança ocorreu em um contexto de crescente pressão dos Estados Unidos contra o uso internacional da ferramenta, que autoridades americanas consideravam um potencial risco à segurança dos dados do comércio mundial.
A LOGINK foi concebida há aproximadamente duas décadas na província de Zhejiang, com o objetivo de centralizar informações de fornecedores, caminhões e portos em uma única interface. O projeto recebeu respaldo em Pequim e passou a estar sob a gestão do Ministério dos Transportes chinês.
A expansão global teve início em 2010, através de um acordo de compartilhamento de dados que envolvia China, Japão e Coreia do Sul. Posteriormente, a LOGINK firmou uma colaboração com uma plataforma de Hong Kong, que, segundo a própria companhia chinesa, ofereceria acesso a mais de 90% dos dados globais de rastreamento marítimo.
O rápido crescimento atraiu a atenção de Washington. Em 2022, legisladores americanos começaram a exercer pressão sobre a plataforma. Entre as preocupações levantadas estava a possibilidade de acesso a dados comerciais confidenciais, como valores e quantidades de mercadorias, além do temor de que os dados pudessem auxiliar no monitoramento de cargas militares transportadas por redes comerciais.
A LOGINK refutou essa avaliação. Em 2024, seu representante, Li Zhao, declarou que a plataforma carecia de «capacidade para coletar informações comerciais sensíveis ou monitorar continuamente os movimentos globais de cargas».
Os primeiros sinais visíveis de declínio surgiram em 2024. A LOGINK rompeu com a International Port Community Systems Association (IPCSA) após suspender o pagamento das taxas de adesão. A entidade confirmou a saída e notificou que o projeto internacional de compartilhamento de dados estava suspenso e inativo.
A colaboração com Japão e Coreia do Sul também perdeu ritmo. A China cancelou uma reunião agendada para março daquele ano, alegando «circunstâncias internas». Desde então, não houve novos encontros. O Japão também perdeu o acesso aos dados da LOGINK e, conforme relatado por um funcionário governamental, não conseguiu mais contatar os interlocutores chineses.
Na Europa, os arranjos seguiram um caminho similar. Um memorando assinado em 2017 com o porto de Sines, em Portugal, não gerou resultados expressivos. Já em Roterdã, na Holanda, as conversações iniciadas em 2019 permaneceram apenas na fase exploratória.
Simultaneamente, a estrutura da LOGINK localizada em Wenzhou acumulava litígios: os processos somavam cerca de US$ 1,3 milhão (equivalente a aproximadamente R$ 6,5 milhões). Quando a Reuters visitou o local em setembro de 2026, constatou que as instalações pareciam abandonadas, com luzes apagadas, recepção vazia e cabos de computador removidos.
Em junho de 2026, o Ministério dos Transportes chinês divulgou um documento defendendo a manutenção da conexão do sistema com mais fontes de dados internas. É importante notar que a matéria jornalística não estabelece que a pressão americana tenha sido a causa direta dos problemas da plataforma; o que os fatos indicam é que a retração internacional coincidiu com o aumento da oposição de Washington ao sistema.
Um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que os Estados Unidos não permitiriam que uma plataforma controlada por Pequim «ganhasse controle sobre os dados marítimos globais».
