A obra 'Aldir Blanc – Resposta ao tempo', um documentário exibido no Festival do Rio 2026, foca na transcendência de Aldir Blanc como compositor de música popular brasileira. O filme, dirigido e roteirizado por Marcus Fernando e Hugo Sukman, apresenta depoimentos do artista, que descreve a criação como algo próximo à transcendência, apesar de ser ateu.
O documentário explora a trajetória de Aldir Blanc Mendes (nascido em 2 de setembro de 1946 e falecido em 4 de maio de 2020), destacando sua excelência como letrista de melodias criadas com parceiros importantes como João Bosco, Guinga, Moacyr Luz e Cristovão Bastos.
Em seu formato convencional, o filme utiliza falas e imagens de arquivo para revelar os bastidores da vida do bardo carioca, Vasco, desde a infância. Uma cena notável mostra Aldir exibindo seu «álbum da punheta» ao neto Vinicius. Logo no começo, o poeta declara: «Não vim aqui para facilitar, não. Vim aqui para criar problema».
Antes de adentrar seu universo criativo, o roteiro detalha o histórico biográfico de Aldir Blanc. Ele era médico pós-graduado em Psiquiatria, mas abandonou a carreira e sua crença em Deus em 1974 após presenciar a morte de suas filhas gêmeas, Maria e Alexandra, em circunstâncias de grande sofrimento.
Devido à culpa sentida por ter deixado sua mãe com sequelas físicas e mentais após um parto complicado, Aldir dedicou-se inteiramente à música, começando com João Bosco, seu primeiro parceiro essencial nos anos 1970. Para Aldir, o único milagre reconhecido era a harmonia entre suas ideias e as de Bosco na composição musical.
Após traçar o caminho do compositor até a música, o documentário investiga a capacidade de Aldir Blanc de criar versos imagéticos, incomuns e inesperados, que transformaram crônicas do Brasil urbano a partir do microcosmo do artista, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ).
Aldir nasceu no Estácio e, aos três anos, mudou-se para Vila Isabel, bairro associado a Noel Rosa. Posteriormente, estabeleceu-se na Tijuca, onde passava tempo entre sua casa, local onde costumava escrever letras na cama, e os botequins, que ele considera «templo» e «tradição viva do Rio de Janeiro».
O desejo de ser compositor surgiu para ele em 1965, após assistir e ouvir Elis Regina defender «Arrastão» (de Edu Lobo e Vinicius de Moraes) em um festival da canção. A concretização dessa transcendência criativa ocorreu em 1972, ano em que a cantora gravou «Bala com bala», uma composição de Bosco e Aldir, dupla revelada naquele mesmo ano.
Aldir Blanc conta com orgulho no filme que «Bala com bala» foi a primeira de quase 30 músicas eternizadas na voz de Elis Regina. Ele reforça que seu trabalho consiste em «letrar a música que me é dada e não mexo em uma nota».
Ao longo do documentário, fica evidente o quão sagrado o compositor considerava o momento da criação, afirmando: «Naquela hora, naquele momento, ninguém pode mais do que eu». Apesar de seu temperamento por vezes sombrio, o bardo carioca parecia mais leve nos momentos compartilhados com seus netos e com sua companheira, Mari Lúcia de Sá Freire, além dos botequins.
A maior resposta de Aldir Blanc ao tempo, segundo o texto, foi sua sobrevivência à COVID em março de 2020, aos 73 anos. Os créditos finais do documentário confirmam que Aldir Blanc Mendes superou o tempo através do poder de sua criação.
