Paciente do ES diagnostica Doença de Creutzfeldt-Jakob, mesma rara enfermidade de Lito Sousa
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Paciente do ES diagnostica Doença de Creutzfeldt-Jakob, mesma rara enfermidade de Lito Sousa

A Almerinda Nemeg, moradora de Cariacica, na Grande Vitória, foi diagnosticada com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Essa condição alterou drasticamente sua vida em poucos meses, com os primeiros sinais surgindo no início de 2025. Atualmente, após pouco mais de um ano e meio, ela enfrenta dificuldades severas para andar e falar.

A jornada rumo ao diagnóstico começou quando Almerinda começou a ter problemas para realizar atividades cotidianas simples. Inicialmente, a família relatou insônia e lapsos de memória. O ponto de virada ocorreu durante uma queda de motocicleta, o que levou a paciente ao Hospital São Lucas.

Amanda Neimeg, filha da paciente, descreveu o início dos sintomas: «Começou com chave, que ela esquecia demais. Para sair de casa, ela tinha que subir as escadas três vezes porque sempre esquecia alguma coisa. E começou a tratar com psiquiatra, mas não levou muito a sério. Até que teve uma queda de moto e foi para o Hospital São Lucas».

A doença é a mesma que acometeu o influenciador Lito Sousa, de 59 anos, que faleceu na quinta-feira (1º). Ele havia recebido o diagnóstico em agosto. Especialistas indicam que a DCJ é extremamente rara, grave e progride rapidamente, afetando o cérebro e causando perda de memória, tremores e problemas de locomoção.

Durante a investigação médica, a família observou mudanças comportamentais significativas. A filha recordou: «Ela tinha episódios de muita ansiedade. Achava que era adolescente, lembrava de coisas de quando era mais jovem, mas não lembrava que éramos filhas dela».

O quadro evoluiu velozmente; em maio deste ano, Almerinda já dependia de cadeira de rodas, impossibilitada de andar. Uma reavaliação neurológica levantou a suspeita da DCJ, doença que a família desconhecia. A filha afirmou que, como não há tratamento ou cura, o foco é «melhorar a qualidade de vida dela». Hoje, ela também não consegue se comunicar verbalmente.

A doença é considerada muito rara

Dados internacionais sugerem que ocorrem entre 1 e 2 casos de DCJ por milhão de habitantes anualmente. No Espírito Santo, o levantamento realizado pela Secretaria de Estado da Saúde, abrangendo o período de 2005 a 2021, contabilizou 10 casos suspeitos ou notificados, sendo cinco deles confirmados.

No âmbito nacional, foram registradas 1.576 notificações de casos suspeitos de DCJ no Brasil, com maior incidência em residentes das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Os estados que apresentaram o maior volume de casos suspeitos nesse intervalo foram São Paulo, com 32,5% (512 casos); Paraná, com 12,0% (189 casos); e Minas Gerais, com 10% (158 casos).

Conforme a secretaria, a maioria dos pacientes diagnosticados estava na faixa etária de 55 a 74 anos. Em relação ao gênero, 53,6% (845) dos casos suspeitos foram notificados em pessoas do sexo feminino, enquanto 46,3% (730) foram notificados em homens.

Os sinais da doença

A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é classificada como uma condição neurológica incomum que pode manifestar perda de memória, alterações comportamentais, dificuldade de coordenação motora e comprometimento dos movimentos.

Trata-se de uma doença priônica, o que significa que é causada pela modificação anormal de uma proteína denominada príon. Essa proteína se replica no cérebro, atacando os neurônios.

De acordo com o Ministério da Saúde, a doença é progressiva e fatal, iniciando-se com quadros clínicos de demência, desorganização cerebral, perda de memória e tremores, acompanhados por outros sinais neurológicos e multifocais. O declínio do paciente é rápido e contínuo após o aparecimento dos sintomas, sendo mais acelerado se comparado a outras formas de demência.

O neurologista Daniel Escobar explicou que a DCJ pertence ao grupo das demências rapidamente progressivas, onde o indivíduo passa de plena funcionalidade à incapacidade de realizar suas atividades habituais em um período inferior a seis meses. Diferentemente do Alzheimer, o paciente não perde apenas a memória; ele perde a capacidade de raciocínio abstrato, a habilidade de calcular e a velocidade de processamento de informações, afetando múltiplos domínios simultaneamente.

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Após receber o diagnóstico de uma doença rara e sem cura, Lito Sousa teria explicado o conceito do 'ciclo da vida' ao seu filho de sete anos. A esposa de Lito Sousa, Mila Seidl, compartilhou o relato, informando que Lito faleceu na quinta-feira (1º).

Em um vídeo postado nas redes sociais em 21 de agosto, Mila Seidl mencionou que a ideia de conversar sobre o tema partiu do próprio piloto, aproveitando um período de clareza mental que a família e os médicos desconheciam a duração. À época, ela relatou que ele contou ao filho de sete anos sobre o ciclo da vida de maneira muito tocante, iniciando a conversa com um 'senta que lá vem história'.

No momento da divulgação do vídeo, Lito estava hospitalizado no Hospital Albert Einstein, localizado na Zona Sul de São Paulo. Mila Seidl também comentou sobre o histórico de saúde dele, mencionando que Lito já havia sido diagnosticado com câncer de próstata e, posteriormente, com uma encefalite que parecia ser autoimune e afetou seu braço. Após um ciclo de tratamento no Einstein, eles voltaram para casa, mas houve pouca melhora e o quadro piorou.

A nova condição, identificada como Creutzfeldt de Jakob, exigiu que eles retornassem ao hospital. Segundo Mila, a vida deles se tornou mais difícil do que já haviam enfrentado, e entre as possibilidades surgidas, uma das menos prováveis devido à sua raridade extrema, era uma doença degenerativa.

Estudos indicam que a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma condição cerebral extremamente rara, grave e de rápida progressão, manifestando-se através de perda de memória, dificuldades de locomoção e tremores. Mila havia comentado anteriormente que o influenciador já apresentava perda de movimentos, mas ainda assim optou por retornar para casa.

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A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma condição neurológica incomum e de rápida progressão, capaz de causar perda de memória, alterações comportamentais, dificuldades de coordenação e comprometimento motor, podendo levar ao óbito em poucos meses.

As estimativas globais indicam que ocorrem entre um e dois casos por milhão de habitantes anualmente. Contudo, neurologistas no Brasil sugerem que o número registrado nacionalmente pode ser inferior à realidade, o que contribui para a discrepância observada em comparação com outros países.

Um grande desafio no manejo da DCJ é o reconhecimento precoce, visto que seus sintomas iniciais podem mimetizar outras patologias neurológicas, como encefalites ou outras formas de demência de rápida progressão. Devido à sua natureza acelerada, é crucial realizar investigações precoces para excluir outras doenças tratáveis.

O processo diagnóstico envolve uma combinação de avaliação clínica com exames como ressonância magnética, eletroencefalograma e análise do líquor, o fluido que circunda o cérebro e a medula espinhal. Um fator importante, porém, é o acesso ao teste RT-QuIC, considerado um dos mais específicos para identificar a doença, embora este exame ainda não esteja amplamente disponível no Brasil.

Por que a Doença de Creutzfeldt-Jakob é tão rara?

A DCJ figura entre as condições neurológicas mais raras mundialmente. Órgãos como o NHS, sistema público de saúde do Reino Unido, estimam a incidência em 1 a 2 casos por milhão de habitantes anualmente, o que demonstra sua baixa frequência mesmo em locais com sistemas de vigilância robustos.

No contexto brasileiro, especialistas avaliam que o número conhecido pode ser subestimado. Jerusa Smid, neurologista do Hospital das Clínicas da USP, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que a doença não é tão rara quanto os dados disponíveis no país sugerem.

Entre 2005 e 2021, o Ministério da Saúde recebeu 1.576 notificações de suspeita de DCJ, sendo 547 confirmadas, 457 descartadas e 572 (ou 36,3%) sem classificação final definida.

Para compreender a raridade, é necessário analisar a base biológica da doença: ela é causada por príons, proteínas que adquirem uma configuração anormal. Essas proteínas podem, por sua vez, forçar proteínas saudáveis do cérebro a mudarem de formato. Jerusa explica que, ao entrar em contato com outra proteína normal, a forma transformada induz essa última a se tornar um príon.

Este ciclo se repete, levando ao acúmulo dessas proteínas anormais e causando um dano progressivo às células cerebrais. Na sua manifestação mais comum, a forma esporádica, os cientistas ainda desconhecem o gatilho inicial dessa transformação, não havendo uma causa identificada que explique por que afeta certos indivíduos e não outros. É importante notar que a DCJ não é a única doença causada por príons; existem outras condições mais raras nesse grupo, como a síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker e a insônia fatal.

Por que a doença evolui tão rápido?

A aceleração da progressão da DCJ está diretamente relacionada à maneira como os príons atuam no cérebro. Ao assumirem uma conformação anômala, essas proteínas conseguem induzir a mudança de formato em proteínas saudáveis, disseminando o processo pelo tecido cerebral através de transformações sucessivas.

À medida que mais proteínas adotam a forma anormal, elas se acumulam, resultando em deterioração contínua das células cerebrais e comprometimento de diversas funções neurológicas. Por essa razão, os sintomas podem se agravar em um período muito menor do que em outras doenças neurodegenerativas.

Alterações significativas na memória, comportamento, coordenação e movimentos podem surgir e intensificar-se em questão de poucos meses. Essa rapidez é um indicador que auxilia os médicos a levantar a suspeita da enfermidade, embora não seja suficiente para confirmar o diagnóstico, pois outras causas de demência progressiva rápida devem ser investigadas e excluídas.

Por que o diagnóstico pode ser tão difícil?

Um obstáculo primordial reside na ausência de um sintoma inicial exclusivo da DCJ. O quadro clínico pode se apresentar de maneiras variadas, gerando confusão com outras doenças neurológicas.

Os sinais que podem manifestar-se incluem perda de memória, modificações comportamentais, dificuldade de locomoção, desequilíbrio, falta de coordenação e movimentos involuntários. Todos esses sinais são comuns em patologias muito mais prevalentes.

Marcio Luiz Figueredo Balthazar, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, esclarece que, em termos gerais, a doença de Alzheimer tende a evoluir ao longo de anos ou décadas, enquanto a Creutzfeldt se estabelece de modo mais veloz e possui uma sobrevida significativamente menor. Ele adiciona que a DCJ entra no diagnóstico diferencial de o que é chamado de demência rapidamente progressiva, que abrange múltiplas etiologias.

Entre as possibilidades que requerem investigação estão encefalites, doenças autoimunes, outros quadros neurodegenerativos e alterações metabólicas. Este processo é vital, pois algumas dessas condições possuem tratamento, exigindo que a investigação descarte outras causas de deterioração rápida da memória, do raciocínio e dos movimentos antes de se chegar ao diagnóstico definitivo de DCJ.

Embora a progressão rápida sirva como pista, Balthazar enfatiza que a velocidade, isoladamente, não confirma o diagnóstico, visto que outras causas de demência progressiva rápida também precisam ser consideradas.

Quais exames são usados na investigação?

Não existe um exame padrão único que resolva a investigação em todos os pacientes. Geralmente, o neurologista integra o histórico clínico e o exame físico com diversos testes complementares.

Entre os procedimentos mais relevantes estão a ressonância magnética cerebral, que pode revelar padrões característicos do quadro; a punção lombar, utilizada para analisar o líquor; o RT-QuIC, um exame que procura evidências da proteína priônica anormal no líquor; o eletroencefalograma (EEG), que monitora a atividade elétrica cerebral; e outros testes sanguíneos e de líquor para descartar infecções, doenças autoimunes e alterações metabólicas.

A ressonância magnética é particularmente relevante, pois certos padrões cerebrais podem reforçar consideravelmente a suspeita diagnóstica. O RT-QuIC, ou Conversão Induzida por Tremor em Tempo Real, representa um avanço recente, pois detecta indiretamente a atividade característica dos príons. Jerusa aponta que, apesar de ser útil na maioria dos casos, sua disponibilidade no Brasil ainda é limitada.

Quando realizado, o RT-QuIC utiliza uma amostra de líquor, expondo-a a proteínas normais. Se houver príons presentes, eles induzem essas proteínas a sofrerem alteração de forma, permitindo a detecção da reação. O teste foi incorporado à prática clínica em meados da década passada e ganhou importância na investigação da DCJ devido à sua alta precisão, apresentando especificidade próxima de 100% em estudos com grupos de pacientes. No entanto, a sensibilidade, que mede a capacidade do exame de identificar corretamente os doentes, pode variar, o que implica que alguns casos podem não ser detectados.

Por que pode haver subnotificação no Brasil?

A própria raridade da doença impõe uma barreira inicial: é necessário que a doença seja lembrada para que a investigação seja iniciada. Um neurologista pode atender inúmeros pacientes com queixas de memória, mas encontrar poucos casos de DCJ ao longo de sua carreira.

Adicionalmente, os exames necessários frequentemente demandam centros de maior infraestrutura. Balthazar ressalta que a doença é inerentemente rara e, muitas vezes, difícil de ser suspeitada.

Jerusa também destaca a disparidade entre a ocorrência estimada internacionalmente e o volume de diagnósticos registrados no país, indicando que há prováveis casos não identificados. Os próprios registros oficiais brasileiros demonstram falhas; no levantamento de 2005 a 2021, mais de um terço das notificações carecia de classificação final. Ademais, o boletim do Ministério da Saúde registrou ausência de informações sobre a evolução clínica em mais da metade das notificações analisadas, limitando a conclusão sobre quantos casos são perdidos no diagnóstico no Brasil, mas evidenciando as restrições na vigilância da doença.

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