Os dados coletados pela plataforma INSPIRE, desenvolvida pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), apontam para uma situação crítica no estado do Amapá: 43,4% dos estudantes amapaenses com idades entre 13 e 17 anos relataram ter sido vítimas de bullying. Este tipo de violência inclui zombaria, intimidação, humilhação ou escárnio praticado por colegas no ambiente escolar.
O Amapá apresenta a segunda maior taxa de vitimização em toda a Região Norte, superando significativamente a média nacional brasileira, que é de 40,0%. A plataforma INSPIRE foi concebida pelo Infinis, utilizando diretrizes internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef, com o objetivo de consolidar indicadores estratégicos e apoiar gestores públicos no planejamento de medidas contra a violência infantil e juvenil.
Pesquisa do Infinis/Quaest sobre a percepção de insegurança e violência entre alunos
Em um levantamento adicional, conduzido pelo Infinis em colaboração com o Instituto Quaest e a Fundação José Luiz Setúbal, foi analisada a visão da população brasileira acerca da segurança nos espaços escolares. Na Região Norte, 73% dos residentes consideram as escolas pouco ou totalmente inseguras para crianças e adolescentes. Dentre aqueles que percebem o ambiente escolar como inseguro, 79% culpam a violência entre os próprios estudantes, representando o maior percentual do país, superando o Centro-Oeste (77%), Nordeste (71%), Sudeste (70%) e Sul (61%).
Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, enfatizou que a progressão da violência para dentro das salas de aula prejudica o processo de aprendizagem. Ela ressaltou que a escola deve ser um local seguro para o desenvolvimento e formação de laços, e que a pesquisa indica caminhos para reverter este cenário, como o fortalecimento da capacidade de educadores e famílias em identificar e lidar com situações de violência.
Internet e cyberbullying
O estudo também investigou os riscos presentes no meio virtual. Na Região Norte, 82% da população avalia que crianças e jovens estão sujeitos a crimes virtuais, e 31% informam conhecer vítimas de assédio online ou cyberbullying. Em âmbito nacional, 89% dos entrevistados consideram o público infantojuvenil vulnerável na rede. Segundo a executiva, é urgente implementar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital para proteger os jovens da região.
Kalvon acrescentou que o ECA Digital introduziu diretrizes inovadoras e mecanismos de responsabilização, mas o desafio atual reside em assegurar que essa legislação deixe de ser apenas um documento e se integre à rotina das famílias. O levantamento também evidenciou uma redução na vigilância familiar conforme a idade avança: enquanto 94% dos pais monitoram o uso da internet por crianças de até 5 anos, esse índice cai para 68% na faixa etária de 15 a 17 anos. Para Márcia, essa mudança de fase requer um diálogo orientado, aconselhando os pais a conversarem com os jovens sobre os perigos virtuais sem violar sua privacidade.
Como gestores podem usar os dados
A plataforma INSPIRE, apresentada durante um fórum em São Paulo, funciona como uma ferramenta fundamentada em normas de organismos internacionais. Seu propósito é auxiliar gestores públicos, tanto estaduais quanto municipais do Amapá, no planejamento de estratégias contra a violência infantil e juvenil. A diretora Márcia sublinhou que qualquer planejamento na Região Norte deve levar em conta os povos originários e as comunidades tradicionais.
Ela declarou que não é viável planejar intervenções no Norte sem considerar os aspectos culturais e territoriais, as comunidades ribeirinhas e o enfrentamento ao racismo. Afirmou que a atuação pública necessita respeitar as particularidades locais e regionais para evitar a criação de novas formas de violência.
Baixa confiança e integração
De acordo com a pesquisa realizada pelo Quaest, somente 30% dos brasileiros expressam grande confiança nas escolas para proteger os jovens. Para aproximar as instituições de ensino da comunidade, a diretora defende a integração entre os setores de Educação, Saúde e Assistência Social. Concluiu que, visto que a violência é um fenômeno multifacetado, é necessário unificar a escola, as famílias, os Conselhos Tutelares e todo o sistema de garantia de direitos em uma rede protetiva eficaz.
Sobre a pesquisa
A pesquisa intitulada «Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil» envolveu 2.202 participantes com 18 anos ou mais, abrangendo 128 municípios brasileiros. A coleta de dados ocorreu entre 29 de maio e 7 de junho de 2026, com uma margem de erro estimada de dois pontos percentuais para mais ou para menos, mantendo um nível de confiança de 95%.
