Na Fazenda Laranjo, localizada em Itapecerica, o processo de transformar produtos da terra em refeições é bastante direto. Ingredientes como mandioca, que pode ser processada em farinha e polvilho, leite de vacas que vira queijo, ovos de galinhas e hortaliças são colhidos e utilizados na propriedade. Os próprios membros da família também participam da confecção de doces e quitandas.
Este relato faz parte da oitava reportagem especial da série "Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias", que documenta as tradições, personagens e sabores que definem a identidade de Itapecerica. A série, veiculada pelo g1, destaca locais e indivíduos que preservam conhecimentos transmitidos entre gerações. Atualmente, o foco está na Fazenda Laranjo, onde a conexão com a terra resulta em alimentos, geração de renda e, fundamentalmente, memória.
Ciclo que começa no campo
Este ciclo produtivo inicia-se no campo e recentemente encontrou um novo ponto de venda no Centro de Itapecerica, especificamente no Empório Iguarias de Minas. A Fazenda Laranjo está situada a aproximadamente 22 quilômetros da área central do município. Ali residem e trabalham Imaculada Conceição Mendonça, de 69 anos, e Sebastião Leogino Mendonça, de 70 anos. Casados há meio século, eles, juntamente com seus filhos, noras e netos, mantêm uma rotina que combina atividades agrícolas, criação de animais e produção artesanal de alimentos.
A trajetória desta família reflete uma mesa farta, com produtos como queijos, doces, farinhas, bolos, biscoitos e outras iguarias elaboradas a partir dos recursos naturais da fazenda. Mais do que apenas produzir comida, esta prática serve como um método para conservar um estilo de vida tradicional.
O que nasce na fazenda
Na Fazenda Laranjo, o processo produtivo não se encerra após a colheita; muitas vezes, é nesse momento que uma nova fase se inicia. Sebastião explica que a mandioca, por exemplo, pode passar por diversas etapas até chegar à mesa, sendo transformada na fazenda em farinha e polvilho. Além disso, o leite das vacas é transformado em queijo, e os ovos caipiras são incorporados a receitas como pão de queijo, broas ou roscas.
Um dos produtos mais emblemáticos da propriedade é o pão de queijo, feito com ingredientes cultivados na própria fazenda e assado em forno de barro. Sua receita combina polvilho derivado da mandioca cultivada localmente, ovos caipiras, queijo feito com leite de vaca e manteiga de porco. O g1 já havia apresentado este preparo artesanal em reportagem anterior. Este pão de queijo simboliza o funcionamento familiar, mostrando como o que provém da terra passa pelas mãos dos moradores e chega ao consumidor carregando a história do local.
Imaculada complementa, dizendo que "a gente vai fazendo tudo junto, mas sem muita regra. tem semana que a gente fica todos os dias fazendo a farinha, depois os queijos e as outras coisas que a gente produz. A gente faz tudo com muito amor, com muito gosto".
Uma família inteira na produção
Imaculada e Sebastião não realizam este trabalho isoladamente. A rotina da fazenda inclui os filhos Kênio, Cleiton, Lidiane e Leandro, além das noras e dos onze netos, todos participando de diferentes formas na produção e nos projetos derivados dela.
Lidiane Mendonça, que possui formação em nutrição, desenvolveu uma estratégia para ampliar o alcance dos produtos. Ela administra o empório Iguarias de Minas no Centro de Itapecerica, onde são vendidos itens da Fazenda Laranjo e de outras propriedades rurais. Segundo ela, "a ideia do empório nasceu justamente para aproximar a cidade daquilo que é produzido na roça. É uma forma de valorizar o trabalho no campo, mostrar a qualidade do que é feito por lá e fazer com que esses sabores cheguem cada vez mais longe". Para os clientes do empório, cada artigo vendido carrega um pedaço da rotina familiar.
A roça que virou oportunidade
O empório também representa uma nova via de oportunidades para a agricultura rural. O que antes era cultivado primariamente para o consumo interno da família agora possui um canal comercial expandido. A produção da fazenda alcança mais pessoas sem que a família precise renunciar ao seu método artesanal de fabricação.
Este desenvolvimento dialoga com uma mudança mais ampla observada em Itapecerica. Um estudo sobre Identidade Gastronômica, conduzido pelo Sebrae Minas em colaboração com a Prefeitura e o Sicoob Crediverde, reconheceu o potencial da culinária rural como patrimônio cultural e fonte de renda, valorizando saberes, receitas e ingredientes tradicionais.
Na Fazenda Laranjo, essa transição ocorre de forma tangível: a mandioca segue sendo plantada, o leite é ordenhado, as galinhas permanecem soltas no terreiro, a horta fornece vegetais, os doces são preparados e as quitandas saem do forno. Contudo, agora tudo isso pode ultrapassar os limites da propriedade e chegar à cidade. Há também um aspecto de continuidade, pois o conhecimento acumulado por Imaculada e Sebastião não se restringe a eles, manifestando-se nas receitas, na técnica de preparo, no zelo pelos insumos e na participação dos descendentes.
Essa transmissão ocorre naturalmente, sem grandes formalidades: enquanto um trabalha no campo, outro auxilia na cozinha; enquanto uma receita é executada, uma nova geração aprende. Assim, a Fazenda Laranjo estabeleceu uma identidade que transcende a mera atividade agrícola. Talvez o aspecto mais belo dessa narrativa seja observar que o alimento que chega ao empório mantém sua origem, carregando o aroma da terra, o esforço da família e a memória de uma cozinha onde quase tudo se inicia muito antes de atingir o prato.
