A ciência oferece atualmente cuidados de suporte para a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), visto que não existe terapia capaz de deter ou reverter a condição. No entanto, pela primeira vez na história da doença, estão sendo testados candidatos a medicamentos que agem diretamente no seu mecanismo.
O Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está envolvido em uma dessas pesquisas, que ainda se encontra na fase pré-clínica. É importante ressaltar que nenhum chá, cápsula, extrato ou suplemento vegetal possui capacidade de tratar a DCJ.
A DCJ é provocada por príons, que são formas anormais de uma proteína produzida pelo próprio organismo, e não por vírus ou bactérias. Quando essa proteína sofre alteração estrutural, ela induz outras proteínas normais a mudarem de forma em uma reação em cadeia, levando ao acúmulo das formas anormais e ao comprometimento cerebral.
Esta doença é considerada rara, afetando cerca de um a dois casos por milhão de habitantes anualmente. A maior parte dos casos é esporádica, sem uma fonte de infecção identificável, e não se transmite pelo contato diário. Isso difere da variante da DCJ ligada à epidemia de «vaca louca», onde a aquisição da doença não implica consumo de carne.
Uma abordagem investigada visa reduzir a matéria-prima necessária para a produção de novos príons. O ION717, um oligonucleotídeo antissenso, interfere na mensagem celular responsável pela produção da proteína priônica. O ensaio da Ionis contou com 56 participantes em 2024 e iniciou um novo braço em março de 2026, com resultados previstos somente em 2027.
Em abril de 2026, uma segunda estratégia, o PRiSM, entrou em testes. Este utiliza um pequeno RNA (siRNA), administrado por punção lombar, para diminuir a produção da proteína priônica. Trata-se de um estudo de fase 1, envolvendo 15 pacientes sintomáticos, conduzido pelo Broad Institute em colaboração com a UMass Chan, focado em segurança e tolerabilidade.
Adicionalmente, existe um ensaio randomizado e controlado por placebo, registrado na China, que avalia o efavirenz, um medicamento antiviral contra o HIV, que demonstrou prolongar a vida de camundongos infectados, mas ele ainda não começou o recrutamento.
Nenhum dos dois primeiros estudos está recrutando participantes no Brasil, e nenhuma dessas metodologias conseguiu, até o momento, interromper a progressão da doença em seres humanos. Medicamentos como quinacrina, doxiciclina, flupirtina e um anticorpo monoclonal, utilizado sob licença especial no Reino Unido, também foram testados sem alterar o curso da DCJ.
O que mudou no panorama científico é a natureza das moléculas testadas: agora são desenhadas para atuar no mecanismo central da doença, apresentando eficácia comprovada em modelos animais.
Outra questão levantada é o que fazer com os agregados proteicos já existentes no momento do diagnóstico, dado que a doença avança rapidamente. Por isso, a pesquisa busca moléculas que possam impedir a formação de novos agregados e, idealmente, desestabilizar aqueles que já se formaram.
Em um trabalho realizado pela UFRJ, em parceria com a Universidade Federal Fluminense e a Universidade Federal de Goiás, foi publicado um artigo em periódico internacional descrevendo o uso da Moringa oleífera, popularmente conhecida como acácia branca, como uma biblioteca natural de moléculas. A investigação não partiu da premissa de que a moringa curaria príons, mas sim se alguma substância da planta interagiria com a proteína priônica.
Foram identificados dois compostos, os ácidos clorogênico e neoclorogênico, que se ligaram à proteína e, em ensaios in vitro, reduziram a formação e desorganizaram agregados já estabelecidos. Este achado possui duas relevâncias: metodológica, pois permitiu isolar moléculas ligantes diretamente de um extrato bruto sem longos processos de fracionamento químico, e o efeito de desagregação, crucial para tratar pacientes sintomáticos.
Contudo, antes de qualquer discussão sobre tratamento, é imprescindível comprovar o efeito em células e animais, determinar a concentração que atinge o cérebro e entender o que ocorre após a desagregação de um agregado.
No Brasil, houve um avanço concreto com o exame RT-QuIC, disponível no laboratório da UFRJ, que consegue detectar a conversão da proteína priônica no líquido cefalorraquidiano, confirmando o diagnóstico enquanto o paciente ainda está vivo.
A DCJ esporádica geralmente surge entre os 60 e 70 anos e pode provocar rápida deterioração da memória e outras funções cognitivas, além de alterações comportamentais, dificuldades de marcha, movimentos involuntários e problemas visuais. Um diagnóstico preciso é vital para descartar outras patologias neurológicas tratáveis que apresentam sintomas semelhantes, orientando assim o paciente e sua família.
Embora a DCJ permaneça incurável e agressiva, e seja compreensível a busca por alternativas, a desinformação prospera nesse contexto. O trabalho com compostos da moringa representa uma pista científica, e não uma cura imediata. O cenário evoluiu de apenas entender a causa da doença para testar formas de interferir nesse processo, o que traz esperança, desde que acompanhada da exigência científica de evidências.
